quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

SOBRE O “BATISMO PELOS MORTOS”


Em 1 Coríntios 15:29, no contexto do seu ensino sobre a ressurreição de Jesus Cristo e a nossa, o Apóstolo Paulo pergunta:
Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam eles então pelos mortos?
Este versículo pode também ser literalmente traduzido como segue: “Doutra maneira, que farão os que são batizados em nome (‘por’ ou ‘sobre’; grego hyper) dos mortos (grego nekrôn)? Se [os] mortos (nekroi) não são ressuscitados de nenhuma maneira, por que se batizam eles então pelos (ou sobre os) mortos?
Este é o único versículo de toda a Bíblia que menciona um ‘batismo pelos mortos’. Entender o seu significado provável exige que primeiro examinemos o contexto, e só então estudemos a própria expressão.
Em relação ao contexto, Paulo está refutando alguns membros da igreja de Corinto que rejeitavam a doutrina da ressurreição física (v. 12). Ele afirma que se é impossível que os mortos possam ressuscitar, então Cristo não foi verdadeiramente ressuscitado (v. 13). E se isto fosse verdade, então todo o Evangelho está baseado sobre uma gigantesca mentira e não é senão lixo: Ninguém pode realmente salvar-se, e os mortos simplesmente se foram para sempre, cessaram de existir (v. 14-19).
No entanto, continua Paulo, já que certissimamente confirmado por numerosas testemunhas, incluindo-se ele próprio, Cristo ressuscitou dentre os mortos, este fato garante que todos os crentes haverão de ser ressuscitados no momento propício. Jesus Cristo é as primícias que garantem a colheita completa! (v. 20-28).
Neste ponto Paulo faz menção do ‘batismo pelos mortos’. Através dos séculos propuseram-se muitas possíveis interpretações sobre esta prática. Eis aqui algumas das principais:
1. Com ligeiras mudanças na pontuação, o texto pode significar que já que o batismo é um símbolo da morte e da ressurreição do crente (ver Romanos 6) é inútil batizar-se se não há ressurreição.
2. Se ‘batismo’ é tomado aqui como figurativo, como na expressão ‘batismo de fogo’ para um soldado, o texto significaria que é néscio enfrentar todos os perigos a que estão expostos os cristãos, se realmente não existe esperança de ressurreição. O seguinte versículo (30) em que Paulo continua falando das suas próprias tribulações, apoiaria este ponto de vista).
3. Outros pensam que, dado o significado usual da preposição grega hyper, ou seja, “em nome de”, Paulo alude a uma prática de ser batizado em nome de algum defunto. Esta é a posição dos mórmones. Há evidência de que no segundo século, um grupo herético conhecido como os marcionitas (seguidores de Marcião) faziam isto, mas não está documentado no primeiro século. Seja como for, Paulo de modo algum está recomendando este costume. Aparentemente, tratava-se de um argumento ad hominem, como sugere o facto de ele se referir “aos que se batizam pelos mortos” na terceira pessoa, como se não pertencessem à igreja ou fossem uma fação dentro dela.
4. Alguns estimam que, dado o significado básico de hyper, trata-se de uma referência à prática, também não documentada no primeiro século, que tinham alguns cristãos de batizar-se nos cemitérios, sobre os túmulos de crentes defuntos.
5. Também, hyper ton nekrôn pode significar por causa, por respeito, ou por gratidão para com os crentes defuntos que marcaram o caminho da fé.
6. Outro matiz de significado poderia ser uma referência aos que se batizam seguindo o exemplo dos crentes já falecidos.
7. Ainda outra possibilidade é que se trate de uma alusão aos cristãos que passam pelo batismo com a esperança de ver de novo os que já faleceram (o que seria ridículo se não há ressurreição).
8. Também se propôs que se refere a que alguns cristãos consideravam o seu próprio batismo como um modo em que eles ‘substituíam’, no Corpo de Cristo sobre a terra, os que já tinham partido para estar com o Senhor.
9. Finalmente, já que o batismo é a identificação do crente com a morte e a ressurreição do Senhor, e realizava-se sob a sua autoridade e mandato, seria inútil se Jesus fosse simplesmente um mais de tantos mortos.
É extremamente imprudente e perigoso desenvolver qualquer doutrina com base numa única passagem da Escritura, e em particular numa cujo próprio significado está longe de ser claro. Os coríntios seguramente sabiam do que estava falando Paulo, mas nós não podemos sabê-lo com certeza.
A Bíblia não manda que os cristãos se batizem pelos mortos; de fato, nem sequer menciona esta prática em alguma outra parte. O ensino bíblico é que cada crente seja batizado ele próprio. Não há a mínima indicação de que um cristão possa ser batizado a favor de outro crente vivo; muito menos que possa batizar-se por algum defunto. Em contrapartida, a Escritura ensina claramente que o destino eterno de cada um fica determinado inexoravelmente com a morte (Hebreus 9:27). Não está em nós o poder de salvar outros por nossa própria vontade; somente podemos interceder em oração para que outros recebam a salvação, nunca aceitá-la em representação deles. Ademais, a Bíblia explicitamente proíbe todo trato com os mortos.
Finalmente, há que recordar que embora o batismo seja uma ordenança cristã ou sacramento e cada crente deva ser batizado num ato de obediência para com o mandamento de nosso Senhor e como uma testemunha d`Ele, o batismo não é imprescindível nem suficiente para a salvação; só a fé em Cristo pode salvar (ver o caso do ladrão arrependido no Calvário, Lucas 23:42-43 e o que Paulo diz em 1 Coríntios 1:14-17).
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