quarta-feira, 18 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Lutero disse que Cristo pecou cometendo adultério?


Uma citação que geralmente é apresentada por católicos romanos contra Lutero é a seguinte:

“Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer" (Tischredden, Nº 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107).

Comecemos por fazer uma breve introdução.

As "Conversas à mesa" (Tischreden) de Martinho Lutero são uma compilação de diálogos com os seus discípulos e colegas, não um tratado formal de teologia.

A primeira edição alemã foi preparada por um dos que tomavam notas, Johannes Aurifaber (Goldschmitt) e publicada em 1566.

O texto das "Conversas" está disponível online numa tradução para o inglês em:

http://www.ccel.org/ccel/luther/tabletalk

http://www.reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html

Lutero disse e escreveu muito (a edição Weimar das suas obras soma 125 volumes) e nem tudo de qualidade uniforme. Não o consideramos de modo algum infalível. Como de qualquer outro cristão pós-apostólico, retemos apenas o bom.

Podem reprovar-se muitas coisas a Lutero. Em muitos sentidos foi um filho do seu tempo e um homem de contrastes entre a sua vasta erudição e as suas maneiras e formas de expressão.

Por outro lado, as indiscrições de Lutero, como as grosserias que, juntamente com coisas muito mais valiosas, poder-se-ão ter dito à sua mesa, empalidecem em comparação com a conduta dos supostos sucessores de Pedro contemporâneos seus.

"Parece que a época do Renascimento estava chamada a provar qual era a divindade romana mais indicada para ser patrona do Papado. Logo que foi afastada Vénus (Alexandre Bórgia), instalou-se na Cadeira de Pedro Marte: Júlio II (1503-1513), amigo da guerra ainda mais do que das artes, pelo que tomou o nome de Júlio César. Quando Miguel Ângelo quis retratá-lo com um livro na mão, se opôs com veemência: «Melhor, empunhando a espada»."

(Albert Wucher, Breve historia de los Papas. Trad. Pablo Simón. Buenos Aires: El Ateneo, 1963, p. 147; com censura eclesiástica).

Feita esta breve introdução passemos à citação em concreto.

A citação de Lutero tomada das suas Tischreden, originalmente, na mistura de latim e alemão em que Lutero costumava expressar-se nestas ocasiões, diz:

Christus ist am ersten ein Ebrecher (Ehebrecher) worden bei dem Brunn cum muliere, quia illi dicebant... Quid facit cum ea? Item cum Magdalena, item cum adultera (Tischr. 1472 II 107).

Que, literalmente traduzido, significa (a tradução é minha):

Cristo é primeiro adúltero junto ao poço com a mulher, porque naquele lugar diziam… Que faz com ela? Do mesmo modo, com Madalena. Do mesmo modo, com a adúltera.

Não obstante, como diz o historiador católico Ricardo García-Villoslada, na sua obra “Martín Lutero”, tomo II, página 251:

“É completamente absurdo pensar que Lutero chamasse a Cristo adúltero. Faz alusão aos murmúrios dos judeus contra Jesus. Se o texto não aparece claro, é porque Schlagenhaufen (um dos que anotaram as conversas à mesa com Lutero) descuidadamente omitiu algumas palavras explicativas, v.gr., «adulter coram mundo», que encontramos num lugar quase paralelo. Pregando sobre Madalena em 1536, dizia: «Et dicunt eum diabolum... Filius hominis est ein Seuffer, helt zu Buben und Huren... Iohannes coram mundo Seuffer und Huren» (WA 41, 647). O que disse, pois, Lutero foi que Cristo pareceu perante o mundo como adúltero, porque murmuraram dele ao vê-lo com a samaritana e outras pecadoras.

Portanto feito este esclarecimento necessário, conclui-se que a citação de Lutero tal como é apresentada está adulterada ou pelo menos foi grosseiramente mal-interpretada. Lutero não blasfemou contra nosso Senhor Jesus Cristo chamando-o de adúltero como querem fazer crer alguns apologistas católicos mal-intencionados.
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