domingo, 16 de abril de 2017

Os evangelhos inicialmente não circulavam como documentos anónimos


"Todos os quatro Evangelhos são anónimos no sentido formal de que o nome do autor não aparece no texto da obra em si, mas apenas no título (o que discutiremos abaixo). Mas isso não significa que eles eram intencionalmente anónimos. Muitas obras antigas eram anónimas no mesmo sentido formal, e o nome pode até nem aparecer no título sobrevivente da obra. Por exemplo, isto é verdade para a Vida de Demonax de Luciano (Demonactos bios), que como uma bios (biografia antiga) é genericamente comparável com os Evangelhos. No entanto, Luciano fala na primeira pessoa e obviamente espera que os seus leitores saibam quem ele é. Tais obras, muitas vezes, circulavam em primeira instância entre amigos ou conhecidos do autor que sabiam quem era o autor a partir do contexto oral em que a obra era lida pela primeira vez. O conhecimento da autoria seria transmitido quando cópias fossem feitas para outros leitores, e o nome seria anotado, com um título breve, na parte externa do rolo ou numa etiqueta afixada ao rolo. Ao negar que os Evangelhos eram originalmente anónimos, a nossa intenção é negar que eles foram inicialmente apresentados como obras sem autores. O caso mais claro é Lucas por causa da dedicação da obra a Teófilo (1:3), provavelmente um patrono. É inconcebível que uma obra com um dedicatário nomeado fosse anónima. O nome do autor podia figurar num título original, mas em todo o caso seria conhecido pelo dedicatário e outros primeiros leitores, porque o autor apresentava o livro ao dedicatário.... No século I d.C., a maioria dos autores davam aos seus livros títulos, mas a prática não era universal... Independentemente de algum desses títulos se originar ou não dos próprios autores, a necessidade de títulos que distinguissem um Evangelho de outro surgiria assim que alguma comunidade cristã tivesse cópias de mais do que um na sua biblioteca e lesse mais do que um nas suas reuniões de culto... No caso dos códices, "etiquetas apareciam em todas as superfícies possíveis: abas, capas e lombadas". Neste sentido também, portanto, os Evangelhos não teriam sido anónimos quando eles pela primeira vez circulavam pelas igrejas. Uma igreja ao receber a sua primeira cópia de um evangelho receberia com ele informação, pelo menos em forma oral, sobre a sua autoria e, em seguida, usava o nome do seu autor quando etiquetava o livro e quando o lia no culto. Nenhuma evidência existe que estes Evangelhos alguma vez foram conhecidos por outros nomes".

(Richard Bauckham, Jesus And The Eyewitnesses [Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 2006], pp. 300-301, 303)

"No entanto, permanece o facto de que é totalmente improvável que neste período obscuro, num lugar particular ou através de uma pessoa ou por decisão de um grupo ou instituição desconhecida, as quatro subscrições dos Evangelhos, que até então circulavam anonimamente, de repente surgissem e, sem deixar vestígios de títulos divergentes anteriores, se estabelecessem em toda a igreja. Que aqueles que negam a grande antiguidade e, portanto, basicamente a originalidade das subscrições dos Evangelhos para preservar a sua "boa" consciência crítica, dêem uma melhor explicação da testificação completamente unânime e relativamente cedo destes títulos, da sua origem e dos nomes dos autores associados a eles. Tal explicação ainda não foi dada, e nunca será. Os académicos do Novo Testamento persistentemente ignoram factos e questões básicas com base em velhos hábitos".

(Martin Hengel, The Four Gospels And The One Gospel Of Jesus Christ [Harrisburg, Pennsylvania: Trinity Press International, 2000], p. 55)

sábado, 8 de abril de 2017

A mais antiga (e única) oração a Maria dos primeiros quatro séculos de cristianismo


Tudo o que quatro séculos de cristianismo nos deixou sobre orações à bem-aventurada Maria se resume a uma oração chamada Sub tuum praesidium.  Segundo um reconhecido mariólogo:

"Em 1938 dava-se a conhecer o papiro em que estava contida essa oração (Payrus n. 470 da John Rylands Library de Manchester)... Traduzido na sua forma original diz: «Debaixo da tua misericórdia nos refugiamos, ó Theotokos, não desprezes as nossas súplicas na necessidade, mas livra-nos do perigo, única pura, única bendita». Das considerações de Mercenier deduzia-se que devia-se situá-lo entre 300 e 450. A primeira data deduzia-se pelo tipo de escrita. A segunda porque existe uma tradução copta, a qual suporia que o texto original é anterior à ruptura dos monofisitas ... esta segunda argumentação, no entanto, não é demonstrativa, já que não consta que a tradução copta seja antiga... Por razões que nem a todos parecerão convincentes ... Stegmüller, a.c., p. 77/82, estabelece uma data não anterior a finais do século IV e não posterior ao ano 500".

(Cándido Pozo, S.I., María en la obra de redención. Madrid: BAC, 1974, p. 39, n. 89).

Em suma, a mais antiga oração a Maria de que há registo só foi dada a conhecer no século XX, data dos séculos IV ou V, embora é provável que seja anterior ao Concílio de Éfeso de 431, e não se sabe onde e por quem foi escrita. 

Parece pois que orações à bem-aventurada Maria, brilham pela sua ausência, nos primeiros quatro séculos de cristianismo.
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