terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobre a maternidade espiritual de Maria


Diz o Catecismo da Igreja Católica:

"Jesus é o filho único de Maria. Mas a maternidade espiritual de Maria (cf. Jo 19, 26-27; Ap 12, 17) estende-se a todos os homens que Ele veio salvar: «Ela deu à luz um Filho que Deus estabeleceu como "primogénito de muitos irmãos" (Rm 8, 29), isto é, dos fiéis para cuja geração e educação Ela coopera com amor de mãe» (LG 63)." (Catecismo N° 501)

Como se pode ver, a Igreja de Roma considera que Maria é a mãe espiritual de todos os crentes. É por isso que não raramente vê-se os católicos a tratar Maria por mãe, como se ela fosse mãe deles.

O texto bíblico que o Magistério romano toma para sustentar esta doutrina é o seguinte:

Jo 19,26. Jesus, vendo a sua mãe e junto a ela o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: «Mulher, aí tens o teu filho.»
27. Depois disse ao discípulo: «Aí tens a tua mãe.» E desde aquela hora o discípulo a acolheu em sua casa.
Análise do texto bíblico
O que vemos no texto do evangelho de João é a amorosa provisão que Jesus teve para a sua mãe: A consequência de designar o discípulo amado como o filho de Maria, e Maria como a mãe do discípulo encontra-se no mesmo texto: desde aquele dia o discípulo amado recebeu Maria em sua casa.
O Novo Testamento não tem absolutamente nada mais a comentar ou ensinar sobre este encargo do Senhor. Por certo que, além de Paulo e Pedro, o próprio João perdeu a oportunidade de ensinar a "maternidade universal" de Maria nas suas epístolas.
Dos dados escriturais sabemos de ciência certa que o discípulo amado recebeu Maria como mãe.
No entanto, a instituição vaticana, que se arroga a autoridade de ser a única intérprete autêntica das Escrituras, pretende que este texto tão simples e terno se leia assim, mais palavra menos palavra:
Jo 19,26. Jesus, vendo a sua mãe e junto a ela o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: «Mulher, aí tens o teu filho, o qual é um representante de todos os crentes, os quais por este acto ponho sob o teu maternal cuidado
27. Depois disse ao discípulo que representava os crentes de todos os tempos: «Aí tens a tua mãe.» E desde aquela hora o discípulo a acolheu em sua casa. como devem fazê-lo todos os discípulos de Cristo já que naquela designação particular estavam incluídos implicitamente todos os membros da Igreja.
Deste modo Roma transformou um encargo particular e íntimo numa lei de aplicação geral, sem nenhum apoio no ensino do resto do Novo Testamento.
Pois bem, é claro que a doutrina da maternidade universal de Maria, longe de ser bíblica, é uma inferência injustificada que a instituição vaticana fez a partir de um texto isolado.
Os Padres da Igreja não interpretam estes versículos como uma revelação da maternidade espiritual de Maria.
Transcrevo a seguir um par de textos patrísticos:
...e desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa”. Esta, sem dúvida, era a hora da qual Jesus, quando estava prestes a converter a água em vinho, havia dito à sua mãe, “Mulher, que tenho eu contigo? A minha hora ainda não chegou”. Esta hora cujo tempo ainda não tinha chegado, portanto, Ele a tinha predito, quando deveria reconhecê-la no momento da morte, e em relação à qual Ele tinha nascido como um homem mortal. Naquele tempo, então, quando estava prestes a ocupar-se em actos divinos, Ele repeliu, como alguém desconhecido, aquela que era a mãe não da sua divindade mas da sua fraqueza [humana]; mas agora, enquanto estava no meio de humanos sofrimentos, ele encomendou com afecto humano [a mãe] por quem ele se tinha tornado homem. Pois antes, Aquele que tinha criado Maria tornou-se conhecido no seu poder; mas agora, o que nasceu de Maria estava pregado na cruz.
Introduz-se aqui, portanto, uma passagem de carácter moral. O bom Mestre faz aquilo que nos lembra que deve fazer-se, e pelo próprio exemplo instruiu os discípulos que o cuidado dos seus pais devia ser um assunto de preocupação para os filhos piedosos; ... Desta plena doutrina foi que o Apóstolo Paulo aprendeu o que por sua vez ensinou quando disse: “Mas, se alguém não provê para os seus, e especialmente para os da sua própria casa, então negou a fé, e é pior que um infiel.” [1 Timóteo 5:8]. Deste importantíssimo preceito, portanto, o Mestre dos santos deu o exemplo por si mesmo quando, não como Deus para a donzela que Ele tinha criado e governado, mas como um homem para a mãe, de quem havia sido gerado, e a quem agora devia abandonar.
...não devemos tomar as palavras “Desde aquela hora o discípulo a recebeu” no sentido de que tudo o que era necessário para ela foi encomendado ao cuidado dele? Ele a recebeu, portanto, ... para dar-lhe os seus próprios serviços, o cumprimento dos quais, por uma dispensação especial, foi confiado a ele.
Eis outro texto:
Mas Ele na cruz confiou a sua mãe ao discípulo, ensinando-nos a mostrar todo o tipo de cuidado pelos nossos pais até ao último alento. Quando certamente ela inoportunamente o perturbou, Ele disse “Mulher, que tenho eu contigo?” e “Quem é a minha mãe?”. Mas aqui mostrou muito amoroso afecto, e a confiou ao discípulo a quem Ele amava.
... E Ele, tendo encomendado a sua mãe a João, disse “Eis aí o teu filho”. Que honra! Com que honra honrou o discípulo quando Ele estava partindo. Confiou-a ao discípulo para que cuidasse dela. Pois já que era provável que, sendo sua mãe, ela sofreria e necessitaria de protecção, com razão a confiou ao amado. A este disse, “Eis aí a tua mãe”. Isto disse, enlaçando-os juntos em amor; e o discípulo, entendendo-o, a levou para sua casa. “Mas por que não fez menção de outras mulheres que estavam ali?” Para ensinar-nos a prestar maior respeito que o habitual às nossas mães.
A primeira citação é de Agostinho de Hipona, Tratados sobre o Evangelho de São João, 119:1-3. A segunda é de João Crisóstomo, Homilias sobre São João, 85:2-3. Ambos os autores, que se destacaram entre outras coisas pelos seus comentários sobre o quarto Evangelho, entendem as palavras de Cristo como um encargo a João para prover as necessidades temporais da mãe do Senhor, e não insinuam nada parecido à maternidade espiritual tal como se ensina hoje na instituição vaticana com base nesta passagem. Deste modo se vê que tanto no Ocidente (Agostinho) como no Oriente (Crisóstomo) a doutrina era simplesmente desconhecida.
Na verdade, a Igreja cumpriu o seu primeiro milénio de vida antes de alguém sugerir a moderna doutrina romanista. A interpretação no sentido de maternidade espiritual não existe até ao século XI, e começa a impor-se sobre o sentido natural e íntimo no século XV com Dionísio o Cartucho (1402-1471) na sua Vida de Cristo [1]. O primeiro papa que a ensina com clareza é Bento XIV (1740-1758), e isto não ocorreu senão no século XVIII.
Conclusão
1) Não existe em nenhum lado da Sagrada Escritura o menor indício ou a menor referência de que Maria tivesse sido designada divinamente como mãe da Igreja ou mãe dos crentes ou mãe de todos os cristãos.
2) Também não existe, a menor referência ou reconhecimento dos Padres da Igreja a esta prerrogativa universal da maternidade de Maria.
3) A doutrina da maternidade espiritual de Maria passou despercebida por mais de um milénio e “apareceu” no século XI com o auge do culto mariano. É, portanto, mais uma doutrina espúria e tardia que a Igreja de Roma adoptou ao longo dos séculos.

E da mesma forma que responderia Jesus Cristo, nosso amado Mestre, Senhor e Salvador, nós cremos e declaramos que:

"A nossa mãe e os nossos irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam.." (Lucas 8:21)


Notas:
[1] Dionísio o Cartucho, o principal artífice, no século XV, da doutrina da “maternidade espiritual” foi um dos que manifestamente se opôs, como antes dele Bernardo de Claraval e Tomás de Aquino, à doutrina da Imaculada Conceição.
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