sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sobre o estado intermédio entre a morte e a ressurreição físicas


O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS NEFESH E PSYCHE É AMPLO, E EM CADA CASO DEVE DETERMINAR-SE PELO CONTEXTO
 
O vocábulo hebreu néfesh e o equivalente grego psyché, vertidos com frequência “alma” têm uma amplitude de significado que impede que sejam traduzidos de maneira uniforme todas as vezes que aparecem na Bíblia.
 
Néfesh pode significar “ser vivente”, como em Génesis 2:7 e Ezequiel 18:4. Mas também pode significar “fome”, “necessidade”, “anseio”, “aspiração”, etc. Em Génesis 3:19 significa “alimento” e em Levítico 17:11, “princípio vital”. A amplitude de psyché é semelhante, e se sempre significasse “ser vivente” as seguintes passagens, entre outras, seriam ininteligíveis:
 
“corpo, alma e espírito” (1 Tessalonicenses 5:23)
“palavra viva” ou eficaz (Hebreus 4:12)
“corpo e alma” (Mateus 10:28)
“as almas dos mortos” (Apocalipse 6:9)
 
Tanto néfesh como psyché usam-se com frequência para denotar o eu psicológico consciente do homem.
 
Néfesh: Génesis 27:4; Êxodo 23:9; Números 24:5; Deuteronómio 4:9; Juízes 10:16; Job 10:1; 1 Samuel 4:9; 2 Crónicas 6:38; Salmos 6:3; 10:3; 42:1-5; 103:1; 123:4; Provérbios 13:9; 21:10; Eclesiastes 6:2; Isaías 10:18; 58:5-11; Jeremias 6: 8-16; Zacarias 11:8
 
Psyché: Mateus 10:28; 26:38; Marcos 8:36; Lucas 1:46; 12: 18-20; João 10:24; Tito 1:15; Hebreus 6:19; 8:10; 10:39; 1 Pedro 2:11; Apocalipse 6:9-11; 18:4; 20:4.
 
Existe um estreito vínculo entre o conceito de “alma” (néfesh, psyché) e o de espírito (hebraico ruach, grego pneuma). O espírito poderia descrever-se como o princípio de vida inteligente no homem, que o faz assemelhar-se a Deus (Génesis 2:7; 1 Coríntios 2:11). De modo que o carácter pessoal do homem depende do seu espírito, mas a sua personalidade individual e concreta constitui a sua alma. Claro está que existe certa sobreposição entre os conceitos de alma e de espírito, ao ponto que às vezes são identificados entre si: Êxodo 6:9; Job 7:11; Isaías 26:9.
 
Em honra da verdade, a Bíblia não afirma explicitamente a imortalidade da alma humana. Na realidade diz que somente Deus é imortal em si mesmo: 1 Timóteo 1:17; 6:16; 2 Timóteo 1:10. No entanto, a Escritura ensina a continuidade da existência humana para lá do túmulo. Na morte física, a alma se separa do corpo, e o espírito humano sobrevive: Génesis 35:18; 1 Reis 17:22; Job 32:8; Eclesiastes 12:5-7; Salmo 31:6, Lucas 23:46; Actos 7:59; Mateus 10:28; Apocalipse 6:9; 20:4-6.
 
É verdade que diversos textos do Antigo Testamento, como Eclesiastes 3:18-20 e Salmo 6:5, 115:17 indicam que os mortos são num sentido “semelhantes às bestas” e não louvam a Deus. Mas isto é da perspectiva terrestre. Em particular, o autor de Eclesiastes indica esta perspectiva terrenal ao perguntar: “Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens sobe para o alto, e o espírito do animal baixa para o fundo da terra?” (3:21). Mas ele mesmo responde a esta dúvida no final do livro, onde declara a perspectiva divina: “Lembra-te do teu Criador ... antes que o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (12:1,7).
 
“A ignomínia final é voltar ao pó. Uma vez mais (cf. 3:20) o Pregador alude a diferentes aspectos da natureza do homem. O pó é do que está feita a terra. A palavra enfatiza a origem terrenal da humanidade (Génesis 2:7; 3:19; Job 10:9) e a debilidade física (Salmo 103:14). Voltar para o pó é ir em sentido contrário de Génesis 2:7 e tornar-se um cadáver, que por sua vez é passível de mais deterioração. É não estar mais animado pelo alento que vem de Deus (cf. Job 34:14-15). O espírito humano é o princípio de vida inteligente e responsável. A sua retirada constitui o fim da vida terrenal e acarreta a dissolução do corpo (cf. Salmos 22:15; 104:29). A sua volta para Deus não se desenvolve. Coloca-se, porém, em contraste com ‘voltar para o pó’, a dissolução do corpo, e portanto não pode referir-se a esta, porque se coloca em oposição a ela. Repete o contraste entre ‘para cima’ e ‘para baixo’ de 3:20 e da ‘terra’ e do ‘céu’ de 5:2. O termo sugere, portanto, a continuidade da existência; mas temos de aguardar até à luz do Novo Testamento para que sejam dados detalhes (cf. 2 Timóteo 1:10).” Michael A. Eaton, Ecclesiastes, an Introduction and Commentary (Tyndale OT Comm. # 16. Downers Grove: InterVarsity Press, 1983, p. 150-151).
 
A MORTE NÃO É A SIMPLES ANIQUILAÇÃO OU CESSAÇÃO DA EXISTÊNCIA
 
Vários textos fazem referência aos defuntos como os que “dormem”, o que implica um estado de inconsciência em relação aos assuntos terrenais: Daniel 12:1-2; Mateus 5:39; 27:52; João 11:11; Actos 7:60; 1 Coríntios 11:30; 15:18, 20, 51; 1 Tessalonicenses 4:13-15, etc. No entanto, a imagem também implica a transitoriedade de tal estado.
 
Embora os vocábulos usados em relação à morada dos mortos, seol (hebreu) ou hades (grego) possam ocasionalmente traduzir-se no sentido de um destino “final” e sobrepor o seu significado com o de “sepulcro”, ocorre que tanto o hebraico como o grego possuem palavras específicas para nomear o túmulo ou sepulcro; respectivamente kéber e mnema ou mnemeion.
 
O uso destas palavras é diferente do emprego de seol ou hades. Por exemplo, há numerosas referências ao kéber ou mnema desta ou daquela pessoa, mas nunca ao seu seol ou hades. Todos os mortos têm um sepulcro, mas nenhum tem um seol ou hades. Num caso se trata do túmulo ou lugar de repouso do corpo, e no outro de um lugar de subsistência espiritual do além-túmulo.
 
Seol: Job 33:24; Salmo 16:10; 30:9; Amós 9:2; Isaías 14:9-15; Ezequiel 32: 21-31
 
Kéber: Êxodo 14:11; Números 19: 16,18; 2 Samuel 3:32; 19:37; 1 Reis 13:30; 14:13; Jeremias 8:1; 26:23
 
Hades: Mateus 12:40; Efésios 4:9-10; Actos 2:27
 
Mnema, mnemeion: Mateus 23: 39; 27: 52-53; Lucas 11:44; João 5:28; 11:17; 12:17
 
Perecer não significa deixar de existir por completo. Por exemplo, é-nos dito que o mundo antigo pereceu no dilúvio, mas certamente não foi aniquilado; de igual modo, o actual mundo há-de perecer, o que não implica o seu futuro desaparecimento, mas a sua transformação (2 Pedro 3:6,13; Hebreus 1:11; cf. Apocalipse 21:1).
 
A Bíblia não se refere à morte como à simples cessação da existência, mas antes como a uma separação. Entre as palavras que se usam para descrevê-la há termos que sugerem fortemente esta ideia, como o hebraico maveth (Génesis 25:11) e o grego anairesis (Hebreus 8:1). Sempre dentro desta noção de separação, pode considerar-se uma morte espiritual, uma morte física e uma segunda morte. A morte espiritual foi experimentada primeiramente por Adão quando pecou e foi expulso da presença de Deus; nesse dia, certamente morreu (Génesis 2:16-17; cf. 3:22-24). Todo ser humano está morto nos seus pecados, separado de Deus; mas pode passar da morte para a vida pela fé em Jesus Cristo: Mateus 8:22; João 5:24-25; Romanos 4:17; 5:12-21; 6:13; Efésios 2:1-5; 1 Pedro 2:24. Quando Jesus declarou solenemente: “Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte” (João 8:51) é óbvio que não se referia à morte física.
 
A morte física é a separação entre o corpo e a alma. Já no Antigo Testamento se indicava que os mortos subsistiam de alguma forma, até tal ponto que se proibia expressamente invocá-los. Na morte física a alma se separa do corpo, mas pode voltar a este se a pessoa ressuscita. Além disso ensina-se que os justos estarão com Deus apesar dos seus corpos se corromperem. Ver Isaías 8:19; 14:9-10; Levítico 19:31; 20:6, 27; Deuteronómio 18:10-12; Salmo 73:24-26; Job 19:25-27.
 
O ensino do AT é ratificado e ampliado no NT: Mateus 27:50; Lucas 23:46; Actos 7:59; cf. 2 Coríntios 12:1-5. Tiago 2:26 diz, como algo óbvio e conhecido por todos, que o corpo está morto sem o espírito: “Porque assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta”.
 
A segunda morte somente é mencionada por tal nome em Apocalipse (2:11; 20:6,14; 21:8). Novamente está implícita a ideia de separação, neste caso eterna. A segunda morte segue-se à ressurreição física e ao juízo dos ímpios, e envolve a eterna separação de Deus, em corpo e alma (cf. Mateus 10:28).
 
Para os homens, Abraão morreu (João 8:58) mas Jesus disse que os patriarcas Abraão, Isaque e Jacob estavam vivos para Deus, que “não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele todos vivem” (Lucas 20:38).
 
Além das provas de carácter geral, diversos episódios bíblicos falam da vida após a morte.
 
Moisés e Elias presentes na transfiguração
 
Na transfiguração de Jesus, tanto Mateus como Marcos e Lucas dão testemunho de que Moisés e Elias se apresentaram e falaram com o Senhor (Mateus 17:3 e paralelos), o que prova que continuavam existindo. Ainda que se argua que Elias, como Enoque, não passou pela morte física, não ocorre a mesma coisa com Moisés (Deuteronómio 32).
 
O rico e Lázaro
 
Na narração sobre o rico e Lázaro (Lucas 16:19-31), Jesus ensinou a persistência da consciência para lá da morte física. Nem Jesus nem Lucas dizem ou insinuam que se trate de uma parábola. Embora o capítulo comece com uma parábola, a qual é identificada como tal (16:1-12), depois o Senhor ensina sobre diversos assuntos, como a impossibilidade de servir a dois senhores, o anúncio do Evangelho, a vigência da Lei e o divórcio. A seguir, sem interrupção, vem esta narração. Além disso, em nenhuma parábola se menciona um nome próprio, como é o caso de Lázaro (Eleazar = Deus ajuda). Seja como for, já que as parábolas se baseavam em acontecimentos reais ou pelo menos possíveis, muitos deles da vida diária, mesmo se se tomar como parábola a narração isso não implica que a narração seja uma mera ficção didáctica. A expressão “o seio de Abraão” é traduzida por várias versões como simplesmente “ao lado de Abraão”, num lugar de honra junto ao pai dos hebreus (cf. Mateus 8:11 e João 13:23). Assim Lázaro disfruta já de tudo quanto lhe foi negado em vida, ao passo que o rico sofre no Hades pelos seus pecados. Este é um dos ensinamentos chave da narração. O segundo tem que ver com a incredulidade: os que não escutam Moisés e os profetas, não acreditarão nem mesmo que ressuscitem os mortos. Esta verdade ficou dramaticamente demonstrada com a reacção dos dirigentes judeus quando Jesus ressuscitou o outro Lázaro (João 11).
 
O primeiro mártir da Igreja encomendou o seu espírito a Cristo
 
Ouvindo eles [os judeus] isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele. Mas Estêvão, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus, e disse: «Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus»... E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito»” (Actos 7:54-56, 59).
 
Os espíritos dos justos já estão na presença de Deus
 
O autor de Hebreus contrapõe o terror dos israelitas no monte Sinai com a esperança gozosa dos cristãos, nestes termos:
 
Mas vós chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e à companhia de muitos milhares de anjos, à congregação dos primogénitos que estão inscritos nos céus. Vós vos aproximastes de Deus, juiz de todos, e dos espíritos dos justos aperfeiçoados, de Jesus mediador do novo pacto, e do sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hebreus 12:22-24).
 
Para o presente propósito, nos interessa o facto de que aqui “os espíritos dos justos aperfeiçoados” encontram-se já na Jerusalém celestial, em presença do Pai, do Filho e de seus anjos. É verdade que aguardam uma “melhor ressurreição” (Hebreus 11:35), mas já foram aperfeiçoados para estar na presença de Deus.
 
“Alguns comentadores são da opinião de que estes espíritos pertencem a crentes do Antigo Testamento; outros pensam que o escritor se refere a santos do Novo Testamento que faleceram. Mas todos os crentes tanto dos tempos do Antigo como do Novo Testamento, que foram trasladados para a glória, são declarados justos. Eles foram aperfeiçoados com base na obra de Cristo; ele é “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2). Qual, então, é a relação entre os santos na terra e os santos no céu? Os santos na glória foram aperfeiçoados porque são libertos do pecado. As suas almas são perfeitas; seus corpos aguardam o dia da ressurreição. Em princípio, os crentes na terra compartilham a perfeição que Cristo dá ao seu povo. Eles gozam a perspectiva de reunir-se com a assembleia dos santos no céu. Só a morte separa a Igreja de baixo da Igreja de cima. Quando ocorre a morte, o crente obtém o cumprimento da obra expiatória de Cristo (Hebreus 2:10).” (Simon J. Kistemaker, Exposition of the Epistle to the Hebrews. NT Commentary. Grand Rapids: Baker Book House, 1984, p. 394-395).
 
João viu as almas dos defuntos em Cristo
 
No Apocalipse, João descreve a seguinte visão:
 
“Quando o Cordeiro abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que haviam mantido; e clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó Senhor, santo e verdadeiro, esperarás para julgar e vingar o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram” (6:9-11).
 
Aqui as almas dos mortos não só estão conscientes, como clamam a Deus.
 
Paulo declara que daremos conta do que fizemos “no corpo”
 
Em 2 Coríntios 5:1-9 Paulo declara:
 
Porque sabemos que se a tenda terrenal que é a nossa morada, for destruída, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. Pois na verdade, nesta morada gememos, desejando ser revestidos com a nossa habitação celestial; e uma vez vestidos, não seremos achados nus. Porque também nós, os que estamos nesta tenda, gememos sobrecarregados; pois não queremos ser despidos, mas vestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. E quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu o Espírito como garantia. Portanto estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto habitamos no corpo, estamos ausentes do Senhor (porque andamos por fé, não por vista); mas temos confiança e preferimos antes estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor. Por isso, quer presentes, quer ausentes, desejamos ser-lhe agradáveis”.
 
Aqui Paulo fala do corpo como de uma morada, e definidamente fala da possibilidade de estar presentes perante o Senhor “ausentes do corpo”. A seguir acrescenta que todos seremos julgados por Cristo para dar conta do que fizemos “por meio do corpo” (v. 10). Tudo isto indica a persistência da personalidade para lá da morte física.
 
No mesmo sentido, embora de maneira transitória, a separação entre o material e o imaterial do homem está implícita quando fala da sua própria experiência: “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (não sei se no corpo, não sei se fora do corpo, Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu.” (2 Coríntios 12:2).
 
Jesus anunciou ao ladrão que estaria com ele no paraíso nesse mesmo dia
 
Em Lucas 23:42-43 lemos:
 
E dizia a Jesus: Lembra-te de mim quando vieres no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso.” (tradução literal)
 
Há quem interpreta esta resposta de Jesus como uma promessa para o futuro remoto: “Em verdade te digo hoje, [que] estarás comigo no paraíso”, em lugar de “em verdade te digo [que] hoje estarás comigo no paraíso”. No segundo caso, toma-se o “hoje” como indicativo de quando ocorreria o prometido; no primeiro toma-se o hoje como uma palavra destinada a dar ênfase à declaração. Para apoiar esta última posição, arguem-se textos, geralmente do Antigo Testamento, onde “hoje” se usa deste modo. Mas eis aqui os factos:
 
1. A palavra “hoje” (grego sëmeron) aparece outras quarenta vezes no Novo Testamento fora desta passagem, e em todos os casos se refere ao tempo presente; por exemplo, Mateus 6:11; 21:28; Lucas 19:5,9; Actos 24:21; Romanos 11:28; Hebreus 3:15, etc. Em Actos 20:26 pode ser enfático, mas não descarta o presente e a construção é diferente.
 
2. Nos evangelhos há um total de 76 ocasiões, incluído Lucas 23:43, nas quais Jesus usa a expressão “Em verdade vos [ou te] digo”, ou “Em verdade, em verdade vos [ou te] digo”. Deve notar-se que a expressão “em verdade” (grego amen) é em si enfática e não precisa de ser sublinhada adicionalmente. Além disso, nunca em nenhum dos 75 casos fora de Lucas 23:43 Jesus acopla um “hoje” aos seus “Em verdade vos digo”, para dar-lhe ênfase. Ou seja, para apoiar a reinterpretação de Lucas 23:43 como enfático teria que admitir-se que somente aqui, nesta única ocasião em todos os Evangelhos, Jesus decidiu usá-lo desse modo.
 
3. Há, porém, uma ocasião em que Jesus acopla o “hoje” a um “Em verdade”; e neste único caso em particular, a referência é inequivocamente a algo que haveria de ocorrer nesse mesmo dia: “Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás” (Marcos 14:30).
 
Por conseguinte, toda a evidência indica que a interpretação tradicional, “hoje estarás comigo no paraíso” é a correcta.
 
O SENHOR JESUS ANUNCIOU A RESSURREIÇÃO DO SEU CORPO
 
Em Mateus 12:40 Jesus declarou: “Mas ele lhes respondeu, e disse: Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o do profeta Jonas; pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do monstro marinho, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no coração da terra”. Visto que a comparação se refere ao período entre a morte e a ressurreição, deve notar-se que Jonas conservou a consciência enquanto estava no seio do monstro; de modo que dificilmente tal permanência indica a cessação completa da existência, ou um estado de inconsciência. Outros textos nos indicam que com esta declaração Jesus se referia ao seu corpo, não a todo o seu ser.
 
Quando Jesus expulsou os comerciantes do templo, os judeus lhe perguntaram que sinal podia dar para respaldar o seu proceder.
 
Jesus respondeu, e disse-lhes: Destrui este templo, e em três dias o levantarei. Disseram, pois, os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias? Mas ele falava do templo do seu corpo. Quando, pois, ressuscitou dentre os mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isto; e creram na Escritura, e na palavra que Jesus tinha dito".
 
Em outras palavras, Jesus anunciou a sua ressurreição física, corporal, “do templo do seu corpo” (tou naou tou sömatos autou). De igual modo, em Pentecostes o apóstolo Pedro se referiu à ressurreição física do Senhor, cuja carne (sarx) não sofreu corrupção. O que fica sem vida e se corrompe depois da morte física é o corpo, não a pessoa na sua totalidade: João 19:31,38; Marcos 15:43-46; Lucas 23:55; 24:3; Tiago 2:26.
 
OS APÓSTOLOS PAULO E PEDRO FALARAM DA SUA MORTE PRÓXIMA COMO DE UMA PARTIDA
 
Filipenses 1:23-24, “Tenho o desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é muito melhor; mas ficar na carne é mais necessário por causa de vós”.
 
2 Timóteo 4:6, “Porque eu já estou prestes a ser oferecido em sacrifício, e o tempo da minha partida chegou”.
 
2 Pedro 1:14-15, “brevemente tenho que deixar o meu tabernáculo... procurarei com empenho que, depois da minha partida, vós possais ter memória destas coisas”.
 
Pedro refere-se ao seu corpo como uma habitação precária, “o meu tabernáculo” (tou skënömatos mou) e à sua morte como uma partida (grego exodos). Paulo usa as expressões “partir” (grego analuö) e “partida” (grego analusis) para referir-se à sua morte. Contrasta a sua ansiada partida com o “ficar na carne” (epimenein tei sarki); descreve a sua futura situação com Cristo como “muito melhor” e afirma que para ele “morrer é ganho” (to apothanein kerdos). Estas declarações mostram sem disputa possível que ambos os apóstolos consideravam a sua própria morte não como um estado de inconsciência ou inexistência, mas como uma desejada partida para estar com Cristo.
 
Em outro lado Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, declarou solenemente que nem a morte pode separar os crentes do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus (Romanos 8:38).  
 
Concluímos pois que as Sagradas Escrituras ensinam a sobrevivência à morte física do eu imaterial do homem, denominado alma ou espírito em diferentes textos. Portanto, os que morrem em Cristo passam de imediato ao âmbito celestial enquanto aguardam a ressurreição dos seus corpos.
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A "Doação de Constantino" e outras falsificações


Não se pode compreender devidamente a origem e a própria concepção do papado como o conhecemos hoje, sem ter em conta o papel que teve a avalanche de falsificações, como a Doação de Constantino e as Falsas Decretais, que a partir do século VIII apoiavam o poder espiritual e temporal do papado. Este não teve outra alternativa senão renunciar ao segundo, mas em contrapartida sustém tenazmente o primeiro.
A chamada Doação de Constantino é um documento do século VIII ou IX. Trata-se de uma carta espúria do imperador Constantino o Grande, dirigida ao bispo de Roma Silvestre I (314-335). Consta de duas partes. A primeira, ou Confessio narra a sua instrução na fé, o seu baptismo e a sua cura da lepra por parte de Silvestre, além de uma confissão de fé. Na segunda parte, ou Donatio, Constantino confere ao bispo de Roma ou papa, como sucessor de São Pedro, privilégios imperiais, e aos principais clérigos, prerrogativas senatoriais. Segundo este documento, o papa “possui a primazia sobre os quatro Patriarcas de Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém, e também sobre todos os bispos do mundo”.
Obviamente aqui não se trata somente de potestade temporal, mas também espiritual, e concretamente da primazia tão ambicionada pelos bispos romanos. De facto, em 1054 o papa Leão IX esgrimiu contra o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, a Doação para demonstrar que a sede romana possuía uma autoridade tanto temporal como espiritual. Leão sustentava que “Pedro e seus sucessores têm livre juízo sobre toda a Igreja, sem que ninguém deva fazer-lhes mudar de lugar, pois a Sede suprema por ninguém é julgada...”.
Sem dúvida, semelhante pretensão era inaudita na Igreja antiga, e certamente nada disto provinha dos cânones dos primeiros Concílios Ecuménicos, onde se reconhecia a Roma uma primazia honorífica mas de modo algum de jurisdição.
No entanto, um par de séculos antes (865) Nicolau I tinha escrito ao imperador Miguel que “o juiz [isto é, o bispo de Roma] não será julgado nem pelo Augusto, nem por todo o clero, nem pelos reis, nem pelo povo...”, “A primeira Sede não será julgada por ninguém...”. O Denzinger esclarece acerca da primeira citação que “Estas palavras alegam-se como de São Silvestre”, e sobre a segunda “Das actas do sínodo apócrifo de Sinuessa, 303 (cf. Hfl. I, 143 ss).
A apócrifa Doação foi incluída nas compilações de leis canónicas realizadas por Anselmo de Luca e Deusdedit, e mais tarde acrescentada ao Decretum de Graciano, obras de referência na instrução do clero da época. Foi livremente citada pelos defensores do papado, inclusive por Pedro Damião, e pelos próprios papas, como por exemplo Inocêncio III e IV, e Gregório IX. Embora tenha sido exposta como patentemente falsa no século XV, os canonistas e juristas continuaram a apelar para a sua autoridade durante todo o século seguinte (precisamente o da Reforma).
Além disso, a Doação foi incorporada na monumental série de documentos, muitos deles falsificados, conhecida como Falsas Decretais ou Decretais Pseudo-Isidorianas, que foi publicada em 850; o autor usa o pseudónimo de Isidoro Mercator. Segundo The Catholic Encyclopedia, esta colecção, cuja suposta intenção foi a de compilar todos os documentos importantes sobre a lei canónica, constava em resumo de:

(1) Uma lista de sessenta cartas ou decretos apócrifos atribuídos aos papas desde São Clemente (88-97) até Melquíades (311-314) inclusive. Destas sessenta cartas, cinquenta e oito são falsificações; começam com uma carta de Aurélio de Cartago solicitando ao Papa Dámaso (366-384) que lhe enviasse as cartas dos seus predecessores na cátedra dos Apóstolos; e isto é seguido por uma resposta na qual Dámaso assegura a Aurélio que as cartas desejadas estavam sendo enviadas. Esta correspondência se propunha dar um ar de verdade às falsas decretais, e foi obra de Isidoro.

(2) Um tratado sobre a Igreja Primitiva e sobre o Concílio de Niceia, escrito por Isidoro, e seguido pelos cânones autênticos de cinquenta e quatro concílios. Deve assinalar-se, no entanto, que entre os cânones do segundo Concílio de Sevilha (página 438) o cânon VII é uma interpolação dirigida contra os chorepiscopi.

(3) As cartas principalmente de trinta e três papas, desde Silvestre (314-335) até Gregório II (715-731). Destas cerca de trinta cartas são falsificações, enquanto todas as outras são autênticas.”

Louis Saltet, False Decretals. Em The Catholic Encyclopedia, vol. V (1909)

Aparentemente, Isidoro usou como base uma muito má edição francesa de uma colecção de documentos existente, chamada Hispana por ter sido compilada em Espanha em 633 (ou seja, a “Hispana Gallica”). Continha os textos conciliares desde Niceia, e decretais papais desde Dámaso (finais do século IV). A isto antepôs as suas cartas forjadas dos papas dos primeiros séculos. Acrescentou também à segunda parte da Hispana as cartas forjadas de papas entre Dámaso e Gregório I, e interpolou aqui e ali outros documentos.
Além disso, na realidade adulterou o texto da Hispana Gallica. Na Biblioteca do Vaticano conserva-se uma cópia desta adulteração, chamada Hispana Gallica Augustodunensis (manuscrito latino 1341).
Em conjunto, a colecção espúria de Isidoro tinha como propósito evidente defender os bispos do poder secular. No entanto, o modo de fazê-lo foi submetê-los ao poder papal. Paradoxalmente as Falsas Decretais fracassaram em grande medida em relação ao seu objectivo primário, mas em contrapartida serviram para sustentar as novas e grandiosas ideias acerca da primazia papal entre Nicolau I e Inocêncio III.
Sobre a noção da primazia do poder espiritual sobre o temporal, afirma por exemplo Isidoro que o governante não pode convocar por si um sínodo, mas que precisa da autorização do papa. Isto é uma novidade, como é evidente do facto de os concílios ecuménicos terem sido convocados pelos imperadores e não pelos bispos de Roma.
Segundo Isidoro, a organização das paróquias foi estabelecida já no século I por Clemente de Roma; em outras palavras, os apóstolos teriam seguido a organização territorial do Império, e as divisões diocesanas e metropolitanas eram muito primitivas. Saltet chama a isto uma “visão fantástica da história”.
Embora afirme a autoridade dos bispos, e faça todo o possível para subtraí-los de toda acusação e juízo, o faz com base na divisão originalmente realizada pelos papas. E reserva ao papa a jurisdição suprema sobre as apelações.
Além disso, Isidoro reserva para o papa o direito de convocar ou autorizar a convocatória de todos os concílios, assim como o de ratificar as suas decisões. Saltet observa:

Posto desta forma geral e imperativa, estas afirmações eram algo novo. Nada parecido tinha sido obrigação para a celebração de Sínodos provinciais; em relação à aprovação dos decretos conciliares, era um acontecimento comum na antiguidade. Quando estavam em jogo assuntos de muita importância, os papas reclamavam o direito de aprovação, mas não havia um preceito formal ou geral que afirmasse tal direito.

Os efeitos destas concepções acerca do poder papal, inauditas para a Igreja primitiva, foram os de fornecer o sustento jurídico não somente para as pretensões temporais do papado, mas para toda a teoria do primado e posteriormente da infalibilidade pontifícia.
Portanto, estes e outros documentos falsificados tiveram imerecidamente efeitos perduráveis que são facilmente discerníveis no actual Código de Direito Canónico (por exemplo, que ninguém pode julgar a primeira Sede) e na doutrina acerca do primado e da infalibilidade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Que segurança tenho de que a Bíblia é a palavra de Deus? O que me assegura que isso seja verdade? Como comprovar que é a palavra de Deus? São confiáveis as epístolas?


Tentarei responder ao que perguntas.
Pela forma de redigir a primeira pergunta suponho que admites graus de segurança. Se isto for correcto, então a minha resposta seria como se segue:
A segurança absoluta, ou certeza, de que a Bíblia é a Palavra de Deus, somente pode tê-la quem creu em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador.
Quem deseja fazer a vontade de Deus sabe que a sua Palavra é verdade (João 7:16-17). O Espírito Santo de Deus dá testemunho aos nossos espíritos de que somos filhos de Deus (Gálatas 3:26; 4:6; Romanos 8:15-16) e o mesmo Espírito nos guia a toda verdade (1 João 2:20-27) acerca do testemunho que Deus mesmo dá (1 João 5:6-10) e de que Ele falou através da Escritura (2 Timóteo 3:15-16; 2 Pedro 1:20-21).
Esta certeza de que falo é um facto na experiência de todos os verdadeiros cristãos, e não requer por si mais evidência. No entanto, muitos factos acerca da Bíblia servem como corroboração ou confirmação da sua fé.
Estes mesmos factos, que enumero brevemente abaixo, não são por si mesmos suficientes para dar o mesmo tipo de segurança a uma pessoa que não é cristã. No entanto, lhe permitem comprovar que a Bíblia no seu conjunto é um documento confiável e portanto os seus ensinamentos devem levar-se a sério.
Entre as principais razões, menciono:
A. Consistência interna. Apesar de ter sido escrita num longo intervalo, em diferentes lugares e por pessoas de condição diferente, a Bíblia possui uma coerência notável nos seus ensinamentos acerca de Deus, do homem e da salvação. Nas suas páginas pode notar-se um progresso tanto na revelação como na obra de salvação.
B. Ensinamentos. Se mais pessoas obedecessem aos ensinamentos da Bíblia não cabe dúvida que este mundo seria um melhor lugar para todos.
C. Profecia preditiva cumprida. A Bíblia contém muitas profecias cujo cumprimento está registado na história. Há outras que ainda não se cumpriram, mas a fidelidade das predições anteriores nos levam a crer que tudo será cumprido.
D. Milagres. Muitos milagres bíblicos foram corroborados mesmo por testemunhas hostis. Notavelmente, na Bíblia os milagres estão concentrados em três épocas cruciais: o tempo do Êxodo, o dos profetas do século IX, e o de Jesus e dos Apóstolos. Os maiores milagres são, desde logo, a encarnação de nosso Senhor e a sua ressurreição.

D. Confiabilidade histórica. Tanto documentos extra-bíblicos como a arqueologia fazem pensar que a história que a Bíblia narra é correcta. Ainda que existam lacunas (como em outras áreas do conhecimento da antiguidade) nenhuma das afirmações históricas da Bíblia foi refutada com êxito.
E. Transmissão e conservação providencial do texto bíblico. Tanto o texto hebraico do Antigo Testamento como o texto grego do Novo Testamento foi preservado com notável exactidão em comparação com qualquer outro documento antigo.
F. Resultados nas vidas transformadas daqueles que puseram a sua fé em Cristo e seguem os ensinamentos da Bíblia. Numa ocasião um mestre cristão foi confrontado por um ateu militante que proclamava que o homem melhorava quando rejeitava a religião e admitia a inexistência de Deus. Sem hesitar, o pastor lhe respondeu que com gosto traria no dia seguinte cem pessoas cujas vidas tinham sido transformadas para melhor pelo Evangelho, desde que o seu interlocutor se comprometesse a trazer outras tantas pessoas cujas vidas tivessem sido mudadas para melhor pelo ateísmo... ou pelo menos dez. Obviamente isso não ocorreu.
As epístolas do Novo Testamento são em geral tão confiáveis como o resto dos seus documentos e contêm aspectos muito importantes do ensinamento apostólico.
Voltando ao tema da comprovação, como já sugeri, toda a evidência esboçada não chega para obter certeza, do mesmo modo que a proporcionaria um teorema matemático bem formulado. Na verdade, jamais poderás ter certeza se não fores cristão.
Se isto te parece uma exigência injusta, considera o que ocorre em outras ordens da vida. Por exemplo, suponhamos que desejo aceder a um cofre de segurança para ver se tem certa documentação. Alguém me fornece a chave, mas não sei se verdadeiramente funciona. Nem se a documentação que procuro está lá. Tenho de introduzir a chave, tenho de entrar e abrir o cofre, e tenho de examinar o seu conteúdo; mas só posso fazê-lo adequadamente quando estiver dentro. Claro está que poderia enviar alguém para fazê-lo por mim, mas neste caso, teria de confiar no testemunho de quem enviei em vez de comprová-lo por mim mesmo. O grau de certeza dependeria da confiança que tenha na minha testemunha, mas virtualmente nunca será igual ao de uma comprovação directa.

Ou suponhamos que aprendes perfeitamente a teoria da condução de automóveis, da natação ou do salto em pára-quedas... Somente poderás ter certeza de que o sabes fazer quando o puseres em prática por ti mesmo.


Espero que estas reflexões te ajudem na tua busca.
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