segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sobre o sacramento da penitência


1. Análise de alguns cânones pertinentes do concílio de Trento sobre o chamado sacramento da penitência (ou da reconciliação, que é a nova denominação «politicamente correcta»):

Cânon 1. Se alguém disser que a penitência na Igreja Católica não é verdadeira e propriamente sacramento, instituído por Cristo nosso Senhor para reconciliar com o próprio Deus os fiéis, quantas vezes caem em pecado depois do baptismo, seja anátema.


Na fundamentação deste Cânon (Denzinger 894) citam-se vários textos do Antigo e do Novo Testamento que falam do arrependimento, mas nenhum que fale do «sacramento» tal como o ensina e pratica a Igreja de Roma. O principal texto aduzido é João 20:22-23:

«Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, são-lhes retidos».

Referir-me-ei a este texto mais à frente. Para já basta dizer que não existe a mínima evidência bíblica de que Jesus tenha instituído algo remotamente parecido ao sacramento da penitência tal como o ensina a Igreja católica. De modo que, com anátema ou sem ele, o cânon falta à verdade.

"Na Sagrada Escritura não se expressa directamente a instituição divina da confissão particular dos pecados e a sua necessidade para conseguir a salvação, mas estas verdades se deduzem do facto de Cristo ter instituído o poder para perdoar pecados dando-lhe forma judicial.
...
As passagens de 1 Ioh [João] 1,9; Iac [Tiago] 5,16; Act [Actos] 19,18, que nos falam da confissão de pecados, não deixam ver com clareza se se trata efectivamente de uma confissão sacramental; há razões poderosas que parecem advogar contra".

(Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. Ed. Rev. Barcelona: Herder, 1969, p. 633.

Cânon 2. Se alguém, confundindo os sacramentos, disser que o próprio baptismo é o sacramento da penitência, como se estes dois sacramentos não fossem distintos e que, por isso, não se chama rectamente à penitência «segunda tábua depois do naufrágio», seja anátema."

Não há forma de confundir o baptismo com a penitência. O primeiro é um mandamento ou ordenança - sacramento, se se quiser - directo e claro do Senhor: o segundo não é nada disto.

Por outro lado, o texto que se invoca (João 20:22-23) não estabelece a condição de que tal perdão deve conceder-se ou negar-se depois do baptismo.

 
Cânon 3. Se alguém disser que as palavras do Senhor nosso Salvador: Recebei o Espírito Santo, àqueles a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, são-lhes retidos [Jo. 20, 22 s], não devem entender-se do poder de perdoar e reter os pecados no sacramento da penitência, como a Igreja Católica o entendeu sempre desde o princípio, mas as torcer, contra a instituição deste sacramento, para a autoridade de pregar o Evangelho, seja anátema.

«Sempre desde o princípio» são palavras muito ousadas, que na verdade a Igreja católica se limita a proferir sem poder demonstrá-las.

Esta passagem do Evangelho de João é o equivalente da «Grande Comissão» de Mateus 28:16-20. Os discípulos são enviados pelo Senhor do mesmo modo em que o Pai enviou Jesus Cristo, com uma diferença importante: o Senhor Jesus não somente anunciou as boas novas da salvação, mas a tornou possível através da sua obra expiatória; agora resta aos seus discípulos proclamar este evangelho.

"Enviados como Ele foi enviado, não são enviados para condenar o mundo, mas para que o mundo possa salvar-se através d`Ele; mas na obra deles, como na d`Ele, os homens são condenados porque a luz é vinda ao mundo, e os homens amam as trevas mais do que a luz.

Os princípios últimos sobre os quais descansa este poder são os assinalados acima – ter sido enviados por Cristo, e a recepção do Espírito Santo. Deus prometeu perdão onde quer que haja arrependimento; não prometeu arrependimento onde quer que haja pecado. Resulta de cada declaração de perdão feita no nome do Pai através de Jesus Cristo, que os corações que em arrependimento a aceitam, recebem remissão dos seus pecados, e que a dureza dos corações que voluntariamente a rejeitam é aumentada pela sua rejeição, e as mesmas palavras pelas quais os seus pecados teriam sido perdoados se tornam as palavras pelas quais são retidos".

(H.W. Watkins, The Gospel according to St. John. Em Charles John Ellicott (Ed.), A Bible Commentary for Bible Students. London- Edinburgh: Marshall Brothers, 1890; 6:544).

Para determinar se esta interpretação condenada por Trento é verdadeira ou não, o mais apropriado é ver o que fizeram os discípulos em obediência ao mandato do Senhor. Certamente que nunca os vemos ouvindo confissões em privado, ou seja «administrando a penitência» como o entenderam os bispos de Trento. Também não vemos que tenham ensinado outros a fazer tal coisa.

Em contrapartida, vemos que no Dia de Pentecostes proclamam a Boa Nova da salvação, a qual depois se estende a samaritanos e a gentios. Quando as tarefas de serviço às mesas se tornam excessivamente gravosas, os Apóstolos solicitam aos irmãos que escolham sete varões de boa reputação, cheios do Espírito e sábios, para que se encarreguem do serviço. Deste modo, os Apóstolos ficariam livres ... para ouvir confissões? Não, para entregar-se «à oração e ao ministério da Palavra» (Actos 6:1-7).

Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo declara a missão a que foi chamado:

«Porque Cristo não me enviou a baptizar, mas a pregar o evangelho, não com palavras eloquentes, para que não se faça vã a cruz de Cristo» (1:17).

Admite no entanto que baptizou uns poucos, mas não diz que tenha administrado o «sacramento» da penitência a alguém.

Na segunda Carta aos Coríntios, Paulo dá o que poderia considerar-se a sua própria versão da Grande Comissão:

«De maneira que nós de agora em diante já não conhecemos ninguém segundo a carne; ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora já não o conhecemos assim. De modo que se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto procede de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos encarregou da palavra da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus rogasse por meio de nós; em nome de Cristo rogamo-vos: Reconciliai-vos com Deus! Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus» (2 Coríntios 5:16-21).

O ministério da reconciliação que menciona aqui Paulo não está dirigido à restauração dos crentes, mas à conversão dos incrédulos.

Também o apóstolo Pedro não parece ter conhecido o «sacramento da penitência». Na sua primeira carta exorta várias vezes a uma vida santa, mas o antídoto contra o pecado não é para ele a confissão auricular, mas o amor:

«Sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados» (1 Pedro 4: 8).

Tiago exorta os crentes a que confessem os seus pecados uns aos outros, como também que orem uns pelos outros (Tiago 5: 16). Esta mútua confissão e oração também não se assemelha à confissão auricular. À primera vista a passagem parece promissora para o dogma católico, porque fala dos anciãos (presbyteroi) da Igreja:

«Está alguém entre vós doente? Chame os anciãos da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.»

No entanto, nada se diz aqui de uma confissão privada e secreta. Pelo contrário, como disse antes Tiago prossegue dizendo que devemos confessar os nossos pecados uns aos outros e orar uns pelos outros.

Finalmente, o apóstolo João diz o seguinte em relação ao pecado nos crentes:

«Se dissermos que não temos pecado, nos enganamos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a iniquidade» (1 João 1: 8-9).

De novo, não há o menor indício de uma confissão privada a um presbítero, e quem pronuncia a absolvição do pecador arrependido é Deus. Não poderia ser de outra forma, pois somente Deus conhece os nossos corações.

De maneira que quem retorce as Escrituras para justificar as suas práticas alheias à Bíblia não é mais ninguém senão a Igreja de Roma.

Cânon 6. Se alguém disser que a confissão sacramental ou não foi instituída ou não é necessária para a salvação por direito divino; ou disser que o modo de confessar-se secretamente com o sacerdote, que a Igreja Católica observou sempre desde o princípio e continua observando, é alheio à instituição e mandato de Cristo, e uma invenção humana, seja anátema.


Com este infortunado cânon a Igreja de Roma ratificou nada mais nada menos que ir contar os pecados ao sacerdote é necessário para a salvação, e isto de direito divino. Sinceramente me parece que beira a blasfémia o invocar autoridade divina para uma prática que a Bíblia nem ensina nem recomenda.

Além disso, novamente afirma o que não pode demonstrar e é altamente improvável, a saber, que a prática da confissão auricular se observou sempre desde o princípio.

2. Análise de ensinamentos do catecismo da Igreja Católica sobre a penitência:


986. "Por vontade de Cristo, a Igreja possui o poder de perdoar os pecados dos baptizados, e exerce-o de modo habitual no sacramento da Penitência através dos bispos e dos presbíteros."

As palavras aduzidas de Cristo não estabelecem que o perdão que Jesus deu poder de pronunciar se limite aos baptizados. Donde terá saído esta estranha doutrina?

1422. "«Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão dos pecados cometidos contra Ele e, ao mesmo tempo, se reconciliam com a Igreja, à qual ofenderam com os seus pecados. Ela os move à conversão com o seu amor, o seu exemplo e as suas orações»"

Este parágrafo é bastante curioso. Os que acedem ao sacramento da penitência, não são segundo a própria doutrina tridentina já necessariamente membros da Igreja? Se isto é assim, quando um fiel peca, a Igreja peca. Por que se a coloca como se fosse algo diferente dos que a compõem? Donde tiraram que os pecadores que formam parte da Igreja devem reconciliar-se com ela?


1423. "É chamado sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai da qual o pecador se afastou pelo pecado.

É chamado sacramento da Penitência, porque consagra um processo pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de reparação por parte do cristão pecador."

Aqui haveria várias coisas para comentar, mas simplesmente observarei que a agora chamada «reparação» e antes denominada «satisfação» (é notável como ao impulso dos tempos Roma adapta a sua terminologia para torná-la mais tragável) se efectua principalmente por orações, jejuns e esmolas. 
 

1424. "É chamado sacramento da confissão porque a declaração ou manifestação, a confissão dos pecados perante o sacerdote, é um elemento essencial deste sacramento. Num sentido profundo este sacramento é também uma «confissão», reconhecimento e louvor da santidade de Deus e da sua misericórdia para com o homem pecador."

Aquele «elemento essencial» é o que brilha pela sua ausência nas Escrituras. Como pode ser essencial num acto do qual supostamente depende nada menos que o destino eterno de uma pessoa, uma coisa da qual a Bíblia não diz nada? 
 
"É chamado sacramento do perdão porque, pela absolvição sacramental do sacerdote,
Deus concede ao penitente «o perdão e a paz»."

O interessante é que é o próprio sacerdote que pronuncia a sentença de absolvição. Não se diz «Deus te perdoa», mas «Eu te absolvo». Ora, isto não o faz segundo a própria doutrina católica em virtude de uma revelação especial, mas a partir do que o próprio pecador expressou. Como assinala um autor:

"os sacerdotes não podem saber com certeza se o arrependimento do pecador é genuíno ou não ... Nada significa o Ego te absolvo se o penitente não tem a certeza absoluta que a sua compunção é verdadeira e que é real o seu propósito de afastar-se de uma vida pecaminosa. Se pode estar convencido disso como católico, também o pode estar sendo protestante. Mas o protestante leva vantagem, porque ele busca e obtém o testemunho directo do Espírito [Santo] com o seu espírito, a não ser que Deus não possa comunicar-se pessoalmente com um protestante arrependido dos seus pecados, amante de Deus e do seu próximo e rendido completamente ao seu Criador."

J.A. Phillips, Análisis del Romanismo, 2ª Ed. Trad. E.B. Vargas. El Paso: Casa Bautista, 1956, p. 121.


"É chamado sacramento da Reconciliação porque dá ao pecador o amor de Deus que reconcilia: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20). Aquele que vive do amor misericordioso de Deus está pronto para responder ao apelo do Senhor: «Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão» (Mt 5, 24)."

A primeira citação está arrancada do seu contexto, uma vez que não se refere ao falso sacramento da penitência mas à pregação apostólica do Evangelho. Depois se acusa os protestantes de tirar textos do seu contexto....

A segunda citação, por outro lado, é irrelevante para o que se quer defender, uma vez que se trata de uma acção privada de um crente para com outro, e suponho que não se pretenderá que este último possa pronunciar a absolvição. 
 

1428. "Ora, o apelo de Cristo à conversão continua a fazer-se ouvir na vida dos cristãos. Esta segunda conversão é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que «recebe no seu próprio seio os pecadores» e que sendo «santa ao mesmo tempo que necessitada de purificação constante, busca sem cessar a penitência e a renovação». Este esforço de conversão não é somente uma obra humana. É o movimento do «coração contrito» [Sal 51,19.], atraído e movido pela graça para responder ao amor misericordioso de Deus que nos amou primeiro."

Perfeito, se bem que não se entende o que têm que ver estes princípios com a confissão sacramental.

Seguem-se os parágrafos 1430, 1431, 1432, 1433, onde se ensina sobre a penitência interior do crente, mas de novo fica exposto o problema de que nenhum homem pode ver os corações alheios (às vezes não vê bem nem o seu próprio), o que torna ociosas as absolvições que possa pronunciar por mais sacerdote que seja. Se há verdadeiro arrependimento são desnecessárias, e se não o há só servem para criar uma perigosa ilusão.

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Resposta às afirmações de um católico sobre o cânon bíblico


[Católico] Os protestantes só aceitam os livros do cânon feito pelos judeus que viviam na Palestina, os quais aceitaram como inspirados unicamente os livros escritos em hebraico e na Palestina rejeitando aqueles que estavam escritos em grego (Século 2 dc).

Não é claro o que quer dizer com a referência ao século II d.C. Se se refere às tradições reflectidas no Talmude, elas não fazem mais do que ratificar o que já estava aceite desde muito antes. Isto é evidenciado pelo testemunho de Jesus ben Sirá, Josefo, de Filão, de 4 Esdras e pelo uso que o Senhor e os Apóstolos fizeram das Escrituras do cânon hebreu. O Senhor e os seus discípulos diferiam dos judeus na interpretação das Escrituras, mas não há a mínima evidência de que tivessem discordâncias em relação à extensão do cânon. Quando Jesus disse aos judeus, "Esquadrinhai as Escrituras" não foi necessário que lhes desse uma lista. Quando o Senhor falou do sangue de Abel até o de Zacarias filho de Berequias, estava a mencionar o primeiro e o último mártir escritural segundo o cânon hebreu (palestino), que começava em Génesis e terminava em Crónicas (pois este vinha depois de Esdras-Neemias).

Os protestantes, pois, não fazem mais do que aceitar o mesmo cânon que foi normativo para Jesus e os seus discípulos.

A incorporação dos apócrifos/deuterocanónicos na vida da Igreja se deveu não ao uso do Senhor e dos Apóstolos, mas aos cristãos de fala grega que usaram a versão grega Septuaginta, que incluía estes livros.

[Católico] Critério um pouco contrastante pois todos os livros que tem na sua bíblia protestante do novo testamento são traduções do grego. Como notará, além disso, quando os judeus fizeram isto já não tinham nenhuma autoridade pois Deus havia concedido toda a autoridade a Cristo e à sua Igreja (Mt 28:19).

A primeira afirmação supõe que a única razão pela qual estes livros foram rejeitados era porque estavam escritos em grego. A principal razão, no entanto, é que jamais foram reconhecidos como inspirados.

A segunda frase já foi respondida antes.

[Católico] A relação de livros que utiliza a Igreja Católica foi dada pelos judeus da diáspora (dispersão) que aceitaram tanto os escritos em grego como em hebraico.

Quer dizer que os judeus palestinos foram privados de toda a autoridade e os da diáspora não????

Parece-me um argumento insustentável.

[Católico] Além disso, esta era a relação utilizada pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos; como poderá observar em vários versículos do NT (Sir 28:13-26 cf. Tg 3:1-12; Sir 19:20-30 cf. Tg. 3:13-18; Sir 4:26 cf. Tg 5:15; etc.)

É um facto comprovado e aceite pelos eruditos católicos que não existe nenhuma citação directa de algum livro deuterocanónico/apócrifo do AT no Novo Testamento. Existem sim semelhanças e alusões, mas estas podem-se explicar facilmente pelo facto de que tanto os escritos do Novo Testamento como os apócrifos/deuterocanónicos do AT tinham uma base comum que eram as Escrituras do cânon hebreu. Assim, por exemplo, os paralelos que menciona, que não são citações textuais, se explicam porque Tiago é uma carta cuja ênfase está na sabedoria, ou seja, na aplicação prática e quotidiana do conhecimento de Deus, à semelhança de Jesus ben Sirá (Sirácide ou Eclesiástico). Ambos dependem em boa medida da literatura sapiencial canónica, em particular Provérbios. Este é um tema bem conhecido da historiografia: dois textos têm semelhança entre si sem que um dependa do outro, porque ambos têm um fundo comum. De modo que em ausência de citações directas que demonstrem dependência literária, este argumento carece por completo de validade.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

De que signo é a Astrologia?


"De que signo és?" é uma forma convencional de entabular conversa, que mostra quão arraigada está a astrologia na nossa cultura. Muitos jornais, revistas e programas de televisão possuem espaços regularmente atribuídos para consultas astrológicas. Os livros sobre astrologia, e em particular aqueles dedicados às previsões para o ano que se inicia, vendem milhões de exemplares. Apesar de relativamente poucas pessoas dependerem seriamente da astrologia como guia das suas vidas, um número muito alto considera que há algo de verdadeiro nela. Para avaliar tal noção, faremos uma breve revisão da história, do fundamento científico e da posição bíblica sobre o tema.

HISTÓRIA

A observação dos céus em busca de chaves que permitissem planificar a actividade humana é muito antiga. As observações astronómicas e meteorológicas possuíam indubitável valor prático. No entanto, rapidamente se misturaram com ideias mágicas acerca da influência dos astros sobre os acontecimentos terrenos, campo específico da astrologia. Povos antigos tão diversos como os maias e os chineses desenvolveram teorias astrológicas.

No entanto, o sistema astrológico mais popular no ocidente provém da antiga Babilónia. Ali surgiu o sistema de signos do zodíaco. No Egipto se desenvolveu e popularizou, embora tenha sido na cultura helénica que a astrologia recebeu a sua terminologia, uma roupagem matemática, vinculação com todos os aspectos da natureza e o passaporte para assegurar a sua persistência no Ocidente.

Durante a maior parte da sua longa história, a astrologia acompanhou a sua "irmã sensata", a astronomia. De facto, aqueles que praticavam esta também cultivavam aquela, e eram designados pela denominação grega comum de "matemáticos".

Os romanos a incorporaram na sua cultura, facto ridicularizado por alguns autores latinos como Petrónio e Juvenal. Em 140, Cláudio Ptolomeu escreveu em Alexandria a principal síntese da teoria astrológica, o Tetrabiblos.

Um dos factores determinantes do ocaso da astrologia antes da era científica foi a expansão do cristianismo, apesar de a atitude da igreja não ter sido uniforme. A astrologia recrudesceu durante o Renascimento, mas a moda não durou muito, principalmente devido ao desenvolvimento do método científico que permitiu distinguir claramente entre astronomia e astrologia.

No entanto, embora tenha sofrido um prolongado coma, a astrologia nunca morreu. No nosso século, graças ao ressurgimento do interesse no oculto e nas "forças e harmonias cósmicas" que caracteriza a teosofia e mais recentemente o movimento da Nova Era, a antiga astrologia experimenta renovada popularidade.

OBJECÇÕES LÓGICAS E CIENTÍFICAS

O senso comum sugere que algumas noções da astrologia são muito duvidosas. Por exemplo, é difícil crer que o horóscopo de dezenas de pessoas de diferente signo falecidas num acidente aéreo indicasse exactamente o mesmo para todas.

As previsões dos astrólogos são vagas, gerais, ou baseadas no conhecimento da actualidade. No entanto, nenhum "predisse" acontecimentos muito notáveis mas inesperados, como a morte de John Lennon ou Lady Di, a queda do muro de Berlim ou a dissolução da União Soviética; não estariam escritos nos astros?

Também é notável o facto de existirem diferentes sistemas astrológicos discordantes, que levam a interpretações muito díspares dos mesmos factos. Isto não acontece, por exemplo, na astronomia, que é praticada sobre os mesmos princípios científicos em todo o globo.

Do ponto de vista físico, não existem forças conhecidas que possam explicar, ao menos teoricamente, a influência dos planetas e outros astros sobre acontecimentos terrestres; muito menos que justifiquem a noção de que distintos planetas têm efeitos diferentes sobre as pessoas ou acontecimentos.

Estes simples e contundentes factos não desalentam, porém, os partidários da astrologia, que insistem em que, embora não saibamos como, a astrologia "funciona". É realmente assim?

Os astrólogos sustentam que o valor da astrologia foi demonstrado desde a antiguidade graças a repetidas observações. No entanto, isso não pode ser verdade porque a complexidade da análise necessária ultrapassa amplamente as possibilidades dos antigos. As interpretações são, então, necessariamente arbitrárias e mágicas.

Na realidade, embora os astrólogos não o saibam ou o dissimulem, existem numerosos estudos bem desenhados que mostram a falsidade das noções astrológicas, não só no que respeita a previsões específicas mas também no referente à descrição da personalidade, como por exemplo tendências agressivas, artísticas, científicas, etc.

O instrumento mais sofisticado usado pelos astrólogos profissionais é a carta natal, que supostamente permite uma descrição detalhada da personalidade. Ora, as descrições baseadas na interpretação de cartas natais não têm sido estatisticamente diferentes de descrições geradas ao acaso, e portanto carecem de valor.

Muitas pessoas tendem a crer na astrologia porque estimam que a descrição que faz das suas pessoas é correcta, pelo menos em alguns aspectos. É uma ilusão, que se baseia no facto de as descrições serem o suficientemente amplas para adaptar-se a muitas pessoas, e por outro lado se contarem as coincidências mas não se descontarem os erros. Se se fizesse isto, se veria que o valor das descrições é nulo (os acertos e desacertos tendem a anular-se). Em conclusão, não existe a menor prova científica de que a astrologia tenha valor preditivo ou descritivo.

CRÍTICA BÍBLICA

A Escritura ensina que as estrelas, como o resto do universo, são uma criação de Deus (Génesis 1:16). Apesar de, com a ajuda de uma concordância, se poderem encontrar numerosas referências literais e figuradas aos astros, a Bíblia jamais ensina que tenham a mais mínima influência sobre os assuntos humanos.

A Bíblia condena de maneira veemente toda a forma de adivinhação, e especificamente a astrologia (Lev. 19:26,31). Desde o princípio, o povo de Israel recebeu severas advertências a respeito:

"Não haverá em ti ninguém ... que pratique adivinhação, astrologia, feitiçaria ou magia ... Porque essas nações que vais desalojar ouvem astrólogos e adivinhos, mas a ti Yahveh teu Deus não te permite semelhante coisa" (Deut. 18:10-14).

Os profetas de Israel não poupam sarcasmos contra astrólogos e adivinhos. Jeremias diz que não há que ter medo dos "sinais celestes", erro próprio dos pagãos (Jer. 10:2). Contra Babilónia, Isaías escreveu:

"Que se apresentem, pois, e que te salvem, os que descrevem os céus, os que observam as estrelas e fazem saber ... o que sucederá. Eis que ... não poderão salvar a sua vida" (Isa. 47:13-14).

Mesmo os hebreus que tiveram de aprender astrologia, nunca confiaram nela. Daniel, chefe dos magos em Babilónia, interpreta o sonho do rei só com a ajuda de Deus, pois "não há sábios, adivinhos, magos nem astrólogos que o possam revelar" (ver Dan 2:1-28; 5:7-8; 17-28).

O Novo Testamento reitera a condenação de toda a forma de magia e adivinhação (Actos 8:9-25; 13:6-12; 19:19-20). A nação de origem da idolatria e da astrologia, Babilónia, é chamada a "grande prostituta" e "mãe de todas as abominações" (Apoc. 17-18).

O Apóstolo Paulo ensinou que era o cúmulo do pecado adorar a criação em vez do Criador (Rom 1:25-26). Os que são de Cristo, diz, não devem submeter-se a nada criado, e adverte especificamente contra o que chama "princípios elementares do cosmos" (Col. 2:8,20), provável alusão aos astros.

Em Gálatas 4:3-5, o Apóstolo reafirma a liberdade dos cristãos, redimidos por Jesus, em relação a estes "princípios elementares". Igualmente em Rom. 8:38-39 diz que "nem a altura nem a profundidade" – ambos termos astrológicos - podem separar-nos do amor de Deus que está em Cristo.

CONCLUSÃO

Desde a sua origem a astrologia não tem sido outra coisa senão vã superstição. As tentativas de dar-lhe fundamento científico, demonstrar a sua confiabilidade ou combiná-la com a psicologia têm sido completamente infrutuosas. A Bíblia a denuncia como a idolatria e falsa ciência que é.

Respondemos então agora à pergunta que dá título a este artigo: A astrologia é do signo do erro e de Satanás. Nenhuma pessoa sensata, e muito menos um cristão, deve envolver-se com ela.

ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

A melhor crítica científica à astrologia é sem dúvida a destes astrónomos,

Robert B. Culver e Philip A. Ianna:
El secreto de las estrellas – Astrología: ¿Mito o realidad? (Gerona: Tikal Ediciones, 1994).

Podem ler-se as críticas cristãs:

William J. Petersen: La astrología y la Biblia (Terrassa: CLIE, 1976).

Tácito da Gama Leite: Ciência, magia ou superstição? (São Paulo: Vida, 1987).

Para um resumo da história, da crítica científica e da crítica cristã, com bibliografia adicional:

Fernando D. Saraví: Los horóscopos y la astrología (Terrassa: CLIE, 1992)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sobre a Santa Trindade


1. No Antigo Testamento

Os dados do Antigo Testamento não bastam para formular a doutrina trinitária, mas como veremos também não se opõem a ela. O judaísmo tem considerado tradicionalmente uma unidade absoluta de essência e personalidade em Deus, com base no Shemá e em outros textos, principalmente Isaías 43-45. O Shemá é o texto de Deuteronómio 6:4, Shema' yisra'el YHWH elohenu YHWH echad (Ouve, Israel, Yahveh [Adonai] nosso Deus é um Yahveh [Adonai]). Esta é a tradução tradicional. No entanto, outras traduções também são correctas; por exemplo, "Yahveh nosso Deus é um Deus único", em cujo caso significaria que, enquanto os deuses pagãos são muitos, cada qual com uma suposta parcela de poder, o Deus verdadeiro reúne em si toda a potestade. Outra tradução possível é "Yahveh é nosso Deus, somente Yahveh". [1]

Herbert Wolf assinala: "Alguns eruditos consideraram que apesar de «um» ser singular, o uso das palavras deixa espaço para a doutrina da Trindade ... este versículo concentra-se no facto de que não há senão um único Deus e que Israel deve lealdade exclusiva a ele (Deut 5:9, 6:5). O Novo testamento é também estritamente monoteísta enquanto ao mesmo tempo ensina a diversidade na unidade (Tiago 2:19, 1 Cor 8, 5-6) ... A opção "o SENHOR é nosso Deus, o SENHOR somente" tem a seu favor tanto o contexto mais amplo do livro como o contexto imediato". [2]

Um facto importante é que a palavra usada para indicar "um" (hebraico, 'echad) pode indicar uma unidade composta. Assim, em Génesis 2:4 o macho e a fêmea são chamados "uma só ['echad] carne". Podem ver-se outros exemplos em Juízes 20:8 ("Como um só ['echad] homem, todo o povo se levantou ..." ) e em Sofonias 3:9, "para que todos o sirvam com um mesmo ['echad] jugo". É interessante que nos seus Treze Artigos da fé judaica, o grande erudito medieval Maimónides ensinou a absoluta unicidade de Deus e mudou a palavra `echad por outro termo hebraico, yachid, que significa "um" singular, sem possibilidade de pluralidade.

Embora se conjugue normalmente no singular, a palavra 'elohim, usada mais de 2 500 vezes no Antigo Testamento para referir Deus, é uma forma plural. Scott observa: "Albright sugeriu que este uso do plural de majestade provém da tendência para o universalismo no antigo Oriente Próximo … Mas uma melhor razão pode ver-se na própria Escritura onde, no mesmíssimo primeiro capítulo do Génesis, se encontra a necessidade de um termo que conote a unidade do único Deus ao mesmo tempo que permita uma pluralidade de pessoas (Génesis 1:2,26). Isto é também apoiado pelo facto de que a forma 'elohim ocorre apenas em hebraico e em nenhuma outra língua semítica, nem sequer no aramaico bíblico". [3]

Outro indício da Trindade no Antigo Testamento se encontra no misterioso «anjo de Yahveh», o qual é identificado com o Senhor ao mesmo tempo que distinguido dele (Génesis 16: 7-11, 13, 31:11). No capítulo 18 do Génesis há um relato do encontro pessoal de Abraão com o anjo de Yahveh. Se não houvesse pluralidade de pessoas em Deus, esta narração contradiria Êxodo 33:18-23, que diz que ninguém jamais viu a Deus (ver também João 1:18).

Ainda outra pista importante é dada pelo profeta Zacarias. O estudioso judeo-cristão, Dr. David Baron, salienta: "Talvez em nenhum outro livro do Antigo Testamento a divindade do Messias é tão claramente indicada como em Zacarias. No segundo capítulo (versículos 8-11) o profeta chama pelo nome de Jeová [Yahveh], aquele que há-de vir e há-de habitar no meio de Sião, o qual os judeus sempre entenderam que se tratava do Messias. Esta deve ser uma passagem muito difícil para um judeu ou um unitário, pois o profeta aqui representa duas pessoas e chama pelo divino título de Jeová ambas, embora uma seja enviada pela outra para que cumpra alguma missão na terra". [4]

Embora se pudesse dizer mais, somente acrescentarei outro texto de Isaías 48, porque este profeta assinala várias vezes o carácter único de Deus:

12 "Escuta-me, ó Jacob; e tu, ó Israel, a quem chamei. Eu Sou. Eu sou o primeiro, e também sou o último. 13 Certamente a minha mão pôs os fundamentos da terra, a minha mão direita estendeu os céus. Quando eu os convoco, eles aparecem juntos. 14 Ajuntai-vos todos vós, e ouvi: Quem há entre vós que revele estas coisas? Aquele a quem o Senhor ama, ele fará a sua vontade sobre Babilónia, e o seu braço estará sobre os caldeus. 15 Eu, eu mesmo falei; em verdade o chamei. Eu o trouxe, e farei prosperar o seu caminho. 16 Chegai-vos a Mim e ouvi isto: Desde o princípio não falei em segredo; desde que as coisas sucederam, ali estive eu. E agora me enviou o Senhor Deus e o seu Espírito".

Neste capítulo, quem fala é o próprio Yahveh (versículo 12), mas no versículo 16, diz que o Senhor e o seu Espírito o enviaram! Desta passagem comenta Derek Kidner, "O v. [16] termina com uma extraordinária mudança de orador ... em outras palavras, o Servo em quem Jesus se vê a si mesmo. É um extraordinário reflexo, à distância, da Trindade". [5] A divindade do Messias também fica indicada por textos como Isaías 7:14 comparado com Mateus 1:25, Isaías 9:6 e Jeremias 23:6.

2. O Novo Testamento

A divindade de Jesus Cristo é explicitamente afirmada em diversos textos:

João 1:1, "... e o Verbo era Deus"
João 1:18, "... o unigénito Deus, que está no seio do Pai"
João 20:28, "Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!"
Romanos 9:5, "... Cristo, que é Deus sobre todas as coisas"
Tito 2:13, "nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo"
Hebreus 1:8, "do Filho diz: «O teu trono, ó Deus, subsiste pelos séculos dos séculos»"
Hebreus 1:10, "Tu, ó Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra de tuas mãos"
2 Pedro 1:1, "nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo"
1 João 5:20, "... estamos no verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna" (ver João 14:6; 17:3).

Existem muitos outros textos que reafirmam estas declarações explícitas de divindade, já que Jesus perdoa pecados, recebe adoração, etc.

O Espírito Santo é também de carácter divino e pessoal. Tem os atributos de Deus como eternidade (Hebreus 9:14), omnipresença (Salmo 139:7) e omnisciência (1 Coríntios 2:10). Com base no modo em que Jesus se refere a Ele em João 14 a 16, é também uma pessoa. Ele guiou e falou aos profetas antigos e também aos discípulos de Jesus (1 Pedro 1:10-12; 2 Pedro 1:21; Actos 8:29; 20:23; 28:5). O pecado contra Ele é imperdoável (Mateus 12:31). O Espírito Santo é chamado o Espírito de Deus e o Espírito de Cristo. Habita em nós e por isso somos seu templo (1 Coríntios 3:16).

Além de Mateus 28:19 e 2 Coríntios 13:13-14, há outras passagens em que as três Pessoas aparecem lado a lado (sendo um único Deus). Uma é a de Lucas 1:35, em que o Espírito Santo, o Altíssimo (o Pai) e o Filho do Altíssimo (Jesus) são referidos. Depois existem os relatos do baptismo de Jesus, onde se fazem presentes o Filho, o Espírito Santo e a voz do Pai desde do céu (Mateus 3:16-17 e paralelos).

Outro texto relevante é 1 Coríntios 12:4, no qual Paulo menciona um Espírito, um Senhor (Jesus) e um Deus (o Pai). Efésios 1:3-14 descreve a operação cooperativa (não sucessiva) das três Pessoas divinas. Mais adiante na mesma epístola Paulo diz: "Há um corpo, e um Espírito, como também fostes chamados numa esperança; um Senhor, uma fé, um baptismo, um Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos" (4:4-6). Pedro ensina o mesmo na sua saudação aos crentes: "Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, através da santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo" (1 Pedro 1:2).

A Santa Trindade

O cristianismo histórico considera que, embora a palavra "trindade" não apareça na Bíblia (a propósito, a palavra "Bíblia" também não aparece nela), o termo conota uma doutrina solidamente fundamentada nas Escrituras.

Embora possamos saber algo acerca do Criador a partir da sua obra (ver Romanos 1-3) a forma mais segura e valiosa de conhecê-lo é através do que o próprio Deus revelou na sua Palavra. No entanto, ao tentar compreender a Escritura, mesmo com o auxílio do Espírito Santo, a perfeição divina encontra-se com a imperfeição humana. Simplesmente não podemos nesta vida conhecer Deus como Ele nos conhece a nós. O nosso conhecimento é fragmentário e imperfeito.

Um problema particularmente grave é a singularidade de Deus. Obtemos muito do nosso conhecimento e compreensão do que nos rodeia por meio de comparações e analogias. Mas toda a analogia concebível pelo homem é inadequada quando se trata do ser de Deus: água, líquido, gelo e vapor; sol, calor e luz; clara, gema e casca; espaço, tempo e matéria, todas estas e outras mais podem ser de alguma ajuda, mas são intrinsecamente defeituosas quando se trata de conceber Deus. Com esta necessária advertência, vejamos o que nos é dado compreender e o que escapa à nossa compreensão.

Formulação:

O único Deus verdadeiro subsiste eternamente em três Pessoas e uma substância
Portanto,
O Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus,
O Pai não é o Filho,
O Pai não é o Espírito Santo,
O Filho não é o Espírito Santo.

Estas três Pessoas são uma em substância e essência, na realidade última do seu ser. As três são eternas, incompreensíveis, verdadeiras, todo-poderosas, omniscientes, supremamente boas, justas e misericordiosas.

(Substância: o que Deus é intrinsecamente; Pessoa: a subsistência no ser)

Fundamentação:

A doutrina da Trindade tem as suas raízes na Bíblia, e a Igreja pós-apostólica a aceitou. Isto não nega que tenha tido certo desenvolvimento para a sua formulação mais clara. A doutrina é a consequência inevitável de conciliar ou harmonizar os dados bíblicos sobre Deus, a saber:

1. Há um único Deus verdadeiro.
2. O Pai é chamado Deus, o Filho é chamado Deus, e o Espírito Santo é chamado Deus.
3. No entanto, o Pai é diferente do Filho, como ambos são diferentes do Espírito Santo.
4. De modo que não são uma mesma pessoa, mas sim um mesmo Deus.

É contraditória a formulação trinitária?

Não, não o é. Uma contradição é uma impossibilidade lógica, por exemplo afirmar que duas coisas opostas são verdade ao mesmo tempo e no mesmo sentido. O conceito trinitário seria certamente contraditório se afirmasse, por exemplo, que Deus é ao mesmo tempo uma pessoa e três pessoas, ou que Deus é um em substância e três em substância. A doutrina ortodoxa de que o único Deus consiste numa substância e três Pessoas pode ser difícil de entender, mas não envolve violação alguma dos princípios da lógica.

É um mistério a Trindade?

As pessoas que rejeitam a doutrina trinitária ortodoxa muitas vezes zombam dos que a sustentam, dizendo que deve ser aceite como um "mistério". O que realmente querem dizer é que se trata de uma ideia ridícula ou contraditória (ver mais acima). Todavia, o ser de Deus é certamente um mistério em sentido estrito. Não pode ser conhecido pela razão humana fora da revelação bíblica, nem pode ser conclusivamente demonstrado pela razão uma vez revelado.

No entanto, a doutrina trinitária pode e deve ser aceite por todos os que crêem na Bíblia. É um facto notável e digno de cuidadosa consideração que depois de vinte séculos, e de numerosas tentativas de evitá-la (arianismo, modalismo, triteísmo, para nomear algumas) não se forneceu uma melhor compreensão do ser de Deus.

Notas

1. Walther Eichrodt, Teología del Antiguo Testamento; Madrid: Cristiandad, 1975, 1:207, n. 47.

2. Em R. Laird Harris e outros, Ed., Theological Wordbook of the Old Testament,; Chicago: Moody, 1980, 1:30.

3. Jack Scott, em Ibid., 1:44.

4. David Baron, Rays of Messiah's Glory: Christ in the Old Testament; Winona Lake: Alpha Publ., 1979, p. 77f, n. 1.

5. Derek Kidner, Isaías. Em D. Guthrie e col., Ed., Nuevo Comentario Bíblico. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1977, p. 463.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Idolatria e superstições católicas



Depois dizem que só adoram a Deus



"Vós sabeis que, quando éreis gentios, vos desviáveis para os ídolos mudos, conforme éreis levados" (1 Cor. 12:2)


"Filhinhos, guardai-vos dos ídolos" (1 João 5:21)
 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Arrependimento de Deus


Diversas Escrituras fazem referência ao arrependimento de Deus, enquanto outras afirmam muito claramente que Deus não se arrepende. De modo que há aqui duas possibilidades.

A primeira a considerar é que se trata de simples contradições dos autores bíblicos. A mais extrema poderia encontrar-se em 1 Samuel 15, onde nos versículos 10-11 e 35 lemos:

"Então veio a palavra do Senhor a Samuel, dizendo: Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porque deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras"; "E Samuel chorava por Saul, porque o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei sobre Israel".

No entanto, no mesmo capítulo (v. 28-29) Samuel diz:

"O Senhor rasgou de ti hoje o reino de Israel, e o deu a um teu próximo, que é melhor do que tu. E aquele que é a Força de Israel não mentirá nem se arrependerá, porque não é homem para que se arrependa".

A segunda possibilidade é que os versículos que falam do arrependimento de Deus e os que afirmam que Deus não se arrependerá se referem a coisas diferentes. Em tal caso não há necessariamente contradição.

As palavras

A palavra hebraica que se usa com referência ao arrependimento de Deus é nacham, que pode traduzir-se por arrepender-se, lamentar, entristecer-se; segundo o contexto e o modo verbal pode alternativamente significar "confortar" e "ser consolado" ou alentado, como em Salmo 23:4 ou em Isaías 40:1, nachamu nachamu 'ammi, «Consolai, consolai o meu povo» (diz Deus).

Provém provavelmente de uma raiz que significava "respirar profundamente" e faz parte de nomes bíblicos como Nahum (Consolo) e Nehemias (Yahveh [Deus] consola). Entre as palavras derivadas de nacham estão nocham (compaixão; Oseias 13:14), nichum (consolo, Isaías 57:18, compaixão, Oseias 11:8), nechama (consolo, Salmo 119:50; Job 6:10) e tanchum (consolo, Jeremias 16:7; consolação, Isaías 66:11, etc).

Em que difere do arrependimento do homem?

Ora, quando se refere ao arrependimento de Deus há que distinguir entre a resposta de Deus perante as obras do homem, e o propósito eterno de Deus. Em geral, os textos que dizem que Deus se arrepende apresentam a reacção divina à conduta humana, ao passo que os que afirmam o contrário aludem à vontade soberana de Deus, inquebrantável, irresistível e imutável.

A Bíblia proclama que Deus é eterno (João 17:5, 2 Timóteo 1:9), que o seu conselho é imutável (Hebreus 6:17), e que Ele não muda (Malaquias 3:6, Tiago 1:17). Além disso, ensina que Deus conhece todas as coisas: 1 Samuel 2:3; Job 12:13; Salmo 94:9, 147:5; Isaías 29:15, 40:27-28.

Quando um ser humano se arrepende de algo, deve-se a que se deu conta de algo que ignorava. Contudo, Deus conhece todas as coisas e, por conseguinte, não pode arrepender-se no mesmo sentido que um ser humano. As referências ao arrependimento de Deus devem pois entender-se, tal como se apresentam nas Escrituras, como uma mudança no proceder divino produzida pelas acções ou intenções humanas. Assim lemos em Jonas 3:10 que quando a cidade condenada de Nínive creu em Deus e deu mostras de conversão, "Deus viu o que fizeram, que se converteram do seu mau caminho, e se arrependeu do mal que tinha anunciado fazer-lhes, e não o fez".

A modificação nos tratos de Deus com os homens, gerada pelas mudanças de atitude destes (para pior ou para melhor) é descrita com um antropomorfismo, figura bíblica na qual se representa Deus mediante linguagem que se aplica com propriedade somente aos seres humanos.

Assim, por exemplo, os habitantes pré-diluvianos desviaram-se de Deus pecando até mais não, e Deus decidiu castigá-los (Génesis 6:6-7). Tal decisão, conforme a santidade e justiça divinas, foi consistente com o seu plano eterno, mas é-nos apresentada, vista desde a perspectiva humana, como um arrependimento. Todavia o texto bíblico reafirma o propósito eterno ao acrescentar de imediato: "Mas Noé achou graça aos olhos do Senhor" (versículo 8).

Deus verdadeiramente se desgosta pelo pecado humano. Há outro aspecto interessante, que tem a ver com o papel de Noé. John H. Sailhamer (Expositor´s Bible Commentary, 2:80-81) o explica assim:

No v. 6 - «Yahveh se arrependeu (wayyinnachem), de ter feito o homem sobre a terra, e o seu coração se encheu de dor (wayyit'asseb)» - o autor descreve a resposta do Senhor à impiedade humana fazendo um curioso jogo de palavras com a nomeação de Noé por Lameque: «Ele nos consolará (yenachamenu) do … trabalho das nossas mãos» (ûmeissebon, 5:29). Assim, em ambas as passagens Noé é apresentado com jogos de palavras que associam o seu nome, "Noé" (noach) com o "consolo" (nicham) do desgosto e da dor (atsab) causada pela rebelião do homem (cf. Cassuto). Ao fazer de Deus o sujeito dos verbos no v.6, o autor mostrou que o desgosto e a dor pelo pecado do homem não era algo que somente sentia o homem. O próprio Deus estava desgostado pelo pecado humano (v.7). Ao voltar deste modo ao papel de "consolador" implicado no significado do nome de Noé, o autor sugere que Noé não somente trouxe consolo à humanidade em sua dor, mas também trouxe consolo a Deus".

Igualmente, em Êxodo 32, Deus anuncia o seu propósito de destruir o povo pela sua idolatria, mas Moisés intercede em favor dos seus. Como consequência, diz o relato: "Então, o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo" (32:14).

Novamente, em 1 Samuel 15, Deus arrepende-se devido à má conduta de Saul. Por isso a sua decisão de tirar-lhe o reino é irrevogável, já que novamente obedece ao plano eterno de Deus.

Conclusão

Concluo com uma citação que resume adequadamente o assunto (Theological Wordbook of the Old Testament, ed. by R.L Harris et al; Chicago, Moody Press, 1980, 2:571):

À diferença do homem, que sob a convicção do pecado sente remorso e desgosto genuínos, Deus está livre de pecado. Todavia, as Escrituras dizem que Deus se arrepende (Génesis 6:6-7; Êxodo 32:14; Juízes 2:18; 1 Samuel 15:11, etc), isto é, que se aplaca ou modifica os seus tratos com o homem segundo os seus propósitos soberanos. Superficialmente, tal linguagem parece inconsistente, para não dizer contraditória, com certas passagens que afirmam a imutabilidade de Deus: "Deus não é homem … para que se arrependa" (1 Samuel 15:29 contra v.11), "O Senhor jurou e não se arrependerá" (Salmo 110:4). Quando nacham se usa acerca de Deus, no entanto, a expressão é antropomórfica e não há uma tensão insuperável. Desde a perspectiva limitada, terrenal, finita do homem apenas parece que os propósitos de Deus mudaram. Assim, o Antigo Testamento afirma que Deus se 'arrependeu' dos juízos ou do 'mal' que tinha planeado realizar (1 Crónicas 21:15; Jeremias 18:8, 26:3; Amós 7:3,6; Jonas 3:10). Certamente Jeremias 18:7-10 é uma contundente lembrança de que, desde a perspectiva de Deus, a maior parte da profecia (excluindo as predições messiânicas) é condicional à resposta do homem".

Em vez de um deus imutável, cego e surdo ao clamor do homem, o Deus da Bíblia vê, ouve e actua em consequência. É uma fonte de enorme alento e consolação saber que o nosso misericordioso Deus e Pai está atento aos nossos actos e às nossas orações, e está sempre pronto a responder a elas.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pilar, a lenda da primeira aparição de Maria


"Segundo uma antiga tradição espanhola, dada no Breviário Romano (para 12 de Outubro, Ad. mat., lect. vi), o santuário original [da Virgem do Pilar] foi construído por São Tiago Apóstolo por vontade da Virgem, que lhe apareceu enquanto estava a orar na margem do rio Ebro em Saragoça. Tem havido muita discussão acerca da verdade da tradição. Monsenhor L. Duchesne nega, como o fez Barónio, a vinda de São Tiago a Espanha, e reproduz argumentos baseados nos escritos do XII Concílio Ecuménico [IV Laterano, 1215], descobertos por Loaisa, mas rejeitados como espúrios pelo académico jesuíta Fita e muitos outros. Os que defendem a tradição aduzem o testemunho de São Jerónimo (PL XXIV, 373) e o da liturgia moçárabe. O testemunho escrito mais antigo da devoção à Bendita Virgem em Saragoça usualmente citado é o de Pedro Librana (1155). Fita publicou dados de dois túmulos cristãos em Saragoça, que datam de tempos romanos, nos quais é representada a Assunção de Maria".

J.M. March, Nuestra Señora del Pilar, em The Catholic Encyclopedia, vol. 12 (1911)

Ou seja, trata-se de uma lenda medieval que por sua vez se apoia noutra lenda medieval anterior, a saber, a suposta estadia de Tiago irmão de João, em Espanha.

"São Tiago foi o primeiro dos Doze a sofrer o martírio, sendo decapitado por Herodes Agripa I em 44 d.C. (Actos 12:2). Desde o século VII se tem alegado que antes do seu martírio pregou em Espanha, mas a tradição da Igreja primitiva, segundo a qual os Apóstolos não deixaram Jerusalém senão depois da sua morte, como também Romanos 15:20 e 24, estão contra a autenticidade desta história a qual está agora quase universalmente abandonada".

The Oxford Dictionary of the Christian Church, p. 711.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...