quarta-feira, 27 de abril de 2011

Resposta a um católico sobre a Sola Scriptura


[Católico] …. sobre a "sola scriptura", esta é uma completa ilusão. Repare que as pessoas não possuíam Bíblias, já que cada Bíblia era produzida manualmente e totalmente copiada pelos monges. E nem sequer era copiada, pois cada letra era DESENHADA UMA A UMA. Não havia computador, nem máquina de escrever, nem sequer esferográfica.

Os monges escreviam com penas de ganso que tinha um traço quadrado. Daí, que tinha que ser tudo DESENHADO LETRA A LETRA. Você sabe quanto tempo levava para um monge copiar uma Bíblia inteira? De 10 a 20 anos de trabalho.

Agora, depois de tanto tempo copiando uma Bíblia, quanto você acha que custava uma para venda? Uma pessoa comum não tinha meios para pagar o trabalho de 10 a 20 anos do copista da Bíblia. Por isso, existiam pouquíssimas cópias disponíveis.

Além disso, hoje temos a bíblia num só volume. Mas quando elas eram copiadas à mão, os diversos livros da bíblia, ocupavam uma estante inteira.

E mais,a esmagadora maioria das pessoas era analfabeta.

Como, então, alguém poderia praticar a Sola Scriptura antes de 1450?

Esta é uma falácia repetida até à exaustão pelos apologistas católicos. É tão óbvia que deveria pelo menos dar-lhes vergonha de repeti-la. A existência de milhares de manuscritos bíblicos indica que, por muito tempo, os cristãos puderam fazer para si cópias de parte ou de toda a Bíblia.

A maioria dos eruditos crê que uma razão para as muitas discrepâncias no texto dos manuscritos do Novo Testamento deve-se ao facto de que eram feitos por entusiastas que desejavam contar com uma cópia barata de algum livro ou livros.

Isto o indica Agostinho de Hipona, ao declarar:

"Mas o conhecimento destas linguagens é necessário, não por causa de umas poucas palavras como estas que são muito fáceis de notar e perguntar por elas, mas, como se disse, por causa da diversidade entre os tradutores. Pois as traduções do hebraico para o grego podem contar-se, mas os tradutores latinos são inumeráveis. Pois nos dias primitivos da fé todo o homem que fortuitamente pusesse as suas mãos num manuscrito grego, e considerasse ter algum conhecimento, por escasso que fosse, de ambas as linguagens, se aventurava na obra de tradução." (De doctr. christ, II, xi [16]).

Também o diz o tratado padrão sobre o texto do Novo Testamento, ao comentar acerca da mudança de escrita uncial para minúscula:

"É fácil entender que esta mudança no estilo de escrita teve um profundo efeito sobre a tradição textual da Bíblia grega. Agora a posse de cópias das Escrituras (e de outras obras literárias) foi posta ao alcance de pessoas com meios limitados. Quando as obras literárias eram copiadas quase exclusivamente na escrita uncial, tais pessoas estavam obrigadas a ter que se virar sem muitos livros. Assim, o manuscrito minúsculo foi um factor importante na disseminação da cultura em geral e das Escrituras em particular. Os manuscritos minúsculos do Novo Testamento superam em número os manuscritos unciais por mais de dez a um ... muita da disparidade no número de [manuscritos] sobreviventes deve ser por causa da maior facilidade com a qual as cópias minúsculas podiam produzir-se...

Nas épocas primitivas da Igreja, os manuscritos bíblicos eram produzidos por cristãos individuais que desejavam ter ou fornecer às congregações locais cópias de um ou mais dos livros do Novo Testamento. Devido ao número de cristãos ter aumentado rapidamente durante os primeiros séculos, muitas cópias adicionais das Escrituras foram procuradas por novos convertidos e novas igrejas. Como resultado, às vezes a velocidade de reprodução ultrapassou a exactidão da execução..." (Bruce M. Metzger, The text of the New Testament, 3rd Ed.; New York: Oxford University Press, 1992, p. 11-12, 14).

O mesmo autor explica que, ao receber o cristianismo sanção oficial, os scriptoria ou produtores comerciais de livros usavam vários escribas que copiavam simultaneamente o mesmo texto lido em voz alta, o que introduziu erros causados por tal método (por exemplo, um ómega por um ómicron em echomen, Romanos 5:1, ou em ode, Lucas 16:25, ou "lavar" (lousanti) por "livrar" (lusanti) em Apocalipse 1:5).

Quanto ao demais, existem razões históricas para o distanciamento entre os textos bíblicos e o "laicado", particularmente a partir da Idade Média. Sola Scriptura era certamente uma possibilidade para os que eram responsáveis pelo ensino: as suas doutrinas deviam basear-se na Escritura. Lamentavelmente, não ocorreu assim. Como no povo de Israel, os pastores desviaram-se gradual mas continuamente do caminho escritural e reprimiram sangrenta e às vezes traiçoeiramente (como o caso de Huss) aqueles que se atreveram a desafiar a sua autoridade. Tal engano tornou-se impossível, obviamente, a partir da invenção da imprensa e da possibilidade de aceder ao que a Bíblia diz, e não ao que os clérigos "diziam que dizia".

Para concluir, o argumento apresentado pelo católico falha completamente o alvo, porque o princípio protestante da "Sola Scriptura" não afirma que a Palavra escrita tenha sido o principal veículo de transmissão, mas que é a fonte definitiva da Verdade revelada. Por ela é possível julgar as homilias, os sacramentos, a liturgia, etc. A questão é se a nossa pregação e as nossas práticas são conformes às Escrituras, não se cada cristão que existiu tinha uma Bíblia. Portanto, o argumento além de falacioso é irrelevante.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Como podiam os primeiros cristãos, seguir o princípio da "Sola Scriptura", quando a Bíblia ainda não existia?


A palavra "Bíblia" é simplesmente um modo de referir o conjunto das Escrituras inspiradas.

Os cristãos contaram desde o princípio com as Escrituras do que hoje chamamos "Antigo Testamento" e a evidência sugere que muito rapidamente, ainda no tempo em que os Apóstolos eram vivos, começaram a formar colecções com os escritos apostólicos, que no seu conjunto formariam o que hoje chamamos "Novo Testamento".

Ou seja, embora não tivessem o equivalente de uma edição moderna impressa, certamente que contavam com as Sagradas Escrituras.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Quando um cego guia outro cego…


Há duas acepções principais da palavra fé (grego pistis) que poderíamos chamar "fé" e "a fé".

A primeira, da qual nos diz o autor de Hebreus que sem ela é impossível agradar a Deus, é a confiança absoluta no Senhor. É por meio desta fé que nos apropriamos do dom da salvação oferecido por graça, por meio de Jesus Cristo.

A segunda acepção diz respeito à doutrina, ou seja, às coisas que como cristãos devemos crer. Quando Judas fala de contender pela fé dada aos santos, não se refere à confiança em Deus mas às proposições doutrinais e históricas que constituem o núcleo da doutrina cristã.

Entretanto, o magistério da igreja católica faz não raras vezes confusão entre estas duas acepções da palavra "fé". Se não entendem esta simples e óbvia distinção, quem poderão pastorear? "Se um cego guia outro cego...".

Um exemplo flagrante desta confusão pode-se ver na própria declaração dogmática da infalibilidade papal.

E certamente, a apostólica doutrina deles [dos "sucessores de Pedro"], todos os veneráveis Padres a abraçaram e os Santos Doutores ortodoxos veneraram e seguiram, sabendo pleníssimamente que esta Sé de São Pedro permanece sempre intacta de todo erro, segundo a promessa de nosso divino Salvador feita ao príncipe dos seus discípulos: Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos [Lc. 22,32].

Constituição dogmática I sobre a Igreja de Cristo. Concílio Vaticano I, Sessão IV de 18 de julho de 1870; Denzinger # 1836.

Note-se que os bispos do Concílio Vaticano I pretendiam fundamentar a pureza doutrinal da sede romana. No entanto, o texto ao qual acodem não fala de doutrina. Jesus Cristo anuncia a Pedro que estava prestes a passar por uma prova (Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo) mas, acrescenta o Senhor, ele tinha orado para que a fé de Pedro "não desfalecesse".

O verbo grego traduzido "desfalecer" é ekleipô. Pode significar também "faltar" ou "cessar". Ora, se Jesus se referisse aqui à doutrina este verbo seria muito inapropriado, pois a doutrina pode ser recta ou transviada, mas não "desfalecer" ou "cessar". É pois óbvio pelo contexto e pelo verbo, que a "fé" de Pedro que não devia cessar era a plena confiança em Deus, não a sua "doutrina".

Portanto, este texto não apoia de modo algum a declaração da infalibilidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A carta de Clemente aos Coríntios: Evidência do primado do bispo de Roma?


Argumento católico:

Pelos anos 90 do primeiro século da nossa era, quando ainda vivia o apóstolo João, surgiu um problema interno de não pequena importância na igreja de Corinto. É de supor que o lógico teria sido que uma vez que ainda viva um dos apóstolos, coubesse a este impor a sua autoridade para solucionar a questão. Mas não foi assim. Quem se encarregou de acabar com o desaguisado foi nem mais nem menos que o bispo de Roma.
 
Se com isto se pretende insinuar que um bispo, por mais "sucessor de Pedro" que se o queira considerar, podia ter uma autoridade superior à dos próprios Apóstolos, o mesmíssimo Clemente se encarrega de contradizer tal coisa:
 
Os Apóstolos nos pregaram o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado de Deus. Em resumo, Cristo da parte de Deus, e os Apóstolos da parte de Cristo: uma e outra coisa, por isso, sucederam ordenadamente por vontade de Deus. Assim, pois, tendo os Apóstolos recebido os mandatos e plenamente assegurados pela ressurreição do Senhor Jesus Cristo e confirmados na fé pela palavra de Deus, saíram, cheios da certeza que lhes infundiu o Espírito Santo, a dar a alegre notícia de que o reino de Deus estava para chegar. E assim, segundo apregoavam por lugares e cidades a boa nova e baptizavam os que obedeciam ao desígnio de Deus, iam estabelecendo os que eram primícias deles – depois de prová-los pelo espírito - por inspectores (episkopous) e ministros (diakonous) dos que haviam de crer. E isto não era novidade, pois já desde há muito tempo se havia escrito acerca de tais inspectores e ministros. A Escritura, com efeito, diz assim em algum lugar: Estabelecerei os inspectores deles na justiça e os seus ministros na fé (Isaías 60:17).
 
Carta Primeira de São Clemente, 42:1-4
Em Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Ed. Madrid: BAC, 1979

Tendo sido estabelecidos eles mesmos pelos próprios Apóstolos, é impossível que a sua autoridade estivesse acima da de quem lha havia concedido em primeiro lugar. Além disso, cabe sublinhar que Clemente em nenhuma parte ensina ou insinua a existência de um episcopado monárquico (como o faz algo mais tarde, ao invés, Inácio de Antioquia [1]). Pelo contrário, na carta aos coríntios:
 
Mencionam-se presbíteros várias vezes, mas não são distinguidos dos bispos. Não há absolutamente menção de um bispo em Corinto, e as autoridades eclesiásticas são sempre nomeadas no plural.
 
John Chapman, Pope St. Clement I . Em The Catholic Encyclopedia, vol. IV (1908).

Clemente alonga-se mais à frente quanto à forma de eleição e às condições das autoridades da Igreja:

Também os nossos Apóstolos tiveram conhecimento, por inspiração de nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contenda sobre este nome e dignidade do episcopado. Por esse motivo, pois, ..., estabeleceram os supracitados e juntamente impuseram dali em diante a norma de que, morrendo estes, outros que fossem varões aprovados lhes sucedessem no ministério. Agora pois, a varões estabelecidos pelos Apóstolos, ou posteriormente por outros exímios varões com consentimento de toda a Igreja; homens que serviram irrepreensivelmente o rebanho de Cristo com espírito de humildade, pacífica e desinteressadamente; testificados, além disso, durante muito tempo por todos; a tais homens, vos dizemos, não cremos que se os possa expulsar justamente do seu ministério. E é assim que cometeremos um pecado nada pequeno se depomos do seu posto de bispos aqueles que irrepreensível e religiosamente ofereceram os dons. Felizes os anciãos que nos precederam na viagem para a eternidade, os quais tiveram um fim frutuoso e perfeito, pois já não têm que temer que alguém os afaste do lugar que ocupam. Dizemos isto porque vemos que vós removestes do seu ministério alguns que o honraram com conduta santa e irrepreensível.
 
Carta Primeira de São Clemente, 44:1-6
Em Daniel Ruiz Bueno, Padres Apostólicos. Edição bilingue completa, 4ª Ed. Madrid: BAC, 1979 (negrito acrescentado)

Ou seja, a conduta santa e irrepreensível era para Clemente o requisito mais importante para os bispos e ministros. [2]
 
Por que foi então Roma a corrigir os coríntios e não o apóstolo João? Teríamos que perguntar a João. Entretanto, há que notar que um facto inexplicado e se se quiser intrigante dificilmente serve como evidência de alguma coisa. Neste caso particular foi a Igreja de Roma a que se encarregou da correcção. Demonstra isto que era superior a Corinto? No meu entender, não mais do que a carta que Ireneu dirigiu a Vítor demonstra que o bispo das Gálias era superior ao de Roma. Ao não existir uma estrutura acima das igrejas locais, nada impedia que uma Igreja se dirigisse a outra, ou um bispo repreendesse outro. O que demonstra isto? Simplesmente que é pura fantasia ou wishful thinking imaginar-se que a hierarquia que Roma estabeleceu, para o ocidente, na Idade Média, existisse em séculos anteriores.
 
Argumento católico:
 
Apesar de alguns protestantes e ortodoxos tenderem a minimizar a autoridade de Clemente, o certo é que do texto da sua carta se depreende com grande clareza a consciência que o próprio bispo de Roma tinha sobre a sua autoridade à frente da Igreja. Senão vejamos:
 
"Mas se alguns desobedecerem às admoestações que por nosso meio vos dirigiu Ele mesmo, saibam que se farão réus de não pequeno pecado e se expõem a grave perigo" 1 Clemente aos Coríntios (LIX 1)
 
Ou seja, o bispo de Roma intervém directamente nos assuntos internos de outra igreja para impor a sua autoridade que, como se encarrega de reconhecer, lhe vem da parte de Deus.
 
Algumas observações aqui:
 
1. A suposta consciência que Clemente tinha acerca da sua própria autoridade somente pode aparecer com "grande clareza" a quem anacronicamente sustente um poder que Roma reclamou para si mais tarde e que jamais foi reconhecido pelas Igrejas orientais.
 
A este respeito, há que observar que na carta não há o mínimo apelo à autoridade do bispo de Roma como tal.
 
2. Embora não haja dúvida razoável de que Clemente foi o seu autor, há que notar que isto o sabemos por evidência externa, a saber, o testemunho unânime da tradição. De facto, o nome de Clemente não aparece na carta. Isto, desde logo, apresenta um notável contraste com as epístolas de Paulo e de Pedro. A longa epístola é dirigida de "A Igreja de Deus que habita como forasteira em Roma, à Igreja de Deus que habita como forasteira em Corinto: Aos chamados e santificados na vontade de Deus por nosso Senhor Jesus Cristo". Contra o que costumam afirmar os católicos, o cabeçalho não é o de um superior para um subordinado, mas de uma irmã para outra.
 
Isto o reconhecem até aqueles que sustentam tenazmente a doutrina do primado romano, como Johannes Quasten, que escreveu:
 
É inegável que não contém uma afirmação categórica do primado da Sé Romana. O escritor não diz expressamente em nenhuma parte que a sua intervenção ligue e obrigue juridicamente a comunidade cristã de Corinto.
 
Patrología (edição preparada por Ignacio Oñatibia). Madrid: BAC, 1978; 1:56.

De igual modo, Daniel Ruiz Bueno (o.c., p. 118), que como católico também considera a epístola como evidência do suposto primado, afirma categoricamente:
 
E adianto-me a dizer que, por muito que possa investigar-se nela sobre o direito e constituição da Igreja, afirmar que esta carta é uma decisão jurídica em vez de uma homilia, parece-me uma imperdoável falta de penetração no seu espírito, nascida de um excessivo afã apologético.

3. A declaração tão cara aos apologistas católicos, "Mas se alguns desobedecerem às admoestações que por nosso meio vos dirigiu Ele mesmo [Deus], saibam que se farão réus de não pequeno pecado e se expõem a grave perigo", deve ser entendida no seu contexto. O autor não fez nenhum apelo à sua autoridade pessoal; em vez disso, expôs as Escrituras como fontes da sua autoridade e mostrou onde está o erro dos sediciosos de Corinto. E é sobre esta base, e não a de algum primado imaginário, que pode afirmar e com toda a razão, que aqueles que desconhecessem semelhante admoestação, perfeitamente fundamentada, se expunham a grave perigo: não por desobedecer ao "papa", mas por desobedecer a Deus. Clemente fala aqui, em nome da Igreja de Roma, com autoridade profética. Isto fica claro do que se segue à frase citada, que com frequência (como neste caso) se omite transcrever: "Mas nós seremos inocentes deste pecado". Parece que o autor está a pensar nos termos do dito por Deus ao profeta Ezequiel:
 
Quando o justo se desviar da sua justiça para cometer injustiça, eu porei um obstáculo diante dele e morrerá; por não o teres advertido tu, morrerá ele pelo seu pecado e não se lembrará a justiça que tinha praticado, mas do seu sangue eu te pedirei contas. Se pelo contrário advertires o justo para que não peque, e ele não pecar, viverá ele por ter sido advertido, e tu salvarás a tua vida.
 
Ezequiel 3:20-22; cf. 33:1-9
 
Argumento católico:
 
Bom, alguém poderá dizer que uma coisa é que o bispo de Roma pretendesse ter tal autoridade e outra que os coríntios a reconhecessem e aceitassem. Pois temos o testemunho indiscutível de alguém que foi bispo de Corinto várias décadas mais tarde. O seu nome é Dionísio, e escreveu o seguinte a Sotero, que por então era também, bispo de Roma. Na sua carta a Sotero, por volta de 170 Dc, Dionísio lhe diz:
 
"Hoje celebrámos o santo dia do Senhor no qual lemos a vossa carta (a do Papa Sotero) [3] a qual para nossa correcção continuaremos a ler sempre ASSIM COMO A QUE ANTERIORMENTE NOS FOI ESCRITA POR CLEMENTE" (A citação aparece em Eusébio de Cesareia História IV, 23, 11)
 
Ou seja, resulta que na igreja de Corinto, no dia do Senhor, continuava-se a ler a carta do bispo de Roma Clemente quase um século depois de ser escrita, e além disso, lia-se a carta do por então bispo de Roma, Sotero, com a intenção de ser corrigidos por ele.
 
Veja-se que não estamos a falar do papado nos tempos de Constantino, ou do século X ou do XV. Não, estamos a ver qual era a realidade sobre a primazia da sé romana nos séculos I e II da era cristã.
 
O testemunho de Dionísio mostra o efeito benéfico que a epístola teve sobre a Igreja de Corinto, e também o valor do documento, que até onde sei ninguém questionou. Em outras palavras, a epístola foi recebida, lida e conservada pelo seu valor intrínseco, não porque proviesse de um bispo de Roma.
 
Embora segundo Eusébio a carta de Dionísio tenha sido dirigida a Sotero, por então bispo de Roma, leva segundo o mesmo autor o título Aos Romanos (pros Rômaious) e se dirige à comunidade no plural, nomeando o bispo na terceira pessoa (História Eclesiástica IV, 23, 9-10). O responsável da edição da BAC da obra de Eusébio, diz numa nota de rodapé:
 
A carta de Dionísio é, pois, resposta à que tinha recebido dos romanos, escrita sem dúvida «por ministério» de Sotero, como «a primeira» o fora «por ministério de Clemente». O mais provável é que Dionísio diga «primeira», não por relação a uma «segunda de Clemente», mas em relação com a «segunda da Igreja de Roma», isto é, a mesma de que está a falar, escrita «por ministério» de Sotero.
 
Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica. Texto, versão espanhola, introdução e notas por Argimiro Velasco Delgado, O.P. Madrid: BAC, 1978, 1:249, nota 198.

Velasco Delgado diz "por ministério de" porque, à diferença da tradução oferecida acima, "como a que anteriormente nos foi escrita por Clemente", traduz mais correctamente "como a primeira que nos foi escrita por meio de Clemente" (hôs kai tên proteran êmin dia Klêmentos grafeisan).
 
Da forma como o argumento católico é exposto poderia inferir-se que somente a Igreja de Roma – ou os seus bispos - escreviam a outras comunidades para exortá-las, alentá-las ou admoestá-las. Mas tal inferência seria completamente errónea.
 
Por exemplo, precisamente do mesmo bispo de Corinto, Dionísio, cujo testemunho se invoca aqui, diz Eusébio:

... de suas actividades divinas fazia participantes abundantemente não apenas os que estavam sujeitos a ele, mas também os de outros países, fazendo-se utilíssimo a todos com as suas cartas católicas que compunha para as igrejas.
 
Eusébio, o.c., IV, 23, 1 (depois menciona muitas delas, incluída a dirigida aos romanos)

Igualmente temos as epístolas escritas por Inácio de Antioquia a caminho do seu martírio. E, claro, existe também a carta de Policarpo aos Filipenses, da qual diz Quasten (o.c., 1:89), "É uma exortação moral comparável à Primeira Epístola aos Coríntios de São Clemente".
 
Em outras palavras, que muitos bispos ou comunidades se vissem impulsionadas a escrever a outros não era nada estranho nem requeria nenhuma autoridade extraordinária para lá da que dava o bom testemunho e o conhecimento das Escrituras. [4]
 
Um autor católico observa a este respeito:

Mesmo quando o bispo tem na sua igreja o seu próprio campo de acção, isso, no entanto, não o dispensa de toda a responsabilidade em relação à Igreja universal. Não é somente o sentimento de uma mera solidariedade com os fiéis de outras comunidades o que impulsiona bispos como Inácio e Policarpo a dirigir-lhes as suas palavras de alento ou admoestação, mas obram assim porque movidos de um dever claramente sentido. No entanto, não pode citar-se nenhum bispo da época pós-apostólica que intervenha na situação de outras igrejas com a mesma autoridade que na sua própria ou dê instruções à Igreja universal. O próprio Clemente Romano passa muito para segundo plano atrás da Igreja de Roma como tal, para que, com base na sua carta à igreja de Corinto, se lhe possa atribuir um direito consciente de correcção, sustentado por autoridade especial, no sentido, por exemplo, da ideia do primado.
 
Karl Baus, De la Iglesia primitiva a los comienzos de la gran Iglesia. Em Hubert Jedin (Dir.), Manual de historia de la Iglesia. Versão de D. Ruiz Bueno. Barcelona: Herder, 1980; 1:240-241 (negrito acrescentado).

Com base nos factos, reafirmo pois o que já disse em "Supremacia papal nos escritos ante-nicenos?":
 
Pode-se ler a carta de cima abaixo, detalhadamente, e não se achará vestígios de nenhuma consciência de supremacia; simplesmente, o desejo fervoroso de um santo bispo de que se restabelecesse a paz na turbulenta igreja coríntia. Clemente ensina, admoesta, exorta; o que nunca faz é ordenar nem apelar à sua investidura como argumento.
 
Notas
 
[1] O episcopado monárquico não aparece em nenhum lado nos 65 capítulos de 1 Clemente, um facto indiscutível e cuidadosamente notado pelos eruditos católicos. Quando esta realidade se confronta com os ensinos de Inácio (m. 107) que supõem um episcopado monárquico, parece o mais razoável concluir que existia heterogeneidade na organização eclesiástica da Igreja primitiva. Com o tempo (já na segunda metade do século II) prevaleceu a organização reflectida nas cartas de Inácio e não a pressuposta em I Clemente. Esta conclusão, desde logo, não fortalece a hipótese de um primado de autoridade jurisdicional e doutrinal da Igreja de Roma no século I.
 
[2] A Igreja de Roma ensina que o papa não perde a sua autoridade por ser simoníaco, nepotista ou moralmente dissoluto. Nisto se vê que não "obedecem" a Clemente.
 
[3] Quando fala da "vossa carta" indica, a dos Romanos, escrita por meio do seu bispo Sotero. É um agradecimento à comunidade de Roma no seu conjunto, não ao seu bispo em particular.
 
[4] Por que interveio então a Igreja de Roma e não a de Éfeso ou a de Tessalónica ou qualquer das igrejas muito mais próximas de Corinto que Roma?
 
Ao carecer a Igreja primitiva da organização hierárquica que mais tarde se impôs (para não falar da hierarquia romana medieval), não estavam delimitadas as jurisdições, de modo que de uma maneira sã e evangélica, uma igreja podia exortar outra sem violar a inexistente lei canónica. Não havia nada que o impedisse.
 
Além disso, se o bispo de Roma tivesse tido numa época tão primitiva pretensões de papa universal, não resultaria fácil explicar por que razão, sendo as seitas gnósticas iniciadas na mesmíssima Roma por Valentim e por Cerdão (antecessor de Marcião) não foram postos no seu lugar pelos próprios bispos locais (Higino, Pio e Aniceto) mas por outros como Ireneu, bispo de Lyon, e Justino, que não era bispo (Eusébio, História Eclesiástica IV, 11).

sábado, 16 de abril de 2011

Citações trinitárias primitivas


Existem grupos que negam a Trindade e afirmam que a doutrina não foi mencionada até o tempo do Concílio de Niceia (325 d.C.). Este concílio, primeiro ecuménico, "foi convocado pelo imperador Constantino para tratar o erro do arianismo, o qual ameaçava a unidade da Igreja cristã". Teria sido Constantino quem introduziu a noção e o termo da Trindade.

Para refutar esta fábula que atribui a doutrina trinitária a Constantino, eis aqui algumas citações de autores cristãos anteriores ao tempo de Constantino, que desmentem tal erro:

As seguintes citações mostram que a doutrina da Trindade na verdade estava vigente e generalizada muito antes do concílio de Niceia.

Policarpo (70-155/160). Bispo de Esmirna, discípulo do Apóstolo João.

"Senhor Deus omnipotente: Pai de teu amado e bendito servo Jesus Cristo ... Eu te bendigo, porque me tiveste por digno desta hora, a fim de tomar parte ... na incorrupção do Espírito Santo... Tu, o infalível e verdadeiro Deus. Portanto, eu te louvo ... por mediação do eterno e celeste Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu servo amado, pelo qual seja glória a Ti com o Espírito Santo, agora e nos séculos vindouros" (Martírio de São Policarpo, 14:1-3, em D. Ruiz Bueno, Ed., Padres Apostólicos, p. 682).

Inácio de Antioquia (aprox. 35-107). Bispo de Antioquia. No seu caminho para o martírio, escreveu várias cartas em defesa da fé cristã.

"Sois pedras do templo do Pai, preparadas para o edifício de Deus Pai, levantadas às alturas pelo guindaste de Jesus Cristo, que é a cruz, fazendo vezes de corda o Espírito Santo." (Carta aos Efésios, 9:1; Ruiz Bueno, o.c., pág. 452-453).

"A verdade é que nosso Deus Jesus, o Ungido, foi trazido por Maria no seu seio conforme a dispensação de Deus [Pai]; da linhagem, certamente, de David; por obra, no entanto, do Espírito Santo." (Carta aos Efésios, 17:2; Ruiz Bueno, Padres Apostólicos, pág. 457).

Justino Mártir (aprox. 100-165). Foi um mestre, apologista e mártir, discípulo de Policarpo.

"A Ele [o "Deus verdadeiríssimo"] e ao Filho, que d`Ele veio e nos ensinou tudo isto ... e ao Espírito profético, damos culto e adoramos, honrando-os com razão e verdade" (Primeira Apologia 6:2; em D. Ruiz Bueno, Ed., Padres Apologetas Griegos, pág. 187)

"então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai e Soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo." (Primeira Apologia 61:3; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 250).

Ireneu (115-190). Originário da Ásia Menor, em jovem foi discípulo de Policarpo. Veio a ser bispo de Lyon, nas Gálias. Foi o principal teólogo do segundo século.

"A Igreja, ainda que dispersa em todo o mundo, até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e seus discípulos esta fé: ... num Deus, o Pai Omnipotente, fazedor do céu e da terra e do mar e de todas as coisas que neles há; e num Jesus Cristo, o Filho de Deus, que encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que proclamou por meio dos profetas as dispensações de Deus e os adventos e o nascimento de uma virgem, e a paixão, e a ressurreição dentre os mortos, e a ascensão ao céu, na carne, do amadíssimo Jesus Cristo, nosso Senhor, e a Sua manifestação desde o céu na gloria do Pai, a fim de 'reunir num todas as coisas', e para ressuscitar renovada toda carne da inteira raça humana, para que diante de Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, e Salvador, e Rei, segundo a vontade do Pai invisível, 'se dobre todo o joelho, das coisas nos céus, e das coisas na terra, e das coisas debaixo da terra, e que toda a língua o confesse, e que Ele execute um justo juízo sobre todos..." (Contra todas as heresias, I, 10:1; em Ante-Nicene Fathers vol. 1).

Teófilo de Antioquia (Segunda metade do século II). Bispo de Antioquia e apologista. Apresentou a doutrina cristã aos pagãos. É o primeiro a utilizar o termo "Trindade" (grego, trias).

"Igualmente também os três dias que precedem a criação dos luminares são símbolos da Trindade, de Deus, do seu Verbo e da sua Sabedoria [o Espírito]" (Três livros a Autólico II:15; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 805).

Atenágoras de Atenas (Segunda metade do século II). Defensor da fé cristã. Dirigiu uma "Legação" ou defesa dos cristãos ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cómodo, em 177.

"Quem, pois, não se surpreenderá de ouvir chamar ateus aos que admitem um Deus Pai e um Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram a sua potência na unidade e a sua distinção na ordem?" (Legação a favor dos cristãos, 10; em Ruiz Bueno, Padres Apologetas Griegos, pág. 661).

Tertuliano de Cartago (160-215). Apologista e teólogo africano. De profissão advogado, escreveu eloquentemente em defesa do cristianismo.

"Definimos que existem dois, o Pai e o Filho, e três com o Espírito Santo, e este número está dado pelo modelo da salvação ... [o qual] traz unidade em trindade, inter-relacionando os três, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Eles são três, não em dignidade, mas em grau; não em substância mas em forma; não em poder, mas em espécie. Eles são de uma substância e poder, porque há um Deus de quem estes graus, formas e espécies se mostram no nome do Pai, Filho e Espírito Santo." (Contra Práxeas, 23; PL 2.156-7).

Orígenes (aprox. 185-254). Teólogo de Alexandria, crítico e exegeta bíblico, prolífico autor. Discípulo de Clemente de Alexandria.

"Se alguém disser que o Verbo de Deus ou a Sabedoria de Deus tiveram um começo, advirtamos esse tal não seja que dirija a sua impiedade também contra o ingénito Pai, já que negaria que Ele foi sempre Pai e que Ele gerou sempre o Verbo, e que sempre teve sabedoria em todos os tempos anteriores ou idades, ou qualquer coisa que possa imaginar-se anteriormente. Não pode haver título mais antigo do Deus omnipotente que o de Pai, e é através do Filho que Ele é Pai." (Sobre os princípios 1.2.; Patrologia Graeca 11.132).

"Pois se este fosse o caso [que o Espírito Santo não fosse eternamente como Ele é, e tivesse recebido conhecimento em algum momento e então chegado a ser o Espírito Santo] o Espírito Santo nunca teria sido reconhecido na unidade da Trindade, ou seja, junto com os imutáveis Pai e Filho, a menos que Ele sempre tivesse sido o Espírito Santo... De qualquer modo, parece apropriado inquirir qual é a razão pela qual quem é regenerado por Deus para salvação tem que ver tanto com o Pai e o Filho como com o Espírito Santo, e não obtém a salvação senão com a cooperação de toda a Trindade; e por que é impossível ter parte com o Pai e o Filho, sem o Espírito Santo" (Sobre os princípios I, 3:4-5, em Alexander Roberts and James Donaldson, eds., The Ante-Nicene Fathers, Grand Rapids: Eerdmans, Reimpr. 1989, Vol. 4, pág. 253).

"Além disso, nada na Trindade pode ser chamado maior ou menor, uma vez que sozinha a fonte da divindade contém todas as coisas pela Sua palavra e razão, e pelo Espírito de Sua boca santifica todas as coisas que são dignas de santificação ... Tendo feito estas declarações respeitantes à Unidade do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, voltemos à ordem em que começamos a discussão. Deus o Pai concede, antes de tudo, a existência; e a participação em Cristo, considerando que o Seu ser é a palavra da razão, os torna seres racionais ... [e] é a graça do Espírito Santo presente pela qual aqueles seres que não são santos por essência, podem ser tornados santos por participar dela" (Sobre os princípios I, 3: 7-8, em Roberts and Donaldson, pág. 255).

Se é verdade, como sustentam os antitrinitários, que a Trindade não é uma doutrina bíblica nem nunca foi ensinada até o Concílio de Niceia em 325, por que existem estes textos? A resposta é simples: A Trindade é uma doutrina bíblica e foi ensinada antes do Concílio de Niceia.

Poderia acrescentar-se que o Concílio de Niceia não fez mais que tornar claro, de forma consensual, o que já era, há muito tempo, a doutrina ortodoxa ensinada e aceite pelos cristãos.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Seria Agostinho de Hipona católico romano?


Agostinho de Hipona, no seu tempo, desconheceu actuais doutrinas peculiares da Igreja Católica Romana como, por exemplo:

1) A eficácia ex opere operato dos sacramentos,
2) O culto às imagens,
3) A infalibilidade do Papa,
4) A confissão auricular como sacramento,
5) A imaculada conceição de Maria,
6) A transubstanciação,
7) A missa como repetição do sacrifício de Cristo,
8) O primado de jurisdição do bispo de Roma sobre a igreja universal.

Ora, a pergunta que se impõe é: pode alguém ser católico romano sem crer nestas doutrinas?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Leituras erradas do texto bíblico


Génesis 11:3ss ensina que se pode construir uma torre com tijolo e betume que "chegue ao céu".

Em primeiro lugar, a expressão "que chegue até ao céu" é um hebraísmo para referir um projecto desmesurado, que tente ultrapassar todos os limites conhecidos: Isaías 14:13-14; ver Ezequiel 28:2; Mateus 11:23. É errado interpretá-lo em termos astronómicos modernos.

Além disso, mesmo tomado literalmente, Génesis 11:3ss não ensina que se possa fazer tal coisa. O relato bíblico diz simplesmente que essa era a intenção dos construtores devido ao seu desejo de obter glória para eles próprios em vez de dá-la a Deus. Por esta razão trouxeram sobre si o juízo divino contra a soberba humana.

Levítico 11:20-21 ensina que os insectos têm 4 patas.

Novamente, Levítico 11:20-21 não diz que os insectos tenham quatro patas. O texto distingue entre os insectos alados que quando não usam as suas asas apenas são capazes de caminhar da mesma forma que os animais quadrúpedes, e aqueles que são capazes de saltar. R.K. Harrison explica:

"Os insectos alados impuros não eram especificados como os mamíferos e as aves, mas classificados pela descrição daqueles que «andam em quatro». Esta frase dificilmente descreve os insectos como possuidores de quatro patas, já que os Insectae como classe normalmente têm seis patas. A referência é evidentemente aos seus movimentos, que lembram o deslocamento ou a corrida de animais quadrúpedes. Os insectos puros são membros do grupo Orthoptera, e podiam ser identificados pelas patas traseiras articuladas, que são mais longas que as outras e capacitam o insecto para saltar... Todos os insectos que não saltavam por não possuir as patas traseiras alongadas deviam ser considerados detestáveis. Este grupo impuro incluiria todos os insectos que se alimentavam de imundícia, lixo ou carniça, e eram portanto transmissores potenciais de doença."

(R.K. Harrison, Leviticus. An introduction and commentary. Tyndale OT Comm. # 3. Downers Grove: InterVarsity Press, 1980, p. 128-129).

Mateus 4:8 ensina que se pode ver toda a superfície da terra de um monte alto.

Pela terceira vez, Mateus 4:8 não ensina que seja possível ver toda a superfície da terra de um monte alto. Tampouco é uma lição de geografia. O que os evangelistas relatam é como Satanás tentou tentar Cristo com poder político absoluto. Isto ocorreu segundo os relatos num "monte muito alto", como aquele ao qual foi transportado Ezequiel (40:2) "em visões". Em outras palavras, ao que parece tratou-se de um acontecimento no âmbito espiritual, de uma visão. Reforça esta impressão que Lucas diz que todos os reinos do mundo foram mostrados a Jesus "num instante" (grego en stigmê chronou, Lucas 4:5).

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Justino Mártir sobre a Eucaristia

Justino foi um bom mestre cristão, e um mártir por causa de Cristo. Claro está que as suas palavras não são inspiradas no sentido que o são as Escrituras, mas em todo o caso é uma testemunha importante do século II.

Evidentemente, se o citamos, convém citar tudo o que diz a respeito, e ler com cuidado.

Justino Mártir

De origem palestina, filho de pais pagãos, Justino foi um dos grandes defensores da fé cristã do segundo século. Fundou uma escola em Roma, onde morreu mártir em 165.

Nos seus escritos encontram-se várias referências à Eucaristia, como era praticada e qual era o seu significado. O pão e o vinho, que são capazes de nutrir o corpo, nutrem também as almas ao ser consagrados pela acção de graças. É precisamente esta acção de graças o que constitui um sacrifício agradável a Deus (Diálogo com Trifão, 117).

Cito da edição de Padres Apologetas Griegos de Daniel Ruiz Bueno (Madrid: BAC); os negritos foram acrescentados.

Apologia I

65. (2) Terminadas as orações, damos mutuamente o ósculo da paz.
(3) Depois, ao que preside aos irmãos, se lhe oferece pão e um vaso de água e vinho, e tomando-os ele tributa louvores e glória ao Pai do universo pelo nome de seu Filho e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma longa acção de graças, por ter-nos concedido esses dons que d`Ele nos vêm. E quando o presidente terminou as orações e a acção de graças, todo o povo presente aclama dizendo: Amén.
(4) "Amén", em hebraico, quer dizer "assim seja".
(5) E quando o presidente deu graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam "ministros" ou diáconos, dão a cada um dos assistentes parte do pão e do vinho e da água sobre que se disse a acção de graças e o levam aos ausentes.

66. (1) E este alimento se chama entre nós "Eucaristia", da qual a ninguém lhe é lícito participar, senão ao que crê verdadeiramente nos nossos ensinamentos e se lavou no banho que dá a remissão dos pecados e a regeneração, e vive conforme o que Cristo nos ensinou.
(2) Porque não tomamos estas coisas como pão comum nem bebida ordinária, mas como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por virtude do Verbo de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação; assim foi-nos ensinado que por virtude da oração ao Verbo que de Deus procede, o alimento sobre que foi dita a acção de graças – alimento do qual, por transformação, se nutrem o nosso sangue e as nossas carnes - é a carne e o sangue d`Aquele mesmo Jesus encarnado.
(3) E é assim que os Apóstolos nas Memórias, por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi a eles mandado, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: Fazei isto em minha memória, este é o meu corpo. E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: Este é o meu sangue, e que só a eles deu parte.

A ideia aqui é que do mesmo modo em que, pelo metabolismo ("transformação"), ou seja, pelo processo fisiológico de digestão, absorção e incorporação de substâncias, o pão e o vinho são uma fonte de nutrição física, ao ser santificados estes elementos pela oração e acção de graças possuem um efeito análogo no âmbito espiritual. Justino diz que nutrem os nossos corpos, e portanto conservam as suas propriedades químicas; mas afirma que em virtude da sua consagração, o pão e o vinho se tornam em mais que pão e vinho ordinários. Este ponto de vista da Eucaristia, chamado metabólico, parece ter sido o mais comum ao princípio. O tradutor e editor da Apologia na série Ante-Nicene Fathers cita o papa Gelásio I, de finais do século V: "Pelos sacramentos somos feitos participantes da natureza divina, e ainda assim a substância e natureza do pão e do vinho não cessam de estar neles..." Não é surpreendente que esta afirmação de Gelásio não tenha sido incluída no Denzinger... Também não aparece o seu decreto (contra os maniqueus) ratificando a recepção da Eucaristia sob as duas espécies [mencionado em The Catholic Encyclopedia, s.v. Gelasius I, pope]. Em contrapartida, sim, aparecem outros documentos seus.

(Prossegue Justino)

Apologia I

67. (3) No dia que se chama do sol se celebra uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se lêem, quando o tempo o permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas.
(4) Depois, quando o leitor termina, o presidente, de palavra, faz uma exortação e um convite a que imitemos estes belos exemplos.
(5) Seguidamente, nos levantamos todos juntos e elevamos as nossas preces, e estas terminadas, como já dissemos, se oferece pão e vinho e água, e o presidente, segundo as suas forças, faz igualmente subir a Deus as suas preces e acções de graças e todo o povo exclama dizendo "amén". A seguir vem a distribuição e participação, que se faz a cada um, dos alimentos consagrados pela acção de graças e o seu envio por meio dos diáconos aos ausentes.

Diálogo com Trifão

No Diálogo, Justino mostra através de um longo debate a superioridade do cristianismo sobre o judaísmo. Numa parte trata de como os sacrifícios e ofertas do Antigo Pacto prefiguravam as coisas do Novo Pacto.

41. (1) A oferta da flor de farinha, senhores – prossegui - que se mandava fazer pelos que se purificavam da lepra, era figura do pão da Eucaristia que nosso Senhor Jesus Cristo mandou oferecer em memória da paixão que ele padeceu por todos os homens que purificam as suas almas de toda a maldade, a fim de que juntamente demos graças a Deus por ter criado o mundo e quanto nele há por amor do homem, por ter-nos livrado da maldade em que nascemos e ter destruído com destruição completa os principados e potestades daquele que, segundo o seu desígnio, nasceu passível.
(2) Daí que sobre os sacrifícios que vós então oferecíeis, diz Deus, por boca de Malaquias, um dos doze profetas: Não está a minha complacência em vós – diz o Senhor -, e os vossos sacrifícios não os quero receber das vossas mãos. Porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo o lugar se oferece ao meu nome incenso e sacrifício puro. Porque grande é o meu nome nas nações – diz o Senhor -, e vós o profanais [Malaquias 1:10-12].
(3) Já então, antecipadamente, fala dos sacrifícios que nós, as nações, lhe oferecemos em todo o lugar, ou seja, do pão da Eucaristia e também do cálice da Eucaristia, ao mesmo tempo que diz que nós glorificamos seu nome e vós o profanais.

Como se pode ver, Justino de modo algum nega, antes afirma, que o que é oferecido na Eucaristia não seja pão e vinho, ainda que creia que depois da oração eucarística estes elementos não devem ter-se por pão e vinho ordinários (com o que concordo plenamente).

Diálogo com Trifão

117. (1) Assim, pois, Deus atesta de antemão que lhe são agradáveis todos os sacrifícios que se lhe oferecem pelo nome de Jesus Cristo, os sacrifícios que este nos mandou oferecer, ou seja, os da Eucaristia do pão e do vinho, que celebram os cristãos em todo o lugar da terra. Em contrapartida, Deus rejeita os sacrifícios que vós lhe ofereceis por meio dos vossos sacerdotes, quando diz: E não receberei das vossas mãos os vossos sacrifícios, porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado – diz - nas nações e vós o profanais.

Aqui, como no texto anterior (Diálogo com Trifão 41) repete que o que é oferecido em nome de Cristo é o pão e o vinho. Não há a menor sugestão da ideia de repetir o sacrifício do Senhor na cruz.

Diálogo com Trifão

(2) Vós continuais ainda a dizer persistentemente que Deus diz não receber os sacrifícios que se lhe ofereciam em Jerusalém pelos israelitas que naquele tempo a habitavam; e sim as orações que lhe faziam os homens daquele povo que se encontravam na dispersão, e estas orações são as que chama sacrifícios. Ora, que as orações e acções de graças feitas por homens dignos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus, eu mesmo vo-lo concedo.
(3) Justamente são só esses os que os cristãos aprenderam a oferecer até na consagração do pão e do vinho, em que se recorda a Paixão que por seu amor sofreu o Filho de Deus...
(5) Em contrapartida, não há raça alguma de homens, chamem-se bárbaros ou gregos ou com outros nomes quaisquer, ora habitem em casas ou se chamem nómadas sem habitações ou morem em tendas de pastores, entre os quais não se ofereçam pelo nome de Jesus crucificado orações e acções de graças ao Pai e fazedor de todas as coisas.

O que Justino diz aqui é conforme à interpretação metabólica já mencionada. Precisamente as orações e as acções de graças (o que significa "eucaristia") são os sacrifícios válidos; a eucaristia é, além disso, synaxis (reunião) e anamnesis (memória) da paixão de Cristo.

Da eucaristia como "actualização" do sacrifício de Cristo, nada; da transubstanciação, menos ainda!
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