quinta-feira, 20 de maio de 2010

Observações sobre as citações eucarísticas primitivas


1) A DIDAQUÊ

Considera que o "partir" do pão e a acção de graças são um "sacrifício".

Reitero o texto pertinente:

14. (1) Reunidos cada dia do Senhor, parti o pão e dai graças, depois de ter confessado os vossos pecados, para que o vosso sacrifício seja puro.
(2) Todo aquele, porém, que tenha contenda com o seu companheiro, não se junte convosco até que não se tenha reconciliado, a fim de que não profane o vosso sacrifício.
(3) Porque este é o sacrifício do qual disse o Senhor: Em todo o lugar e em todo o tempo se me oferece um sacrifício puro, porque eu sou rei grande, diz o Senhor, e o meu nome é admirável entre as nações. [Mal 1:11,14].

A palavra que usa é thysia, que aparece 28 vezes no Novo Testamento e na RV traduz-se regularmente como "sacrifício", excepto em Lucas 2:24 ("oferta").

Em Efésios 5:2 e Hebreus 9:26; 10:12 aplica-se à morte expiatória de Jesus Cristo como único sacrifício necessário e suficiente pelo pecado.

No entanto, o mesmo vocábulo aplica-se aos crentes noutros textos:

Romanos 12:1 Portanto, irmão, rogo-vos pelas misericórdias de Deus que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é o vosso verdadeiro culto. (RV 1995). A Versão Popular parafraseia com acerto: "... que se apresentem vocês mesmos como oferta viva, santa e agradável a Deus. Este é o verdadeiro culto que devem oferecer."

Filipenses 4:18 Mas tudo o recebi e tenho abundância; estou cheio, tendo recebido de Epafrodito o que enviastes, cheiro fragrante, sacrifício aceite, agradável a Deus.

Hebreus 13:15-16 Assim que ofereçamos sempre a Deus, por meio dele [Jesus Cristo], sacrifício de louvor, ou seja, fruto de lábios que confessam o seu nome. E de fazer bem e da ajuda mútua não vos esqueçais; porque de tais sacrifícios Deus se agrada.

1 Pedro 2: 4-5 Aproximando-vos dele, pedra viva, rejeitada certamente pelos homens, mas para Deus escolhida e preciosa, vós também, como pedras vivas, sede edificados como casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.

Portanto, a noção de apresentar sacrifícios a Deus em sentido espiritual é plenamente conforme ao ensino neo-testamentário. A celebração da eucaristia, na qual os elementos são abençoados e consagrados ao Senhor, juntamente com a atitude de santidade dos ofertantes, é precisamente o que constitui o sacrifício de que aqui se fala. Não há nada neste documento que sugira uma reiteração do sacrifício de Cristo.

2) INÁCIO DE ANTIOQUIA

Destaco as citações que se seguem:

a) "Afastam-se também da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo, a mesma que padeceu por nossos pecados, a mesma que, por sua bondade, ressuscitou-a o Pai. Assim, pois, os que contradizem o dom de Deus, morrem e perecem entre as suas disquisições. Quanto melhor lhes fora celebrar a Eucaristia, a fim de que ressuscitassem!".

b) "Só aquela Eucaristia que se celebre pelo bispo ou por quem dele tenha autorização há-de ter-se por válida".

Começando pelo final, como fiz antes notar Inácio adopta um ponto de vista acerca do episcopado que carece de base no NT, mas que sem dúvida se desenvolveu muito rapidamente na Igreja primitiva. Para Inácio, o bispo e os anciãos representam Jesus Cristo e os Apóstolos, de modo que onde está o bispo aí está a Igreja. Isto evidentemente é, na opinião de Inácio, aplicável a todos os bispos de todas as igrejas cristãs (congregações locais).

Inácio chama ao pão eucarístico remédio de imortalidade, antídoto contra a morte e alimento para viver para sempre em Jesus Cristo. Que com toda a probabilidade entende tanto isto como a sua afirmação de que a eucaristia é a carne de Cristo num sentido espiritual o mostra a sua afirmação, também citada, segundo a qual a fé e o amor dos crentes são respectivamente a carne e o sangue de Jesus Cristo (Tralianos 8:1).

3) JUSTINO MÁRTIR

Destaco igualmente as seguintes:

a) "Porque não tomamos estas coisas como pão comum nem bebida ordinária, mas como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por virtude do Verbo de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação; assim foi-nos ensinado que por virtude da oração ao Verbo que de Deus procede, o alimento sobre que foi dita a acção de graças – alimento do qual, por transformação, se nutrem o nosso sangue e as nossas carnes - é a carne e o sangue d`Aquele mesmo Jesus encarnado".

A ideia aqui é que do mesmo modo em que, pelo metabolismo ("transformação"), ou seja, pelo processo fisiológico de digestão, absorção e incorporação de substâncias, o pão e o vinho são uma fonte de nutrição física, ao ser santificados estes elementos pela oração e acção de graças possuem um efeito análogo no âmbito espiritual. Justino diz que nutrem os nossos corpos, e portanto conservam as suas propriedades químicas; mas afirma que em virtude da sua consagração, o pão e o vinho se tornam em mais que pão e vinho ordinários. Este ponto de vista da Eucaristia, chamado metabólico, parece ter sido o mais comum ao princípio. O tradutor e editor da Apologia na série Ante-Nicene Fathers cita o papa Gelásio I, de finais do século V: "Pelos sacramentos somos feitos participantes da natureza divina, e ainda assim a substância e natureza do pão e do vinho não cessam de estar neles..." Não é surpreendente que esta afirmação de Gelásio não tenha sido incluída no Denzinger... Também não aparece o seu decreto (contra os maniqueus) ratificando a recepção da Eucaristia sob as duas espécies [mencionado em The Catholic Encyclopedia, s.v. Gelasius I, pope]. Em contrapartida, sim, aparecem outros documentos seus.

b) "Daí que sobre os sacrifícios que vós então oferecíeis, diz Deus, por boca de Malaquias, um dos doze profetas: Não está a minha complacência em vós – diz o Senhor -, e os vossos sacrifícios não os quero receber das vossas mãos. Porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo o lugar se oferece ao meu nome incenso e sacrifício puro. Porque grande é o meu nome nas nações – diz o Senhor -, e vós o profanais [Malaquias 1:10-12]. Já então, antecipadamente, fala dos sacrifícios que nós, as nações, lhe oferecemos em todo o lugar, ou seja, do pão da Eucaristia e também do cálice da Eucaristia, ao mesmo tempo que diz que nós glorificamos seu nome e vós o profanais".

c) "Assim, pois, Deus atesta de antemão que lhe são agradáveis todos os sacrifícios que se lhe oferecem pelo nome de Jesus Cristo, os sacrifícios que este nos mandou oferecer, ou seja, os da Eucaristia do pão e do vinho, que celebram os cristãos em todo o lugar da terra".

O que Justino diz aqui é conforme à interpretação metabólica já mencionada, já que no Diálogo com Trifão (117) diz a propósito dos sacrifícios:

"Ora, que as orações e acções de graças feitas por homens dignos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus, eu mesmo vo-lo concedo. Justamente são só esses os que os cristãos aprenderam a oferecer até na consagração do pão e do vinho, em que se recorda a Paixão que por seu amor sofreu o Filho de Deus..."

Precisamente as orações e as acções de graças (o que significa "eucaristia") são os sacrifícios válidos; a eucaristia é, além disso, synaxis (reunião) e anamnesis (memória) da paixão de Cristo.

4) IRENEU DE LYON

"Ele reconheceu o cálice, que é uma parte da criação, como seu próprio sangue, do qual Ele humedece o nosso sangue: e o pão (também uma parte da criação) Ele o estabeleceu como seu próprio corpo, do qual Ele dá crescimento aos nossos corpos. Quando, portanto, o cálice misturado e o pão manufacturado recebe o Verbo de Deus, e se faz a Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, de cujas coisas a substância da nossa carne é nutrida e fortalecida, como podem afirmar que a carne é incapaz de receber o dom de Deus, que é vida eterna, se é nutrida do corpo e sangue do Senhor, e é um membro d`Ele?".

As palavras de Ireneu pressupõem o ponto de vista metabólico. O argumento de Ireneu dirige-se aos que negam a ressurreição corporal, e precisamente cito-o por extenso para que possa entender-se. Eu o resumiria como se segue: (1) Jesus não rejeitou tomar elementos materiais representando o seu próprio corpo e o seu próprio sangue, o que mostra que a matéria não é algo inferior e descartável; e (2) mesmo depois de consagrados os elementos eucarísticos, eles continuam a ser nutritivos para os nossos corpos; não se transformam em algo exclusivamente espiritual. De igual modo, a matéria é passível de receber de Deus o dom da incorruptibilidade.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Citações eucarísticas primitivas (1)


Segue-se uma compilação de citações de escritores dos primeiros três séculos do cristianismo sobre a Ceia do Senhor ou Eucaristia.

 Didaquê

A Didaquê ou "Doutrina dos Doze Apóstolos" é provavelmente o documento cristão mais primitivo conhecido. É anónima, e foi composta provavelmente na Palestina ou Síria na segunda metade do primeiro século.

Cito segundo a edição bilingue de Daniel Ruiz Bueno.

9. (1) Quanto à acção de graças [euxaristias], dareis graças desta maneira:
(2) Primeiramente, sobre o cálice:
Damos-te graças, Pai nosso, pela santa vinha de David, teu servo, que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos.
(3) Depois, sobre o fragmento:
Damos-te graças, Pai nosso, pela vida e pelo conhecimento que nos manifestaste por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos dos séculos.
(4) Como este fragmento estava disperso sobre os montes e reunido se fez um, assim seja reunida a tua Igreja dos confins da terra no teu reino. Porque tua é a glória e o poder por Jesus Cristo eternamente.
(5) Que ninguém, porém, coma nem beba da vossa Eucaristia, senão os baptizados no nome do Senhor, pois sobre isso disse o Senhor: Não deis o santo aos cães.

10. (1) Depois de vos saciardes, dareis graças assim:
(2) Damos-te graças, Pai santo, por teu santo Nome, que fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento e pela fé e pela imortalidade que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória pelos séculos dos séculos.
(3) Tu, Senhor omnipotente, criaste todas as coisas por causa do teu Nome e deste aos homens comida e bebida para seu desfrute. Mas a nós nos fizeste graça de comida e bebida espiritual e de vida eterna por teu servo.
(4) Antes de tudo, damos-te graças porque és poderoso. A ti seja a glória pelos séculos dos séculos.
(5) Lembra-te, Senhor, da tua Igreja, para livrá-la de todo o mal e fazê-la perfeita em teu amor, e reúne-a dos quatro ventos, santificada, no teu reino que preparaste. Porque teu é o poder e a glória pelos séculos.

14. (1) Reunidos cada dia do Senhor, parti o pão e dai graças, depois de ter confessado os vossos pecados, para que o vosso sacrifício seja puro.
(2) Todo aquele, porém, que tenha contenda com o seu companheiro, não se junte convosco até que não se tenha reconciliado, a fim de que não profane o vosso sacrifício.
(3) Porque este é o sacrifício do qual disse o Senhor: Em todo o lugar e em todo o tempo se me oferece um sacrifício puro, porque eu sou rei grande, diz o Senhor, e o meu nome é admirável entre as nações. [Mal 1:11,14].

Clemente de Roma

Este bispo de Roma escreveu em finais do primeiro século uma carta à Igreja de Corinto. Nela não trata da Eucaristia, mas faz alusão ao sacrifício de Cristo como algo singular e já cumprido.

1 Coríntios (ed. Ruiz Bueno)

7. (4) Fixemos o nosso olhar no sangue de Cristo, e conheçamos quão precioso é aos olhos do Deus e Pai seu, pois, derramado por nossos pecados, alcançou graça de arrependimento para todo o mundo.

21. (6) Reverenciemos o Senhor, cujo sangue foi derramado por nós...

Inácio de Antioquia

Este bispo, que faleceu antes de 117, escreveu sete cartas a caminho do seu martírio em Roma. É afeiçoado a uma linguagem ricamente simbólica, pelo que as suas declarações respeitantes à Eucaristia devem avaliar-se cautelosamente. Por exemplo, disse aos Romanos: "Permiti-me ser pasto das feras, pelas quais me é dado alcançar Deus. Trigo sou de Deus, e pelos dentes das feras hei-de ser moído, a fim de ser apresentado como limpo pão de Cristo" (Romanos 4:1).

Também apresenta um ponto de vista do episcopado que não se encontra no Novo Testamento mas que ao que parece se desenvolveu cedo.

Na carta aos tralianos, citada mais abaixo, chama à fé, a carne de Cristo, e ao amor, o seu sangue.

As citações são da edição de Ruiz Bueno.

Efésios 13:1.

Portanto, empenhai-vos em reunir-vos com mais frequência para celebrar a Eucaristia de Deus e tributar-lhe glória. Porque, quando apertadamente vos congregais num, se derrubam as fortalezas de Satanás e pela concórdia da vossa fé se destrói a ruína que ele vos procura.

Efésios 20:2.

Se vos congregardes, repito, para mostrar a vossa obediência ao bispo e ao colégio de anciãos com indivisível pensamento, partindo um só pão, que é remédio de imortalidade, antídoto contra a morte e alimento para viver para sempre em Jesus Cristo.

Tralianos 8:1.

... Assim, pois, revestidos de mansidão, convertei-vos em novas criaturas pela fé, que é a carne do Senhor, e pela caridade, que é o sangue de Jesus Cristo.

Romanos 7:3.

Não sinto prazer pela comida corruptível nem me atraem os deleites desta vida. O pão de Deus quero, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de David; o seu sangue quero por bebida, que é amor incorruptível.

Filadelfos 4:1.

Ponde, pois, todo o afinco em usar de uma só Eucaristia, pois uma só é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para unir-nos com o seu sangue; um só altar, assim como não há mais do que um só bispo, juntamente com o colégio de anciãos e com os diáconos, conservos meus. Desta maneira, tudo quanto fizerdes, o fareis segundo Deus.

Esmirniotas 7.

(1) [os que professam doutrinas alheias à graça de Jesus Cristo] Afastam-se também da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo, a mesma que padeceu por nossos pecados, a mesma que, por sua bondade, ressuscitou-a o Pai. Assim, pois, os que contradizem o dom de Deus, morrem e perecem entre as suas disquisições. Quanto melhor lhes fora celebrar a Eucaristia, a fim de que ressuscitassem!
(2) Convém, portanto, afastar-se de tais gentes, e nem privada nem publicamente falar deles, mas prestar toda a atenção aos profetas, e especialmente ao Evangelho, no qual a paixão se nos faz patente e vemos cumprida a ressurreição. Mas fugi de toda a cisão, como princípio de males.
8. (1)... Só aquela Eucaristia que se celebre pelo bispo ou por quem dele tenha autorização há-de ter-se por válida.
(2) ... Sem contar com o bispo, não é lícito baptizar nem celebrar a Eucaristia ...

Justino Mártir

De origem palestina, filho de pais pagãos, Justino foi um dos grandes defensores da fé cristã do segundo século. Fundou uma escola em Roma, onde morreu mártir em 165.

Nos seus escritos encontram-se várias referências à Eucaristia, como era praticada e qual era o seu significado. O pão e o vinho, que são capazes de nutrir o corpo, nutrem também as almas ao ser consagrados pela acção de graças. É precisamente esta acção de graças o que constitui um sacrifício agradável a Deus (Diálogo com Trifão, 117).

Cito da edição de Padres Apologetas Gregos de Ruiz Bueno.

Apologia I

65. (2) Terminadas as orações, damos mutuamente o ósculo da paz.
(3) Depois, ao que preside aos irmãos, se lhe oferece pão e um vaso de água e vinho, e tomando-os ele tributa louvores e glória ao Pai do universo pelo nome de seu Filho e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma longa acção de graças, por ter-nos concedido esses dons que d`Ele nos vêm. E quando o presidente terminou as orações e a acção de graças, todo o povo presente aclama dizendo: Amén.
(4) "Amén", em hebraico, quer dizer "assim seja".
(5) E quando o presidente deu graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam "ministros" ou diáconos, dão a cada um dos assistentes parte do pão e do vinho e da água sobre que se disse a acção de graças e o levam aos ausentes.

66. (1) E este alimento se chama entre nós "Eucaristia", da qual a ninguém lhe é lícito participar, senão ao que crê verdadeiramente nos nossos ensinamentos e se lavou no banho que dá a remissão dos pecados e a regeneração, e vive conforme o que Cristo nos ensinou.
(2) Porque não tomamos estas coisas como pão comum nem bebida ordinária, mas como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por virtude do Verbo de Deus, teve carne e sangue para a nossa salvação; assim foi-nos ensinado que por virtude da oração ao Verbo que de Deus procede, o alimento sobre que foi dita a acção de graças – alimento do qual, por transformação, se nutrem o nosso sangue e as nossas carnes - é a carne e o sangue d`Aquele mesmo Jesus encarnado.
(3) E é assim que os Apóstolos nas Memórias, por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi a eles mandado, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: Fazei isto em minha memória, este é o meu corpo. E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: Este é o meu sangue, e que só a eles deu parte.

67. (3) No dia que se chama do sol se celebra uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se lêem, quando o tempo o permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas.
(4) Depois, quando o leitor termina, o presidente, de palavra, faz uma exortação e um convite a que imitemos estes belos exemplos.
(5) Seguidamente, nos levantamos todos juntos e elevamos as nossas preces, e estas terminadas, como já dissemos, se oferece pão e vinho e água, e o presidente, segundo as suas forças, faz igualmente subir a Deus as suas preces e acções de graças e todo o povo exclama dizendo "amén". A seguir vem a distribuição e participação, que se faz a cada um, dos alimentos consagrados pela acção de graças e o seu envio por meio dos diáconos aos ausentes.

Diálogo com Trifão

41. (1) A oferta da flor de farinha, senhores – prossegui - que se mandava fazer pelos que se purificavam da lepra, era figura do pão da Eucaristia que nosso Senhor Jesus Cristo mandou oferecer em memória da paixão que ele padeceu por todos os homens que purificam as suas almas de toda a maldade, a fim de que juntamente demos graças a Deus por ter criado o mundo e quanto nele há por amor do homem, por ter-nos livrado da maldade em que nascemos e ter destruído com destruição completa os principados e potestades daquele que, segundo o seu desígnio, nasceu passível.
(2) Daí que sobre os sacrifícios que vós então oferecíeis, diz Deus, por boca de Malaquias, um dos doze profetas: Não está a minha complacência em vós – diz o Senhor -, e os vossos sacrifícios não os quero receber das vossas mãos. Porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo o lugar se oferece ao meu nome incenso e sacrifício puro. Porque grande é o meu nome nas nações – diz o Senhor -, e vós o profanais [Malaquias 1:10-12].
(3) Já então, antecipadamente, fala dos sacrifícios que nós, as nações, lhe oferecemos em todo o lugar, ou seja, do pão da Eucaristia e também do cálice da Eucaristia, ao mesmo tempo que diz que nós glorificamos seu nome e vós o profanais.

117. (1) Assim, pois, Deus atesta de antemão que lhe são agradáveis todos os sacrifícios que se lhe oferecem pelo nome de Jesus Cristo, os sacrifícios que este nos mandou oferecer, ou seja, os da Eucaristia do pão e do vinho, que celebram os cristãos em todo o lugar da terra. Em contrapartida, Deus rejeita os sacrifícios que vós lhe ofereceis por meio dos vossos sacerdotes, quando diz: E não receberei das vossas mãos os vossos sacrifícios, porque desde o nascimento do sol até ao seu ocaso, o meu nome é glorificado – diz - nas nações e vós o profanais.
(2) Vós continuais ainda a dizer persistentemente que Deus diz não receber os sacrifícios que se lhe ofereciam em Jerusalém pelos israelitas que naquele tempo a habitavam; e sim as orações que lhe faziam os homens daquele povo que se encontravam na dispersão, e estas orações são as que chama sacrifícios. Ora, que as orações e acções de graças feitas por homens dignos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus, eu mesmo vo-lo concedo.
(3) Justamente são só esses os que os cristãos aprenderam a oferecer até na consagração do pão e do vinho, em que se recorda a Paixão que por seu amor sofreu o Filho de Deus...
(5) Em contrapartida, não há raça alguma de homens, chamem-se bárbaros ou gregos ou com outros nomes quaisquer, ora habitem em casas ou se chamem nómadas sem habitações ou morem em tendas de pastores, entre os quais não se ofereçam pelo nome de Jesus crucificado orações e acções de graças ao Pai e fazedor de todas as coisas.

Ireneu de Lyon

De origem asiática, Ireneu (c. 140- c. 202) foi bispo de Lyon nas Gálias. Escreveu uma "Refutação da falsa gnose" mais conhecida como "Contra as Heresias." Nos livros 4 e 5, ao tratar dos sacrifícios e da ressurreição corporal, refere-se à Eucaristia. Usa o facto de que a acção do Senhor em oferecer elementos materiais é prova de que os nossos corpos hão-de ser redimidos, ressuscitando incorruptíveis.

Adversus Haereses

4.17. (4) De todos estes é evidente que Deus não buscava sacrifícios e holocaustos deles [dos crentes do Antigo Pacto], mas fé, e obediência, e rectidão, por causa da sua salvação. Como Deus, ao ensinar-lhes a sua vontade em Oseias o profeta, disse: "Desejo misericórdia e não sacrifícios, e o conhecimento de Deus em vez de holocaustos" [Oseias 6:6]. Além disso, nosso Senhor também os exortou com o mesmo fim quando disse: "Se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifícios, não condenaríeis o inocente" [Mateus 12:7]. Assim Ele dá testemunho aos profetas, que eles pregaram a verdade; mas acusa estes homens (seus ouvintes) de ser néscios por causa das faltas deles.
(5) De novo, dando instruções aos seus discípulos para oferecer a Deus as primícias das suas próprias coisas criadas – não como se ele tivesse necessidade delas, mas para que eles mesmos não fossem infrutuosos nem ingratos -, ele tomou aquela coisa criada, pão, e deu graças, e disse: "Este é o meu corpo." E do mesmo modo o cálice, que é parte da criação a que pertencemos, ele confessou ser o seu sangue, e ensinou a nova oblação do novo pacto; a qual a Igreja, tendo-a recebido dos Apóstolos, oferece a Deus em todo o mundo, Àquele que nos dá como meios de subsistência as primícias dos seus próprios dons no Novo Testamento, respeitante ao qual Malaquias, entre os doze profetas, assim falou de antemão: "Não tenho prazer em vós, disse o Senhor omnipotente, e não aceitarei sacrifício das vossas mãos. Pois desde o nascimento do sol até ao ocaso, o meu nome é glorificado entre os gentios, e em cada lugar incenso é oferecido ao meu nome, e um sacrifício puro; pois grande é o meu nome entre os gentios, disse o Senhor omnipotente"; indicando do modo mais claro, por estas palavras, que o povo anterior [os judeus] cessará certamente de fazer ofertas a Deus, mas que em todo o lugar se lhe oferecerá sacrifício, e um puro; e que o seu nome é glorificado entre os gentios.
(6) Mas que outro nome há que seja glorificado entre os gentios senão aquele de nosso Senhor, por quem o Pai é glorificado, e o homem também? E porque é [o nome] de seu próprio Filho, que foi feito homem por Ele, ele o chama como seu próprio ... Uma vez que, portanto, o nome do Filho pertence ao Pai, e uma vez que no Deus omnipotente a Igreja faz ofertas através de Jesus Cristo, Ele diz bem sobre ambos estes aspectos: "E em cada lugar se oferece incenso ao meu nome, e um sacrifício puro." Ora João, no Apocalipse, declara que o "incenso" são "as orações dos santos".

4.18. (1) A oblação da Igreja, portanto, a qual o Senhor deu instruções que fosse oferecida em todo o mundo, conta como um sacrifício puro para Deus, e lhe é aceitável; não que Ele necessite de um nosso sacrifício, mas quem o oferece é ele mesmo glorificado no que oferece, se o seu dom é aceite. Pois pelo dom se demonstra tanto honra como afecto para com o Rei; e o Senhor, desejando que o oferecêssemos em toda a simplicidade e inocência, se expressou assim: "Portanto, quando ofereceres o teu dom sobre o altar, e te lembrares que o teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, e depois volta para oferecer o teu dom." [Mateus 5: 23-24]. Estamos obrigados, pois, a oferecer a Deus as primícias da sua criação, como também diz Moisés: "Não comparecerás na presença do Senhor teu Deus com as mãos vazias" [Deuteronómio 16:16]; de modo que o homem, sendo contado como agradecido, possa receber a honra que flui d`Ele.
(2) E o tipo das oblações em geral não foi deixado de lado; pois há oblações aí [entre os judeus] e aqui [entre os cristãos]. Sacrifícios houve entre o povo; sacrifícios há, também, na Igreja; mas só a espécie foi mudada, na medida em que a oferta agora não é feita por escravos, mas por homens livres. Pois o Senhor é um e sempre o mesmo; mas o carácter de uma oblação servil é peculiar, como o é também o da dos homens livres, para que, pelas próprias oblações, possa manifestar-se a liberdade. Pois com Ele não há nada sem propósito, nem carente de significado, nem sem desígnio...
(3) ... Os sacrifícios, portanto, não santificam o homem, porque Deus não necessita de sacrifício; mas é a consciência do ofertante que santifica o sacrifício quando é pura, e assim move Deus a aceitá-lo como de um amigo. "Mas o pecador", diz Ele, "que mata um bezerro para mim, é como se matasse um cão." [Isaías 66:3].
(4) Na medida, então, em que a Igreja oferece unanimemente, o seu dom é justamente reconhecido como um sacrifício puro para com Deus. Como também o diz Paulo aos filipenses: "Estou cheio, tendo recebido de Epafrodito as coisas que enviastes, o cheiro de uma doce fragrância, um sacrifício aceitável, que compraz a Deus." [Filipenses 4:18]. Pois devemos fazer uma oblação a Deus, e em todas as coisas ser achados agradecidos para com Deus nosso fazedor, em uma mente pura, e em fé sem hipocrisia, em esperança bem fundada, em amor fervoroso, oferecendo as primícias das suas próprias coisas criadas. E só a Igreja oferece esta pura oblação ao Criador, oferecendo-lhe a Ele, com acção de graças, da sua criação. Mas os judeus não oferecem assim ... Nem nenhuma das sinagogas dos hereges ... Como podem ser coerentes consigo mesmos, [ao dizer] que o pão sobre o qual se deu graças é o corpo do Senhor, e o cálice o seu sangue, se não o reconhecem a ele mesmo como o Filho do Criador do universo, isto é, o seu Verbo, através de quem a floresta frutifica, e as fontes fluem, e a terra dá "primeiro o talo, depois a espiga, e depois o grão cheio na espiga" [Marcos 4:28]?
(5) De novo, como podem dizer que a carne, a qual é nutrida com o corpo do Senhor e com o seu sangue, vai para a corrupção e não participa na vida? Que, portanto, modifiquem a sua opinião ou cessem de oferecer as coisas recém-mencionadas. Mas a nossa opinião é concordante com a Eucaristia, e por sua vez a Eucaristia estabelece a nossa opinião. Pois lhe oferecemos o que é d`Ele, anunciando consistentemente a fraternidade e união da carne e do espírito. Porque como o pão, o qual se produz da terra, quando recebe a invocação de Deus, não é mais pão comum, mas a Eucaristia, que consiste em duas realidades, terrenal e celestial, do mesmo modo os nossos corpos, quando recebem a Eucaristia, já não são corruptíveis, tendo a esperança da ressurreição para a eternidade.

5.1. (3) Vãos são também os ebionitas, que não recebem por fé em suas almas a união de Deus e homem, mas permanecem no velho fermento do nascimento [natural], e não querem entender que o Espírito Santo veio sobre Maria, e que o poder do Altíssimo a cobriu; donde o que foi gerado é santo, e o Filho do Altíssimo, Pai de todos, que efectuou a encarnação deste ser, mostrou uma nova [espécie de] geração; para que assim como pela geração anterior recebemos a morte, assim também por esta nova geração possamos herdar a vida. Portanto, estes homens rejeitam a mistura de vinho celestial, e desejam que apenas seja água do mundo, não recebendo Deus de modo a ter união com Ele, mas permanecem naquele Adão que tinha sido conquistado e foi expulso do Paraíso. Não considerando que, tendo sido unido ao que tinha sido formado, animava o homem, e o manifestou como um ser dotado de razão; de modo que no fim, o Verbo do Pai e o Espírito de Deus, tendo-se tornado unidos com a antiga substância da formação de Adão, tornaram o homem vivo e perfeito, receptivo ao perfeito Pai, para que assim como no natural todos estávamos mortos, no espiritual todos sejamos vivificados [cf. 1 Coríntios 15:22]...

5.2. (2) Mas vãos em todos os sentidos são os que rejeitam a inteira economia de Deus, e negam a salvação da carne, e tratam com desprezo a sua regeneração, sustentando que não é capaz de incorrupção. Mas se esta verdadeiramente não alcança a salvação, então nem o Senhor nos redimiu com o seu sangue, nem é o cálice da Eucaristia a comunhão do seu sangue, nem o pão que partimos a comunhão do seu corpo. Pois o sangue somente pode provir das veias e da carne, e de tudo o mais que constitui a substância do homem, como foi realmente feito o Verbo de Deus. Por seu próprio sangue nos redimiu, como também o seu apóstolo declara: "Em quem temos redenção por meio do seu sangue, a remissão dos pecados." [Colossenses 1:14]. E assim como somos seus membros, também somos nutridos por meio da criação (e Ele mesmo nos concede a criação, pois causa que o sol nasça, e envia a chuva conforme a sua vontade). Ele reconheceu o cálice, que é uma parte da criação, como seu próprio sangue, do qual Ele humedece o nosso sangue: e o pão (também uma parte da criação) Ele o estabeleceu como seu próprio corpo, do qual Ele dá crescimento aos nossos corpos.
(3) Quando, portanto, o cálice misturado e o pão manufacturado recebe o Verbo de Deus, e se faz a Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, de cujas coisas a substância da nossa carne é nutrida e fortalecida, como podem afirmar que a carne é incapaz de receber o dom de Deus, que é vida eterna, se é nutrida do corpo e sangue do Senhor, e é um membro d`Ele? – como também o declara o bendito Paulo na sua epístola aos efésios, que "somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos" [Efésios 5:30]. Ele não fala estas palavras acerca de algum homem espiritual e invisível, pois um espírito não tem ossos nem carne; mas da economia [pela qual] um homem real, que consiste de carne, e nervos, e ossos – aquela [carne] que é nutrida pelo cálice que é o seu sangue, e recebe alimento do pão que é o seu corpo. E do mesmo modo em que o ramo da vinha plantada na terra frutifica na sua estação, ou como um grão de trigo que cai em terra e se decompõe nasce com um múltiplo aumento pelo Espírito de Deus, que contém todas as coisas, e então, através da sabedoria de Deus, serve para o uso dos homens, e tendo recebido o Verbo de Deus, se torna a Eucaristia, a qual é o corpo e o sangue de Cristo; de igual modo os nossos corpos, sendo nutridos por ela, e depositados na terra, e sofrendo aí decomposição, surgirão a seu devido tempo, concedendo-lhes ressurreição o Verbo de Deus para a glória de Deus Pai, que livremente dá imortalidade a isto mortal, e a isto corruptível, incorrupção, pois a força de Deus se faz perfeita na fraqueza, para que nunca nos envaideçamos, como se tivéssemos vida por nós mesmos, e nos exaltemos contra Deus, tornando-se ingratas as nossas mentes; mas aprendendo por experiência que possuímos duração eterna do poder insuperável deste ser, não por nossa própria natureza, nem subestimemos a glória que rodeia a Deus tal como Ele é, nem sejamos ignorantes da nossa própria natureza, mas conheçamos o que Deus pode fazer, e que benefícios recebe o homem, e assim nunca nos extraviemos da verdadeira compreensão de como são as coisas, isto é, tanto em relação a Deus como em relação ao homem. E não poderá ser, quiçá, como já observei, que com este propósito Deus permitiu a nossa dissolução no pó comum da mortalidade, para que, sendo nós instruídos em todas as maneiras, possamos ser precisos em todas as coisas para o futuro, não sendo ignorantes nem de Deus nem de nós?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A eleição dos bispos romanos


Se um cidadão romano dos primeiros séculos da era cristã, ressuscitado, assistisse no Vaticano, em Junho de 1963, à eleição e coroação de Paulo VI — ou à de qualquer outro Pontífice moderno —, não entenderia nada do que tais cerimónias e práticas da Roma papal significam.

Certa apologética católica serve-se, com não pouco êxito, do que poderíamos chamar uma grande «ilusão de perspectiva histórica», consistente em fazer crer que a Igreja romana foi, e continua sempre a mesma desde o primeiro século até aos nossos dias. Como se tudo o que crê e pratica, salvo certas ninharias de detalhe e forma, remontasse basicamente até ao próprio São Pedro. Deste modo, o Catolicismo romano pretende dar a impressão de que o bispo de Roma foi sempre não só bispo de uma «diocese» (como qualquer outro bispo católico), mas Cabeça visível da Igreja universal e Pontífice, «bispo dos bispos de todo o orbe», na sua qualidade de suposto Vigário de Cristo. Assim, se tenta fazer crer que as tradições romanas remontam à antiguidade apostólica e são, portanto, garantia de verdade e de autêntica Igreja.

Mas esta ilusão, esta errónea perspectiva histórica do que foi a vida da Igreja em geral, e da igreja de Roma em particular, não resiste à mais leve investigação científica. O historiador sabe que Roma, longe de ser sempre a mesma, mudou constantemente e que as doutrinas e práticas papais (bastante tardias, por sinal) foram algo completamente ignorado durante muitos séculos do cristianismo antigo. A nomeação de cada novo papa converte o tema em algo actual. E constantemente, por infelicidade, tem que se comprovar a mesma ignorância da história em multidões de pessoas, e publicações, que apresentam o recém-estreado Pontífice como o sucessor de uma cadeia sem elos quebrados, que remonta até ao primeiro século.

No entanto, um estudo imparcial dos dados históricos ao nosso alcance, produz — ainda que seja brevemente e quase em esboço — o seguinte quadro geral de factos irrefutáveis:

1) Na eleição dos antigos bispos romanos não intervinham cardeais. E isso, pela simples razão, de que a dignidade cardinalícia não existia ainda sequer. O ofício de «cardeal» só foi introduzido na Igreja romana cerca de mil anos depois da fundação da Igreja cristã (1). Claro, também não há nenhuma base bíblica para o ministério cardinalício. O Novo Testamento ignora completamente — e com ele os primeiros séculos da Igreja —, o cargo de cardeal.

2) Na eleição dos antigos bispos romanos também não intervinha nenhuma representação da Igreja universal. Os eleitores nunca pretenderam tal representação, à diferença dos padres componentes dos grandes concílios ecuménicos dos primeiros mil anos (cujos concílios, por outro lado foram totalmente independentes em relação à sede romana, a qual não era mais que uma importante sede, entre outras, da Cristandade). A eleição de bispo em Roma tinha que ver com tal cidade e não com a totalidade da Igreja universal. Pela razão simples de que o prelado titular de tal sede era o bispo de Roma. Nada mais. Séculos mais tarde passaria a ser «o primeiro (porém) entre iguais».

3) Os bispos romanos eram eleitos exactamente da mesma forma que os demais bispos da antiga Igreja, ou seja: com participação do povo fiel da cidade (laicos) e o «clero» da mesma.

Destes três pontos se depreende que os bispos da Igreja romana, nos primeiros séculos, não eram mais do que os outros bispos das restantes cidades da Cristandade. A hegemonia papal, pela qual o bispo de Roma se colocou acima dos demais prelados, é fruto de uma evolução histórica produzida por uma longa e complicada combinação de interesses eclesiásticos, sociais e políticos, mas sem base bíblica. O grande historiador J. I. Dollinger escreveu:

«Temos escritos e afirmações referentes à hierarquia eclesiástica na Igreja e em nenhum destes escritos daqueles primeiros séculos aparece a dignidade papal, nem se menciona nada parecido que pudesse existir na Igreja. Nos escritos do Pseudo-Dionísio Areopagita, compostos em finais do século V, e relacionados com a hierarquia, menciona-se somente bispos, presbíteros e diáconos. Igualmente, Isidoro de Sevilha, o famoso teólogo espanhol, no ano 631 menciona todos os graus eclesiásticos existentes naquele tempo e os divide em quatro grupos: patriarcas, arcebispos, metropolitanos e bispos. Graciano, canonista italiano do século XII, incorporou esta lista na sua célebre obra titulada «Decretos», ou seja, 500 anos mais tarde que Isidoro de Sevilha, e deve lhe ter chamado poderosamente à atenção que o ofício de Papa não estivesse incluído. Ainda Beato, abade espanhol, proporciona a mesma lista de Isidoro de Sevilha no ano 789. Beato também não sabe nada de uma dignidade mais elevada na Igreja que a de patriarca» (2).

A pergunta surge espontânea: Onde estava o papa na Igreja antiga? A esta pergunta, a história responde nos seguintes termos: Ao princípio, chamava-se papa (ou seja: pai) a todos os bispos por igual. E depois, até aos próprios presbíteros de aldeia. A partir do século VI foi quando começou a usar-se, de maneira restrita, para designar particularmente o bispo de Roma. E, finalmente, Gregório VII, em 1076, o exigiu exclusivamente para ele e seus sucessores, acrescentando-lhe o prefixo de «Santo».

A palavra «papa» é de origem grega, não latina. E foi em Alexandria, não em Roma, onde primeiramente se chamou «pope» (ou seja: papa) ao bispo. No Oriente, tal nome serve hoje para designar todos os sacerdotes («popes») (3).

José Grau

Notas

(1) Ignaz von Dollinger, The Pope and the council, III, V. pp. 206 e ss.

(2)  Ibid. No Novo   Testamento,  quando    o   apóstolo   Paulo    enumera    os   ministérios da Igreja cristã, também não faz menção do Papado (1  Coríntios 12:28; Efésios 4:11), Esquecimento imperdoável se o papa é realmente a pedra angular do edifício eclesiástico.

(3) Stanley, "History of the Eastern Church", lec. 7. p.216 e ss.; Farrar "Lives" Vol. I p. 370.Cf. nota num. 50. p. 294, ad supra.
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