terça-feira, 30 de julho de 2013

A Origem da Bíblia

Um bom livro, publicado em português pela CPAD, para quem quer saber mais sobre a Bíblia do ponto de vista histórico, teológico, e literário.

Pode ser encontrado aqui:  

domingo, 28 de julho de 2013

Algumas questões a reter sobre a Bíblia


Pode provar-se que a Bíblia é inspirada por Deus?
A inspiração divina da Bíblia não pode ser provada positivamente através de uma dedução matemática ou um teste em laboratório, porque é algo do âmbito espiritual e apenas se pode discernir espiritualmente através do testemunho do Espírito Santo. Portanto, a prova ou certeza da sua inspiração somente pode tê-la quem já creu em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador.
No entanto, a inspiração pode ser corroborada através de factos acerca da Bíblia.
Entre as principais razões, menciono:
A. Consistência interna. Apesar de ter sido escrita num longo intervalo, em diferentes lugares e por pessoas de condição diferente, a Bíblia possui uma coerência notável nos seus ensinamentos acerca de Deus, do homem e da salvação. Nas suas páginas pode notar-se um progresso tanto na revelação como na obra de salvação.
B. Ensinamentos. Se mais pessoas obedecessem aos ensinamentos da Bíblia não há dúvida que este mundo seria um melhor lugar para todos.
C. Profecia preditiva cumprida. A Bíblia contém muitas profecias cujo cumprimento está registado na história. Há outras que ainda não se cumpriram, mas a fidelidade das predições anteriores nos levam a crer que tudo será cumprido.
D. Milagres. Muitos milagres bíblicos foram corroborados mesmo por testemunhas hostis. Notavelmente, na Bíblia os milagres estão concentrados em três épocas cruciais: o tempo do Êxodo, o dos profetas do século IX, e o de Jesus e dos Apóstolos. Os maiores milagres são, desde logo, a encarnação de nosso Senhor e a sua ressurreição.
E. Confiabilidade histórica. Tanto documentos extra-bíblicos como a arqueologia fazem pensar que a história que a Bíblia narra é correcta. Ainda que existam lacunas (como em outras áreas do conhecimento da antiguidade) nenhuma das afirmações históricas da Bíblia foi refutada com êxito.
F. Transmissão e conservação providencial do texto bíblico. Tanto o texto hebraico do Antigo Testamento como o texto grego do Novo Testamento foi preservado com notável exactidão em comparação com qualquer outro documento antigo.
G. Resultados nas vidas transformadas daqueles que puseram a sua fé em Cristo e seguem os ensinamentos da Bíblia. Numa ocasião um mestre cristão foi confrontado por um ateu militante que proclamava que o homem melhorava quando rejeitava a religião e admitia a inexistência de Deus. Sem hesitar, o pastor lhe respondeu que com gosto traria no dia seguinte cem pessoas cujas vidas tinham sido transformadas para melhor pelo Evangelho, desde que o seu interlocutor se comprometesse a trazer outras tantas pessoas cujas vidas tivessem sido mudadas para melhor pelo ateísmo... ou pelo menos dez. Obviamente isso não ocorreu.
Quais foram os critérios adoptados pela Igreja cristã para a canonização de um livro?
Os critérios que é possível inferir a partir da história da Igreja são:
1. Autoridade apostólica. Devem ser livros escritos por um Apóstolo ou por um dos seus colaboradores (tal o caso de Lucas, companheiro de Paulo, e de Marcos, intérprete de Pedro).
2. Antiguidade. Este critério, como o que se segue, é subsidiário do primeiro. Se a obra em questão não era antiga, não podia dever-se a um dos Apóstolos ou seus discípulos.
3. Ortodoxia. Conformidade da doutrina com a de outros livros já reconhecidos e com o ensino da Igreja.
4. Universalidade. O livro em questão devia em princípio ser amplamente reconhecido; isto atrasou, embora não tenha impedido, por exemplo, a inclusão de Hebreus (posto em dúvida pela Igreja de Roma). Os escritos apostólicos, mesmo os dirigidos a congregações locais, tiveram na sua maioria ampla circulação e difusão. Estreitamente relacionado está o critério do uso antigo e generalizado.
5. Inspiração divina. O reconhecimento generalizado, guiado pelo Espírito Santo, de que certos livros e não outros tinham sido inspirados por Deus.
Note-se que o cânon bíblico não é fruto de uma decisão arbitrária de algum concílio ou decreto papal, mas obedece a critérios objectivos, baseados em características singulares, pelas quais, os livros canonizados se impuseram a si mesmo à Igreja.
O apóstolo Paulo menciona na sua carta a Timóteo que "Toda Escritura é Inspirada por Deus ...." mas esta citação refere-se ao que os judeus entendiam por Escritura, o Antigo Testamento. Como então aplicar o que diz ao Novo Testamento?
O ensinamento de Paulo não é uma declaração sobre a delimitação da extensão do cânon das Sagradas Escrituras mas uma ajuda para entender a natureza da Escritura como Palavra de Deus. Portanto, se bem que ele se refira primariamente ao Antigo Testamento (embora Paulo também parece chamar Escritura ao Evangelho de Lucas), o que diz é igualmente válido para as Escrituras do Novo Testamento.
Dizes que a declaração de Paulo diz respeito à natureza ou valor das Escrituras. Aceitemos então isso. Ora, quem é que tem autoridade para discernir a natureza ou valor de um texto escrito de forma que passe a ser considerado como parte da Escritura? A IGREJA.

A Igreja, por intermédio dos Apóstolos e alguns dos seus discípulos mais próximos, deu à luz o Novo Testamento, expressão escrita do que eles ensinaram oralmente. Uma vez concluído, o Novo Testamento teve uma autoridade intrínseca que não depende de uma concessão graciosa da Igreja. Em outras palavras, a Igreja não “autoriza” a Palavra de Deus. A reconhece, confessa e proclama (ou deveria).

Uma consideração importante é se se concebe o cânon como uma lista inspirada de livros ou como uma lista de livros inspirados. Em outras palavras, neste segundo caso, se o termo "cânon" se toma em sentido activo, em relação aos livros que constituem a norma da vida e fé cristãs; ou, pelo contrário, em sentido passivo, como a lista de livros que foi fixada pela Igreja como normativos.

Os cristãos crêem que as Escrituras do NT são a norma que governa (norma normans), isto é, um conjunto de livros inspirados com uma autoridade intrínseca que a Igreja se limitou a reconhecer e proclamar. Ou em outras palavras, a Igreja não autorizou o cânon, mas reconheceu que estes livros e não outros eram autorizados por ter sido inspirados por Deus.

A história diz-nos de que foram necessários pelo menos cerca de 4 séculos de discussões durante os quais todos e cada um dos livros que compõem o Novo Testamento foram devidamente questionados num ou noutro momento. Porquê tanta indefinição?
Na realidade o problema que menciona é mais patente em relação ao Antigo Testamento. Com efeito, os livros chamados Deuterocanónicos pelos católicos e Apócrifos pelos protestantes, permaneceram num estado de indefinição (apesar de algumas decisões de sínodos locais) até que, pelo menos para a Igreja de Roma, foram incorporados explicitamente no Concílio de Trento (1546).
Além disso, exagera a situação em mais de um sentido. Não é verdade, por exemplo, que todos e cada um dos livros que compõem o Novo Testamento fossem questionados.
Já na segunda metade do século II existia um consenso indiscutível para os autores ortodoxos acerca dos quatro Evangelhos canónicos, Actos, as epístolas de Paulo, 1 João e 1 Pedro. Acerca do resto dos livros havia opiniões diversas.
Após 4 séculos de discussão foi um concílio CATÓLICO sob a autoridade de um papa que definiu o cânon Bíblico. Como um crente Evangélico que nega qualquer autoridade ao romano pontífice pode ter certeza que o seu cânon bíblico é o correcto?
Isto é absolutamente errado; a realidade histórica é muito diferente.
A primeira lista dos 27 livros do NT tal como hoje aparecem em todas as bíblias cristãs a deu Atanásio de Alexandria em 367.
Existe um documento supostamente escrito no século VI, o Decretum Gelasii, segundo o qual em 382 um sínodo de Roma presidido pelo seu bispo, Dámaso, teria sancionado a mesma lista. Mas se isso fosse verdade - e é duvidoso que o seja - o tal decreto não teve nenhum eco na Igreja Católica Antiga (da qual Roma era só uma parte).
O primeiro concílio cuja realidade histórica é indubitável que formulou uma lista dos 27 livros do NT foi o de Cartago de 397, um sínodo local que certamente nem foi convocado pelo bispo de Roma nem contou com a sua sábia opinião.
Nenhum Concílio verdadeiramente ecuménico (isto é, com participação da Igreja Universal) nem nenhum bispo de Roma dos primeiros quinze séculos do cristianismo sancionou o cânon do NT. As listas coincidentes de Atanásio, de Dámaso (se se aceitar a sua autenticidade) e de Cartago, simplesmente mostram o consenso que a Igreja universal alcançou em finais do século IV.
Na Igreja Ocidental, aceitou-se o cânon de 27 livros tal como Jerónimo os tinha incluído na Vulgata, sem maior discussão.
A primeira declaração dogmática documentada da Igreja de Roma a este respeito se produziu em 1546, pelo que se os pobres cristãos de todo o mundo tivessem tido que esperar que Roma se despachasse, teriam passado quinze séculos sem cânon.
O próprio Lutero na sua tradução da Bíblia para o alemão retirou do Cânon do N.T. alguns livros que colocou no fim da sua Bíblia como livros interessantes e de recomendada leitura para os crentes mas negando a sua Canonicidade,
Lutero pôs em dúvida a canonicidade de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. No entanto, não os excluiu da sua edição do Novo Testamento. Além disso, embora tenha expressado livremente as suas reservas, salientou que não desejava impor a outros as suas opiniões, e explicitamente declarou que não desejava tirar estes escritos do NT.
É muito interessante que sempre se repita este passo em falso do reformador alemão, e ao mesmo tempo se ignore o contexto histórico, já que durante o Renascimento ressurgiram dúvidas sobre a canonicidade de alguns livros do NT. E dado que não existia ainda uma declaração dogmática de assentimento obrigatório por parte de todos os fiéis de Roma, diversos eruditos dessa Igreja fizeram uso da liberdade que se questiona a Lutero.
Por exemplo, o Cardeal Tomás de Vio (1469-1534), mais conhecido como Caetano, escreveu comentários bíblicos nos quais punha em dúvida a autoria paulina de Hebreus e expressava dúvidas acerca da autoridade apostólica de Tiago, Judas e 2 e 3 João. Não sabemos o que opinava do Apocalipse, já que declinou comentá-lo e se limitou a declarar-se incapaz de penetrar nos seus mistérios.
Pela mesma época, o humanista Erasmo de Roterdão (m. 1536) que nunca abandonou a comunhão romana, questionou na primeira edição do seu NT grego (1516) a autoria tradicional de Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas; declarou que Apocalipse não era devido ao autor do quarto Evangelho (mais tarde tornou-se mais cauteloso, e declarou que estava disposto a submeter-se ao juízo da Igreja se esta dissesse outra coisa).
Mesmo depois do Concílio de Trento, o dominicano Sisto de Siena, na sua obra Bibliotheca Sancta dedicada ao Papa Pio V, dividia os livros do Novo Testamento em Proto e Deuterocanónicos; entre estes últimos incluía Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e o Apocalipse.
Portanto, não vejo que Lutero tenha procedido de maneira diferente de outros seus contemporâneos, fiéis católicos.
Além disso, os protestantes não atribuem ao Dr. Lutero a infalibilidade que negam ao papa.
posteriormente Calvino incluiu de novo esses livros.
Também não é verdade. Houve alguma confusão acerca da extensão do cânon do NT pela época da Reforma, mas por último todas as Igrejas protestantes admitiram o cânon que tinha sido fixado por consenso no século IV.
Calvino não teve que "incluir de novo" os livros em questão pela simples razão de que nunca os retirou antes. Com efeito, em todas as edições da Bíblia publicadas pelos reformadores genebrinos os livros do NT se apresentam do modo tradicional.
As Confissões Protestantes históricas reconheceram também o cânon histórico do NT:
Francesa de 1559;
Belga de 1561;
Trinta e Nove Artigos Anglicanos (1563)
Westminster (1647)
Se um dos critérios de canonização de um livro que os cristãos que determinaram o cânon seguiram era que o seu autor fosse reconhecido como membro dos apóstolos ou directamente relacionado com eles, como explicar a epístola aos Hebreus caso claro de autor desconhecido e outros muitos livros do N.T. cujo autor conhecido não o é pela certeza de quem o escreveu mas pela Tradição da Igreja que atribui tais escritos a determinados autores, 1ª de João não menciona quem é o seu autor mas a tradição e o estilo segundo eruditos cristãos o atribuem ao apóstolo João, é suficiente isto para declará-los Palavra de Deus, se é assim também a Tradição é Palavra de Deus não achas?? Não terá razão a igreja Romana?
Os protestantes não têm nenhum problema em admitir como válida uma tradição que atribui a autoria de um livro sagrado a determinado autor, desde que seja confiável e não haja evidências para pensar que essa tradição é falsa.
Apesar das dúvidas sobre a autoria, Hebreus foi por fim reconhecido unanimemente pela sua antiguidade e ortodoxia. Dificilmente tem razão a Igreja de Roma, já que ela teve um papel importante em atrasar a canonização de Hebreus, mas por fim aderiu ao consenso das demais igrejas.
Não houve dúvidas sérias acerca de 1 João; pelo contrário sim acerca de 2 e 3 João.
Por certo os primeiros cristãos que são exemplo para nós pelo menos assim se nos manifesta no livro de Actos não tinham mais escritura inspirada que o A.T. e posteriormente até que se conciliou um cânon unânime para a cristandade, as diversas igrejas continuavam usando as Escrituras do A.T. como Palavra de Deus ajudando-se com as diversas cartas e evangelhos que circulavam pela época mas que não sabemos se as consideravam Palavra de Deus ou livros de recomendada leitura como fez Lutero com alguns. Se fossem considerados como Palavra de Deus pensais que de verdade teriam desaparecido todos e cada um dos textos originais, não é muita casualidade que dos 27 livros do N.T. não se tenha conservado nem um só deles?? e a cópia mais antiga esteja datada para lá do século III.
É errado dizer que os primeiros cristãos não tinham mais escritura inspirada que o AT até que se conciliou um cânon unânime para a cristandade, pois o próprio Novo Testamento tem evidência de que os escritos apostólicos eram tidos como Escritura pelos próprios apóstolos: 2 Pedro 3:15-16 e 1 Timóteo 5:18 citando Lucas 10:7.
Os papiros do NT mais antigos datam da primeira metade do século II. Que os originais não se tenham conservado se deve a que provavelmente foram escritos em papiro, um material muito menos resistente ao uso contínuo que o pergaminho.
O texto do NT grego é confiável em mais de 99%, e as dúvidas que persistem são principalmente variantes leves que não modificam o significado nem afectam nenhuma doutrina cristã.
Muitos livros do Novo Testamento não foram considerados como canónicos até muitos séculos depois de Cristo? Foi a Igreja Católica que "tirou" as dúvidas sobre esses livros e nos deu o cânon do Novo Testamento.
O reconhecimento do cânon sem dúvida é um processo histórico (como o foi a redacção da Bíblia). A Igreja universal (católica em sentido antigo) efectuou tal reconhecimento em finais do século IV, manifestamente sem precisar de intervenção nem sanção da Igreja de Roma, a qual se limitou a aceitar e reconhecer o que outros tinham determinado – principalmente os bispos africanos. Não foi preciso nenhuma definição ex cathedra ou decreto de algum concílio romano para delimitar o cânon do Novo Testamento, o que é uma sorte pois do contrário o processo levaria uns bons séculos mais.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sola Scriptura e a Igreja Primitiva


A Reforma foi responsável por restaurar na Igreja o princípio de sola Scriptura, um princípio que tinha estado em vigor dentro da Igreja desde o início da era pós-apostólica. Inicialmente os apóstolos ensinaram oralmente mas com o fim da era apostólica toda a revelação especial que Deus quis preservada para o homem foi registada nas Escrituras. Sola Scriptura é o ensino e a crença de que há apenas uma revelação especial de Deus que o homem hoje possui, as Escrituras ou a Bíblia, e que, por conseguinte, as Escrituras são materialmente suficientes e são pela sua própria natureza de inspiradas por Deus a autoridade final para a Igreja. Isto significa que não há nenhuma parte da revelação que tenha sido preservada na forma de tradição oral independente da Escritura. O Concílio de Trento no século XVI, por outro lado, declarou que a revelação de Deus não estava contida somente nas Escrituras. Ela estava contida em parte nas Escrituras e em parte na tradição oral e, portanto, as Escrituras não eram materialmente suficientes. Este tem sido o ponto de vista universal dos teólogos católicos romanos por séculos após o Concílio de Trento e é o ponto de vista predominante hoje. É interessante notar, porém, que em círculos Católicos Romanos hoje há um debate em curso entre teólogos sobre a natureza da Tradição. Não há um entendimento claro do que é a Tradição no Catolicismo Romano. Alguns concordam com Trento e outros não. Mas o ponto de vista defendido por Trento contradiz e rejeita a crença e a prática da Igreja da época patrística. A Igreja primitiva sustentava o princípio de sola Scriptura uma vez que acreditava que toda a doutrina devia ser provada a partir da Escritura e se tal prova não pudesse ser produzida a doutrina deveria ser rejeitada.
 
Desde o início da era pós-apostólica com os escritos dos que conhecemos como Padres Apostólicos encontramos um apelo exclusivo às Escrituras para o ensino positivo da doutrina e para a sua defesa contra a heresia. Os escritos dos Padres Apostólicos literalmente respiram com o espírito do Antigo e Novo Testamentos. Com os escritos dos Apologistas tais como Justino Mártir e Atenágoras na primeira metade do segundo século encontramos a mesma coisa. Não há apelo em qualquer destes escritos para a autoridade da Tradição como um corpo separado e independente de revelação. É com os escritos de Ireneu e Tertuliano na segunda metade do segundo século que pela primeira vez encontramos o conceito de Tradição Apostólica que é preservada na Igreja de forma oral. A palavra Tradição significa simplesmente ensino. Mas o que estes padres querem dizer quando afirmam que este Ensino Apostólico ou Tradição é preservado oralmente? Tudo o que eles querem dizer é que os Bispos da Igreja pregam a verdade oralmente e qualquer pessoa interessada em aprender a verdadeira Tradição Apostólica poderá aprender simplesmente ouvindo o ensino oral dos Bispos de qualquer Igreja ortodoxa da época. Ireneu e Tertuliano declaram enfaticamente que todo o ensino dos Bispos que era dado oralmente estava enraizado na Escritura e podia ser provado a partir das Escrituras. Ambos os padres nos dão o conteúdo doutrinal real da Tradição Apostólica que era oralmente pregada nas Igrejas e todas as doutrinas são derivadas da Escritura. Não há doutrina nesta Tradição Apostólica que não seja encontrada na Escritura. E não há apelo nos escritos destes padres a uma Tradição que seja de natureza oral para uma defesa do que eles chamam de Tradição Apostólica. A Tradição Apostólica para Ireneu e Tertuliano é simplesmente a Escritura. Foi Ireneu quem afirmou que embora os apóstolos primeiramente tenham pregado oralmente, o seu ensino foi mais tarde colocado por escrito nas Escrituras e as Escrituras desde esse dia tornaram-se a coluna e o fundamento da nossa fé. A sua afirmação exacta é a seguinte: "Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé" (Alexander Roberts & W.H. Rambaugh Translators, The Writings of Irenaeus, Against Heresies (Edinburgh: T & T Clark, 1874), 3.1.1). A Tradição, quando se refere à proclamação oral tal como pregação ou ensino, era vista essencialmente como a apresentação oral da verdade Escritural, ou a codificação da verdade bíblica na expressão de credo.
 
Ireneu e Tertuliano tiveram de enfrentar os Gnósticos que foram os primeiros a sugerir e ensinar que possuíam uma Tradição Apostólica oral que era independente da Escritura. Estes padres primitivos rejeitaram tal noção e apelaram somente à Escritura para a proclamação e defesa da doutrina. A historiadora da Igreja, Ellen Flesseman-Van Leer confirma este facto:
 
Para Tertuliano a Escritura é o único meio para refutar ou validar uma doutrina quanto ao seu conteúdo ... Para Ireneu, a doutrina da Igreja certamente nunca é puramente tradicional; pelo contrário, o pensamento de que poderia haver alguma verdade, transmitida exclusivamente de viva voz (oralmente), é uma linha Gnóstica de pensamento ... Se Ireneu quer provar a verdade de uma doutrina materialmente, ele vira-se para a escritura, porque é aí que o ensino dos apóstolos é objectivamente acessível. A prova da tradição e da escritura serve um e o mesmo fim: identificar o ensino da Igreja como o ensino apostólico original. A primeira estabelece que o ensino da Igreja é este ensino apostólico, e a segunda, o que este ensino apostólico é (Ellen Flesseman-van Leer, Tradition and Scripture in the Early Church (Van Gorcum, 1953, pp. 184, 133, 144).
 
A Bíblia era a autoridade final para os padres da época patrística. Era materialmente suficiente e o árbitro final em todas as matérias de verdade doutrinal. Como JND Kelly apontou:
 
A mais clara demonstração do prestígio desfrutado pela (Escritura) é o facto de que quase todo o esforço teológico dos Padres, quer os seus objectivos fossem polémicos ou construtivos, foi despendido no que equivalia à exposição da Bíblia. Além disso, estava em toda parte dado como certo que, para qualquer doutrina ganhar aceitação, tinha primeiro que estabelecer-se a sua base Escritural (Early Christian Doctrines (San Francisco: Harper & Row, 1978), pp. 42, 46).
 
Heiko Oberman faz estes comentários sobre a relação entre Escritura e Tradição na Igreja primitiva:
 
Escritura e Tradição para a Igreja primitiva em nenhum sentido eram mutuamente exclusivas: kerygma (a mensagem do evangelho), Escritura e Tradição coincidiam inteiramente. A Igreja pregava o kerygma que se encontra na totalidade na forma escrita nos livros canónicos. A Tradição não era entendida como uma adição ao kerygma contido na Escritura mas como transmissão desse mesmo kerygma em forma viva: em outras palavras, tudo se encontrava na Escritura e ao mesmo tempo tudo estava na Tradição viva (The Harvest of Medieval Theology (Cambridge: Harvard University, 1963), p. 366).
 
Que os padres eram crentes firmes no princípio de sola Scriptura é claramente visto a partir dos escritos de Cirilo de Jerusalém, o bispo de Jerusalém em meados do século IV. Ele é o autor do que é conhecido como Leituras Catequéticas. Este trabalho é uma extensa série de leituras dadas aos catecúmenos expondo as principais doutrinas da fé. É uma explanação completa da fé da Igreja da sua época. E o seu ensino é exaustivamente fundamentado na Escritura. Não , de facto, um apelo na totalidade das Leituras a uma Tradição Apostólica oral que seja independente da Escritura. Ele afirma em termos inequívocos que se ele apresentasse qualquer ensino a estes catecúmenos que não pudesse ser validado a partir da Escritura, eles deveriam rejeitá-lo. Isto diz-nos que a sua autoridade como Bispo estava sujeita à sua conformidade com as Escrituras em seu ensino. A seguir estão algumas das suas afirmações extraídas das Leituras sobre a autoridade final da Escritura:
 
Este selo tem sempre na tua mente; o qual já em jeito de resumo foi abordado nos seus pontos principais, e se o Senhor permitir, será daqui em diante estabelecido segundo o nosso poder, com provas Escriturais. Porque a respeito dos divinos e sagrados mistérios da Fé, nem mesmo uma observação ocasional devemos proporcionar sem as Sagradas Escrituras; nem devemos ser desviados por meras probabilidades e artifícios de argumentos. Não acreditem pois em mim porque eu vos digo estas coisas, a menos que recebam das Sagradas Escrituras a prova do que é apresentado: porque esta salvação, que é da nossa fé, não é por raciocínios engenhosos, mas por prova das Sagradas Escrituras (A Library of the Fathers of the Holy Catholic Church (Oxford: Parker, 1845), The Catechetical Lectures of S. Cyril 4.17).
 
Mas toma e sustenta essa fé somente como um aprendiz e em profissão, que é pela Igreja entregue a ti, e é estabelecida a partir de toda a Escritura. Por nem todos poderem ler a Escritura, alguns por serem indoutos, outros por afazeres, são impedidos de ter conhecimento dela; a fim de que a alma não pereça por falta de instrução, nos Artigos que são poucos incluímos toda a doutrina da Fé... E no presente, confia à memória a Fé, apenas ouvindo as palavras; e espera na época oportuna a prova de cada uma das suas partes das Escrituras Divinas. Pois os artigos da Fé não foram compostos ao agrado dos homens: mas os pontos mais importantes escolhidos a partir de todas as Escrituras, formando o único ensino da . E, como a semente de mostarda num pequeno grão contém muitos ramos, assim também esta Fé, em poucas palavras, abrange no seu seio todo o conhecimento da piedade contido no Antigo e Novo Testamentos. Observai, pois, irmãos e conservai as tradições que agora recebeis, e escrevei-as sobre a tábua dos vossos corações (Ibid., Lecture 5.12).
 
Note-se aqui que Cirilo afirma que estes catecúmenos estão a receber Tradição e exorta-os a manter as tradições que eles estão agora a receber. Donde é que esta Tradição deriva? Ela obviamente deriva das Escrituras. O Ensino ou Tradição ou Revelação de Deus que foi confiado aos Apóstolos e repassado à Igreja está agora acessível na Escritura SOMENTE. É significativo que Cirilo de Jerusalém, que está comunicando a totalidade da fé a estes catecúmenos, não fez um único apelo a uma Tradição oral para apoiar os seus ensinamentos. A totalidade da fé está fundamentada nas Escrituras e nas Escrituras somente. Este princípio também é enunciado por Gregório de Nissa:
 
A generalidade dos homens ainda flutua nas suas opiniões acerca disto, as quais são tão erradas como são numerosas. Quanto a nós, se a filosofia gentílica, que trata metodicamente todos estes pontos, fosse realmente adequada para uma demonstração, seria com certeza supérfluo adicionar uma discussão acerca da alma a tais especulações, mas enquanto as últimas prosseguiram, sobre o assunto da alma, na direcção das supostas consequências como ao pensador aprouve, nós não estamos autorizados a tal permissão, quero dizer que não nos está permitido afirmar o que nos aprouver; nós fazemos das Sagradas Escrituras a regra e a medida de cada doutrina (dogma); nós necessariamente fixamos os nossos olhos sobre isto, e aprovamos somente aquilo que se harmoniza com a intenção destes escritos. (Philip Schaff and Henry Wace, Nicene and Post-Nicene Fathers (Peabody: Hendrikson, 1995), Second Series: Volume V, Philosophical Works, On the Soul And the Resurrection, p. 439).
 
Basílio, o Grande, o bispo de Cesareia de 370 a 379 dC, atesta a sua crença na natureza toda-suficiente das Escrituras nestas palavras tiradas de uma carta que ele escreveu a uma viúva:
 
Desfrutando como você faz da consolação das Sagradas Escrituras, você não precisa nem da minha assistência, nem da de ninguém para ajudá-la a compreender o seu dever. Você tem o conselho todo-suficiente e a orientação do Espírito Santo para levá-la ao que é certo (Philip Schaff and Henry Wace, Nicene and Post-Nicene Fathers (Peabody: Hendrikson, 1995), Second Series: Volume VIII, Basil: Letters and Select Works, Letter CCLXXXIII, p. 312). 
 
Estes padres são simplesmente representativos dos padres como um todo. Cipriano, Orígenes, Hipólito, Atanásio, Firmiliano, Agostinho são apenas alguns dos padres que poderiam ser citados como proponentes do princípio de sola Scriptura, em adição a Tertuliano, Ireneu, Cirilo e Gregório de Nissa. A Igreja primitiva operou com base no princípio de sola scriptura e foi este princípio histórico que os Reformadores procuraram restaurar na Igreja.
 
O uso extensivo da Escritura pelos padres da Igreja primitiva desde o início é visto nos seguintes factos:
 
Ireneu: Conheceu Policarpo que foi discípulo do apóstolo João. Viveu entre 130-202 dC. Ele cita 24 dos 27 livros do Novo Testamento. Ele faz mais de 1800 citações do Novo Testamento somente.
 
Clemente de Alexandria: Viveu entre 150 e 215 dC. Citou todos os livros do Novo Testamento, excepto Filemom, Tiago e 2 Pedro. Ele dá 2400 citações do Novo Testamento.
 
Tertuliano: Viveu entre 160 e 220 ​​dC. Ele faz mais de 7200 citações do Novo Testamento.
 
Orígenes: Viveu entre 185-254 dC. Sucedeu a Clemente de Alexandria na escola Catequética de Alexandria. Ele faz cerca de 18000 citações do Novo Testamento.
 
Pelo fim do século III praticamente todo o Novo Testamento poderia ser reconstruído a partir dos escritos dos Padres da Igreja. Norman Geisler e William Nix resumem a posição das Escrituras do Novo Testamento na Igreja primitiva nestas palavras: "Em resumo, os primeiros cem anos da existência dos vinte e sete livros do Novo Testamento revelam que praticamente cada um deles foi citado como autoritário e reconhecido como canônico por homens que eram eles próprios os contemporâneos mais jovens da época apostólica (Norman Geisler and William Nix, A General Introduction to the Bible (Chicago: Moody, 1980), p. 190).
 
B.F. Wescott chega a uma conclusão semelhante: "Com excepção da Epístola aos Hebreus, das duas Epístolas mais curtas de São João, da segunda Epístola de São Pedro, das Epístolas de São Tiago e São Judas, e do Apocalipse, todos os outros livros do Novo Testamento são reconhecidos como Apostólicos e autorizados em toda a Igreja em finais do século II. A evidência dos grandes Padres pelos quais a Igreja é representada varia em relação a estes livros disputados, mas o Cânon dos livros reconhecidos é estabelecido pelo seu consentimento comum. Portanto o testemunho em que assenta não é recolhido a partir de uma fracção mas de muitos, e dos mais largamente separados pela posição e carácter. Ele é dado, não como uma opinião particular, mas como um facto inquestionável: não como uma descoberta tardia, mas como uma tradição original (B.F. Westcott, A General Survey of the History of the Canon of the New Testament (Cambridge: Macmillan, 1889), pp. 337-338).
 
É verdade que a Igreja primitiva sustentou o conceito de Tradição referindo-se a costumes e práticas eclesiásticas e que muitas vezes acreditava-se que tais práticas foram realmente transmitidas pelos Apóstolos mesmo que elas não pudessem ser necessariamente validadas a partir das Escrituras. Mas estas práticas não envolvem as doutrinas da fé e eram muitas vezes contraditórias entre diferentes segmentos da Igreja. Um exemplo disto é encontrado no início do segundo século, na controvérsia sobre quando celebrar a Páscoa. Certas Igrejas Orientais celebravam-na num determinado dia, enquanto o Ocidente celebrava-a num dia diferente, mas ambos os lados alegavam que a sua prática particular tinha sido transmitida a eles directamente dos Apóstolos. Na verdade, isto levou a um conflito com o Bispo de Roma, o qual exigia que os bispos do Oriente se submetessem à prática do Ocidente. Mas eles recusaram-se a fazê-lo, por crerem firmemente que estavam aderindo à Tradição Apostólica. Quem estava correcto? Não há maneira de determinar isto, se é que alguma dessas práticas tinha, verdadeiramente, origem Apostólica. É interessante, porém, notar que um dos proponentes da visão do Oriente foi Policarpo, que foi um discípulo do apóstolo João. E há outros exemplos deste tipo de alegação na história da Igreja. Só porque um particular padre da Igreja afirma que uma determinada prática é de origem Apostólica não significa necessariamente que seja. Tudo o que isso significa é que ele acreditava que era. Mas não há nenhuma maneira de verificar se de facto ela realmente era uma tradição dos apóstolos. Há numerosas práticas em que a Igreja primitiva estava envolvida as quais se acreditava serem de origem Apostólica que são enumeradas para nós por Basílio, o Grande, que ninguém pratica hoje na Igreja. De modo que, claramente, tais apelos para a Tradição Apostólica oral não têm sentido.
 
A Igreja Católica Romana afirma que possui uma Tradição Apostólica oral que é independente da Escritura e que é obrigatória para os homens. Ela apela à declaração de Paulo em 2 Tessalonicenses 2:15 para a justificação de tal alegação, onde Paulo afirma que ele transmitiu tradições ou ensinamentos a esta Igreja na forma oral e escrita. Roma afirma que, com base no ensino de Paulo nesta passagem, o ensino de sola Scriptura é falso, já que ele transmitiu ensinamentos aos Tessalonicenses na forma oral e escrita. Mas o que é interessante neste apelo é que os apologistas romanos nunca documentam as doutrinas específicas a que Paulo se está a referir as quais eles alegam possuir e as quais são obrigatórias para os homens. Em todos os escritos dos apologistas desde a Reforma até aos dias de hoje ninguém foi capaz de listar as doutrinas que compõem esta suposta Tradição Oral Apostólica. Desde Francisco de Sales até aos escritos de Karl Keating e Robert Sungenis há esta conspícua ausência. Sungenis é editor de uma obra recentemente lançada em defesa da doutrina católica romana da Tradição intitulada Not By Scripture Alone. Ela é apresentada como a refutação definitiva do ensino protestante de Sola Scriptura. Contém 627 páginas. Mas nem uma vez em todas as 627 páginas o autor define o conteúdo doutrinal desta suposta Tradição Apostólica que é obrigatória para todos os homens. Tudo o que é dito é que ela existe, que a Igreja Católica Romana a possui, e que estamos obrigados, portanto, a nos submetermos a esta Igreja a qual possui em exclusivo a plenitude da revelação de Deus a partir dos Apóstolos. Mas eles não podem nos dizer o que ela é. E a razão é porque ela não existe. Se estas doutrinas são de tal importância por que Cirilo de Jerusalém não as mencionou nas suas Leituras Catequéticas? Eu desafio qualquer um a listar as doutrinas a que Paulo se está a referir em 2 Tessalonicenses 2:15 as quais ele diz que transmitiu oralmente aos Tessalonicenses.
 
A autoridade Católica Romana sobre Tradição, Yves Congar, faz esta observação interessante sobre a natureza da revelação da dispensação do Antigo Testamento:
 
A Revelação é uma divulgação do seu mistério que Deus faz aos homens ... uma divulgação através de sinais criados, garantida por Deus para não nos enganar, embora eles possam ser muito imperfeitos. Estes sinais são eventos, realidades, acções e palavras; mas em última análise, pelo menos no que diz respeito à Antiga Aliança, os eventos e as acções são conhecidos por nós apenas em palavras, e palavras escritas, a saber: os escritos da Sagrada Escritura (Yves Congar, Tradition and Traditions (New York: Macmillan, 1966), p. 238).  
 
Yves Congar admite prontamente o princípio de sola Scriptura em relação ao Antigo Testamento. A única revelação que possuímos dessa dispensação são as Escrituras, apesar dos profetas desde o início terem pregado e ensinado oralmente. Os protestantes simplesmente dizem que o mesmo princípio se aplica à dispensação do Novo Testamento. Para parafrasear Congar: a revelação de Deus na dispensação do Novo Testamento é conhecida por nós apenas em palavras, e palavras escritas, a saber: os escritos da Sagrada Escritura. A única revelação especial que o homem hoje possui de Deus que foi transmitida aos Apóstolos são as Escrituras do Novo Testamento. Esta foi a crença e a prática da Igreja da época patrística e foi o princípio respeitado pelos reformadores o qual tentaram restaurar na Igreja após a corrupção doutrinal ter entrado pela porta da Tradição. O ensino de um corpo separado de revelação Apostólica conhecido como Tradição que é de natureza oral originou-se, não com a Igreja Cristã, mas com o Gnosticismo. Este foi uma tentativa dos gnósticos de reforçar a sua autoridade afirmando que as Escrituras não eram suficientes. Eles afirmaram que possuíam a plenitude da revelação apostólica porque eles não só tinham a revelação escrita dos apóstolos nas Escrituras mas também a sua tradição oral, e a chave para interpretar e compreender essa revelação. Assim como os padres primitivos repudiaram este ensino e reivindicaram uma dependência exclusiva das Escrituras e apelaram para as Escrituras, assim também devemos fazer.
 
William Webster
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