terça-feira, 30 de março de 2010

Autoridade suprema das Escrituras nos Padres primitivos


OS PADRES PRIMITIVOS E AS ESCRITURAS

Justino Mártir (m. ca. 165)

Diálogo com Trifão 85:5

É uma coisa ridícula ... que quem funda o seu discurso nas Escrituras proféticas deva abandoná-las e abster-se de referir constantemente as mesmas Escrituras, por pensar que ele próprio pode prover algo melhor do que a Escritura.


Diálogo com Trifão 86:2-3

Ele disse que via uma escada, e a Escritura declara que Deus se erguia sobre ela. Mas que este não era o Pai, o demonstrámos pelas Escrituras... E que a rocha simbolicamente proclamava Cristo, o demonstrámos também por muitas Escrituras...


Ireneu (m. ca 203)

Adversus Haereses II, 28:7

Mas não erraremos se afirmarmos a mesma coisa também a respeito da substância da matéria, que Deus a produziu. Pois aprendemos das Escrituras que Deus tem a supremacia sobre todas as coisas. Mas de onde ou de que forma Ele a produziu, a Escritura não o declarou em lado nenhum; e não nos compete conjecturar, de modo que, segundo as nossas próprias opiniões, formemos conjecturas intermináveis acerca de Deus, mas deixemos tal conhecimento nas mãos do próprio Deus.


Que o fogo eterno está preparado para os pecadores, o declarou claramente o Senhor, e o demonstram o resto das Escrituras. E que Deus conheceu de antemão que isto haveria de ocorrer, as Escrituras também o demonstram, já que Ele preparou o fogo eterno desde o princípio para aqueles que haveriam de transgredir; mas a própria causa da natureza de tais transgressores não nos é dada a conhecer por nenhuma Escritura, nem nenhum Apóstolo no-la disse, nem o Senhor no-la ensinou. Compete-nos, por conseguinte, deixar o conhecimento deste assunto a Deus.

Adv Haer II, 35, 4

Mas para que não se pense que evito aquela série de provas que podem derivar-se das Escrituras do Senhor (já que, de facto, estas Escrituras proclamam este mesmo ponto muito mais evidente e claramente), em benefício pelo menos daqueles que não carregam com uma mente depravada, dedicarei um livro especial às Escrituras referidas, que as seguirá adequadamente, e fornecerei com a clareza destas divinas Escrituras provas para todos os amantes da verdade.


Adv Haer III, 1:1

Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé.

Adv Haer III, 12,12

A ignorância das Escrituras e da dispensação de Deus trouxe todas estas coisas sobre eles.

Adv Haer III, 19, 2

Pois tenho mostrado pelas Escrituras que nenhum dos filhos de Adão é jamais e absolutamente chamado Deus, ou nomeado Senhor. Mas que Ele é por direito próprio, acima de todos os homens que já viveram, Deus, e Senhor, e Rei eterno, e o Verbo encarnado, proclamado por todos os profetas, pelos apóstolos, e pelo próprio Espírito, pode ser visto por todos quantos alcançaram pelo menos uma pequena parte da verdade. Ora, as Escrituras não teriam testificado estas coisas d`Ele se, como outros, tivesse sido um mero homem. Mas Ele tinha, para lá de todos os outros, em Si mesmo aquele nascimento preeminente que é do Altíssimo Pai, e também experimentou a geração preeminente que é da Virgem, de ambas as coisas as Escrituras divinas testificam.


Adv Haer IV, 26, 1

Se qualquer um, portanto, ler as Escrituras com atenção, encontrará nelas um relato de Cristo, e um preanuncio da nova vocação. Pois Cristo é o tesouro oculto no campo, isto é, neste mundo (pois "o campo é o mundo"); mas o tesouro oculto nas Escrituras é Cristo, já que Ele foi indicado por meio de tipos e parábolas.

Adv Haer V, 20,2

Convém-nos, portanto, evitar as suas doutrinas, e prestar cuidadosa atenção, não seja que soframos algum dano por elas; e fugir para a Igreja, e ser criados em seu seio, e ser nutridos com as Escrituras do Senhor.


Clemente de Alexandria (ca. 150-215)

Stromata, 7:16

Mas aqueles que estão preparados para trabalhar nas mais excelentes actividades, não desistirão da busca da verdade, até chegarem à demonstração a partir das próprias Escrituras.

Hipólito de Roma (ca. 170-235)

Contra Noécio, 14

Pois o Pai dispôs, o Filho fez, o Espírito manifestou. As Escrituras todas, então, proclamam esta verdade.

Fragmentos de Hipólito (em Eusébio, Hist Eccl V, 28, 4-6, 13-5, 18)


O dito poderia ser convincente se em primeiro lugar as divinas Escrituras não o contradissessem. E também há obras de alguns irmãos anteriores aos tempos de Vítor, obras que eles escreveram contra os pagãos e contra as heresias de então em defesa da verdade. Refiro-me às de Justino, Milcíades, Taciano, Clemente e muitos outros, todas obras em que atribuem a divindade a Cristo. Porque quem desconhece os livros de Ireneu, de Melitão e os restantes, livros que proclamam Cristo Deus e homem? E os muitos salmos e cânticos escritos desde o princípio pelos irmãos crentes que cantam hinos ao Verbo de Deus, ao Cristo, atribuindo-lhe a divindade? Como, pois, estando declarado o pensamento da Igreja desde há tantos anos pode-se admitir que os anteriores a Vítor o tenham proclamado no sentido que dizem estes?...

Adulteraram sem escrúpulo as divinas Escrituras e violaram a regra da fé primitiva; e desconheceram Cristo por não investigar o que dizem as divinas Escrituras... Deixaram as santas Escrituras de Deus e se ocupam de geometria ...
Mas os que se aproveitaram das artes dos infiéis para o desígnio da sua própria heresia e com a manha dos ímpios falsificaram a fé simples das divinas Escrituras, que necessidade há de dizer que
já não estão perto da fé? Por esta causa puseram as suas mãos sem escrúpulo sobre as divinas Escrituras, dizendo que as tinham corrigido.


Do atrevimento deste pecado, não é provável que eles o ignorem, porque, ou não crêem que as divinas Escrituras foram ditadas pelo Espírito Santo, e neste caso são incrédulos, ou então acham que são mais sábios do que o Espírito Santo...

Novaciano (Século III)

Tratado sobre a Trindade, 12

Por que, então, haveremos de hesitar em dizer o que a Escritura não se acobarda em declarar? Por que iria a verdade da fé hesitar naquilo em que a autoridade da Escritura nunca hesitou?


Ibid., 18
E os hereges devem entender que se estão colocando a si mesmos contra as Escrituras em que, enquanto dizem crer que Cristo foi também um anjo, não estão dispostos a declarar ter sido também Deus, quando lêem no Antigo Testamento que Ele frequentemente veio visitar a raça humana.

Pois se o próprio João diz, que Aquele que está no seio do Pai, como o Verbo, se fez carne para declarar o seio do Pai, certamente Cristo não é só um homem, mas também um anjo; e não só um anjo, mas as Escrituras demonstram que também é Deus.


Tertuliano (155-222)

Contra Práxeas, 11

Será, porém, vossa obrigação aduzir as vossas provas a partir das Escrituras tão claramente como nós o fazemos quando provamos que Ele fez do seu Verbo um Filho para Si.

Orígenes (185-254)

2, Sobre a unidade e harmonia das Escrituras

"Bem-aventurados os pacificadores...." para o homem que é um pacificador em qualquer dos dois sentidos não há nos divinos oráculos nada torto ou perverso, pois eles são todos simples para os que entendem. E porque para um tal não há nada torto ou perverso, ele vê abundância de paz em todas as Escrituras, inclusive naquelas que parecem estar em conflito e em contradição umas com outras. E da mesma forma se torna um terceiro pacificador enquanto demonstra que aquilo que a outros lhes parece um conflito nas Escrituras não é tal, e exibe a concórdia e a paz delas, seja das Antigas Escrituras com as Novas, seja da Lei com os Profetas, ou dos Evangelhos com as Escrituras Apostólicas, ou das Escrituras Apostólicas entre si.


... quem vem instruído na música de Deus, sendo um homem sábio em palavra e obras, como outro David...apresentará o som da música de Deus, tendo aprendido deste a pulsar as cordas no tempo correcto, ora as cordas da Lei, ora as cordas do Evangelho em harmonia com elas, e novamente as cordas Proféticas e, quando a razão o exige, as cordas Apostólicas que estão em harmonia com as Proféticas, e de igual modo as Apostólicas com aquelas dos Evangelhos. Pois ele sabe que toda a Escritura é um instrumento de Deus perfeito e harmonizado, o qual a partir de diversos sons liberta uma voz de salvação para aqueles dispostos a aprender, que detém e restringe toda a obra de um mau espírito, tal como a música de David punha a repousar o espírito mau em Saul, o qual também o estava sufocando. Vemos, então, que ele é em terceiro lugar um pacificador, que vê de acordo com a Escritura a paz de toda ela, e implanta esta paz naqueles que buscam correctamente e fazem distinções adequadas num espírito genuíno.

De Principii, 4

Não observo que seja grandemente confirmado pela autoridade da sagrada Escritura; ao passo que, em relação aos restantes dois, se encontra um considerável número de passagens nas sagradas Escrituras que parecem passíveis de ser-lhes aplicados.

De Principii 4,1,9


Ora, a razão da apreensão errónea de todos estes pontos por parte daqueles que mencionei acima não é outra senão esta: que a santa Escritura não é entendida por eles segundo o seu significado espiritual, mas literal. E portanto nos esforçaremos ... em assinalar aos que crêem que as sagradas Escrituras não são composições humanas, mas escritas por inspiração do Espírito Santo, e transmitidas a nós pela vontade do Pai, através do seu Filho unigénito Jesus Cristo, o que nos parece a nós ... ser a norma e disciplina entregue aos Apóstolos por Cristo Jesus, a qual eles transmitiram em sucessão à sua posteridade, aos mestres da Santa Igreja.

De Principii 4:15

Ora, tudo isto, como sublinhámos, foi feito pelo Espírito Santo para que, vendo que aqueles eventos que jazem na superfície não podem ser nem verdadeiros nem úteis, possamos ser guiados à investigação daquela verdade que está oculta mais profundamente, e à afirmação de um significado digno de Deus naquelas Escrituras que cremos inspiradas por Ele.

De Principii 4:16

O Espírito Santo, porém, não cuidou apenas, desta forma, as Escrituras compostas até ao advento de Cristo; mas sendo um e o mesmo Espírito, e procedendo de um mesmo Deus, procedeu de igual modo com os evangelistas e apóstolos.

Contra Celso III, 33

Ao passo que a divindade de Jesus é estabelecida tanto pela existência das Igrejas dos salvos, como pelas profecias expressas concernentes a Ele, e pelas curas produzidas em Seu nome, e pela sabedoria e conhecimento que há n`Ele, e as verdades mais profundas que são descobertas por aqueles que sabem como ascender de uma fé simples, e investigar o significado que subjaz nas Escrituras divinas, conforme as admoestações de Jesus, que disse «Esquadrinhai as Escrituras» e o desejo de Paulo, que ensinou que «devemos saber como responder a todo o homem», sim, e também de quem disse «estai sempre preparados para dar um resposta a todo aquele que vos pedir a razão da fé que há em vós.»


Atanásio (c. 296–373)

Contra os Gentios, 1:3  

As sagradas e inspiradas Escrituras são totalmente suficientes para a proclamação da verdade.

Cirilo de Jerusalém (313-386)

Leituras Catequéticas, 4:17
A respeito dos divinos e sagrados mistérios da Fé, nem mesmo uma afirmação ocasional deve ser feita sem as Sagradas Escrituras; nem devemos ser desviados por mera plausibilidade e artifícios de linguagem. Mesmo a mim, que vos digo estas coisas, não deis absoluto crédito, a menos que recebais a prova das coisas que eu anuncio das Divinas Escrituras. Pois esta salvação em que nós acreditamos não depende de raciocínios engenhosos, mas da demonstração das Sagradas Escrituras. 
Basílio de Cesareia [o Grande; 329-379]

NPNF, 2nd Series, Prolegomena, 2. Works, 3. Ascetic, iii

Devemos examinar cuidadosamente até que ponto a doutrina que nos é oferecida é conforme a Escritura, e em caso contrário, rejeitá-la. Nada deve acrescentar-se às palavras inspiradas de Deus; tudo quanto está fora da Escritura não é de fé, mas é pecado.

Sobre o Espírito Santo, 7.16

Nós não estamos satisfeitos simplesmente porque isto é a tradição dos Padres. O que é importante é que os Padres
seguiram o significado da Escritura.

Gregório de Nissa (ca 335-394)

Tratado Dogmático sobre a Fé

E pode-se achar multidões de outras provas das Escrituras de que todos os atributos supremos e divinos que são aplicados pelas Escrituras ao Pai e ao Filho contemplam-se igualmente no Espírito Santo... o Espírito Santo não é chamado o Pai, ou o Filho; mas todos os outros nomes pelos quais o Pai e o Filho são nomeados são aplicados pela Escritura também ao Espírito Santo.

Da alma e da ressurreição

"Não nos está permitido afirmar o que nos aprouver. A Sagrada Escritura é, para nós, a norma e a medida de todos os dogmas. Aprovamos somente aquilo que podemos harmonizar com a intenção destes escritos."; "há algo mais confiável que qualquer destas conclusões artificiais, a saber, o que assinalam os ensinamentos da Sagrada Escritura; e assim eu considero necessário averiguar, além do que se disse [uma discussão metafísica] até que ponto este ensinamento inspirado harmoniza com tudo isso." (NPNF, 2nd Series, 5:439)

Ambrósio (340–397)

Sobre os Deveres do Clero, 1:23:102

Pois como podemos adoptar aquelas coisas que nós não encontramos nas sagradas Escrituras?

Jerónimo (345-419), tradutor da Vulgata e o mais erudito do seu tempo

Adversus Helvetium

É uma arrogância criminosa acrescentar algo às Escrituras; o que está escrito, crê-o; o que não está escrito, não o busques.

Agostinho de Hipona (354-430)

O ilustre bispo pôs fim à sua controvérsia com os donatistas com o seguinte argumento:

... nada mais queremos ouvir de «tu dizes» e «eu digo», mas ouçamos o «Assim diz o Senhor». Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa."

Confissões VI, 5: 2-3

Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não crêem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar...

10 homílias sobre 1 João. Hom 2

Convém-nos ouvir com diligentíssima atenção todas as coisas que se lêem das Santas Escrituras para a nossa instrução e salvação. No entanto, sobretudo devem ser encomendadas à nossa memória aquelas que são mais fortes contra os hereges; cujos desígnios insidiosos não cessam de enganar os que são mais fracos e mais negligentes.

Contra Pelágio (4, 3, 14)

Uma vez que, porém, como já assinalei, estamos acostumados no nosso uso corrente das palavras, a designar todas aquelas Escrituras da lei e dos profetas que foram dadas antes da encarnação do Senhor sob o nome e título de Antigo Testamento, que homem que esteja pelo menos moderadamente informado no léxico eclesiástico pode ignorar que o reino dos céus poderia de igual maneira ser prometido naquelas primitivas Escrituras como no próprio Novo Testamento, ao qual pertence o reino dos céus?

Um tratado sobre a alma e a sua origem, 4,14

Mas apesar das perguntas que surgem respeitantes à origem das almas serem "mais elevadas", sem dúvida, do que a que trata da fonte do fôlego que inalamos e exalamos, tu crês no entanto que são mais elevadas aquelas coisas que aprendeste fora das Sagradas Escrituras, das quais derivamos o que aprendemos por fé; e como tais não são detectáveis por nenhuma mente humana... Ora, estes assuntos, aos quais chamei como mais excelentes e como melhores, não poderíamos de modo algum descobri-los, a menos que acreditemos neles pelo testemunho das Escrituras inspiradas.

Sobre a Doutrina Cristã II, 2,3

Desejamos, pois, considerar e discutir este género de sinais na medida em que os homens se relacionam com eles, porque também os sinais que nos foram dados de Deus, e que estão contidos nas Sagradas Escrituras, vieram ao nosso conhecimento através de homens – aqueles, a saber, que escreveram as Escrituras.


Sobre a Doutrina Cristã II, 7, 10

Depois destes dois passos de temor e piedade, chegamos ao terceiro passo, o conhecimento, do qual me proponho agora tratar. Porque neste todo o estudante diligente das Sagradas Escrituras se exercita a si mesmo, para não encontrar nada mais nelas senão que Deus deve ser amado por Si mesmo, e o nosso próximo por causa de Deus... É pois necessário que antes de tudo cada homem encontre nas Escrituras que ele, por ter sido enredado pelo amor deste mundo – ou seja, das coisas temporais – foi extraviado para muito longe do amor por Deus e pelo próximo que ensinam as Escrituras. Então aquele temor que o leva a pensar no juízo de Deus, e aquela piedade que não lhe deixa opção senão a de crer e submeter-se à autoridade da Escritura, o obrigam a lamentar-se da sua condição. Porque o conhecimento de uma boa esperança não faz um homem presunçoso, mas pesaroso.

Sobre a Doutrina Cristã II, 6,5

E daí ocorreu que até a Sagrada Escritura, que traz um remédio para as terríveis doenças da vontade humana, sendo inicialmente estabelecida numa linguagem, por meio da qual poderia no momento propício ser espalhada por todo o mundo, foi traduzida em várias línguas, e disseminada amplamente, e assim se tornou conhecida às nações para sua salvação. E ao lê-la, os homens não procuram nada mais do que encontrar o pensamento e a vontade daqueles por quem foi escrita, e através deles encontrar a vontade de Deus, segundo a qual crêem que esses homens falaram.

Sobre a Doutrina Cristã II, 9, 14

Em todos estes livros aqueles que temem a Deus e são de humilde e pia disposição procuram a vontade de Deus. E ao prosseguir esta busca a primeira regra a ser observada é, como disse, conhecer estes livros, se ainda não com o entendimento, lê-los pelo menos para memorizá-los, ou pelo menos para se não permanecer completamente ignorantes deles. Depois, aqueles assuntos que estão claramente especificados neles, sejam regras de vida ou regras de fé, devem ser buscados mais cuidadosa e diligentemente; e quanto mais disto descobre um homem, mais capaz se torna o seu entendimento. Pois entre as coisas claramente dispostas nas Escrituras se encontrarão todos os assuntos que dizem respeito à fé e aos costumes.

Sermões, 1:35

Mas, acima de tudo, recorda isto: não sejas perturbado pelas Escrituras que ainda não entendes, nem te envaideças pelo que entendes; mas espera submissamente pelo que não entendes e ao que entendes, aferra-te com caridade.


Um tratado sobre a correcção dos donatistas, 1:2

Não permitas, porém, que coisas como estas te perturbem, meu amado filho... Pois é-nos anunciado que é necessário que existam heresias e pedras de tropeço, para que possamos ser instruídos entre os nossos inimigos; e para que assim tanto a nossa fé como o nosso amor possam ser mais aprovados – a nossa fé, a saber, que não sejamos enganados por eles; e o nosso amor, para que nos esforcemos até ao máximo para corrigir aqueles que erram; não só cuidando que não prejudiquem os fracos, e que os erráticos possam ser desviados dos seus próprios erros, mas também orando por eles, para que Deus abra o seu entendimento, e possam compreender as Escrituras. Pois nos livros sagrados, onde o Senhor Cristo é manifestado, está também declarada a Sua Igreja; mas eles, com surpreendente cegueira, enquanto nada sabem de Cristo excepto o que se revela nas Escrituras, ainda assim formam a sua noção da Igreja d'Ele vinda da vaidade da falsidade humana, em vez de aprenderem o que está na autoridade dos livros sagrados.


As cartas de Petiliano o donatista, III, 7

Porque não me instruiu [Jesus] com a Sua palavra, sem confirmar-me também com o Seu exemplo. Segue a fé das sagradas Escrituras, e descobrirás que Cristo ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu, se sentou à destra do Pai.


João Cassiano (c. 370 – 435)

Sobre a Encarnação, contra Nestório (4,9)

Mas uma vez que até este ponto fizemos uso mais particularmente do testemunho, comparativamente novo, de evangelistas e apóstolos, tragamos agora o testemunho dos antigos profetas, misturando por vezes coisas novas com velhas, para que todos possam ver que as Sagradas Escrituras proclamam, como se fosse com uma só voz que Cristo haveria de vir na carne, com um corpo próprio completo.

Teodoreto de Ciro (393-457)

Hist Ecl 4,3

A verdadeira e piedosa fé em nosso Senhor Jesus Cristo foi tornada clara para todos tal como é conhecida e lida das Santas Escrituras. Nesta fé os santos mártires foram aperfeiçoados, e agora, ausentes, estão com o Senhor.


Diálogos, 1

Eu cederei somente à Escritura.

João Crisóstomo (347-407)

Homilia 49 sobre Mateus

As coisas que se inventam sob o nome de tradição apostólica, sem a autoridade das Escrituras, são castigadas pela espada de Deus.

Homilia 29 sobre os Actos (13: 16s)

Exorto-vos e rogo-vos que não penseis que basta ter invadido a Igreja, mas também que vos retireis daqui tendo tomado algo, alguma medicina, para a cura das vossas próprias enfermidades; e, se não de nós, em todo o caso, das Escrituras tendes os remédios adequados para cada uma.


Homilia 37 sobre os Actos (17:1-3)

(Recapitulação.) "Por três sábados" diz, sendo o tempo em que descansavam do seu trabalho, "arrazoou com eles, abrindo-lhes as Escrituras" (v. 2): pois assim costumava também fazê-lo Cristo: como em muitas ocasiões, o encontramos arrazoando a partir das Escrituras, e não em todas as ocasiões (exortando os homens) por milagres. Porque perante isso decerto eles adoptavam uma postura de hostilidade, chamando-lhes enganadores e impostores; mas Ele que persuadia os homens por razões provenientes da Escritura, não está exposto a essa acusação.


Duas homilias sobre Eutrópio (Hom 2)

O jardim está confinado a um lugar, mas as Escrituras estão em todas as partes do mundo; o jardim está sujeito às condições das estações, mas as Escrituras são ricas em folhagem, e cheias de fruto tanto no inverno como no verão. Prestemos portanto diligente atenção ao estudo da Escritura; porque se o fizeres, ela expulsará a tua desesperação, e gerará prazer, extirpará o vício, e fará que se enraíze a virtude, e no tumulto da vida te salvará de sofrer como aqueles que são sacudidos por turbulentas ondas. O mar ruge mas tu navegas com tempo calmo, pois tens o estudo das Escrituras como teu timoneiro; pois este é o cabo que as provas da vida não podem cortar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Ainda sobre Vigílio


Vigílio procedia de uma nobre família romana, e tinha sido ordenado diácono por Bonifácio II, que queria que fosse o seu sucessor. Contudo, a nomeação foi anulada pelo próprio Bonifácio por ser contrária aos cânones.

"Em 535 ou 536, Vigílio foi enviado por Agapito I, sucessor de Bonifácio II, a Constantinopla como seu representante perante a corte imperial. A imperatriz Teodora tratou de ganhá-lo como aliado, para vingar a deposição do patriarca monofisita Antimo de Constantinopla por Agapito, e também para obter ajuda em seus esforços a favor dos monofisitas. Diz-se que Vigílio esteve de acordo com os planos da ambiciosa imperatriz, que lhe prometeu a sede papal e uma grande soma de dinheiro (700 libras de ouro). Depois da morte de Agapito a 22 de Abril de 536, Vigílio voltou a Roma equipado com cartas da corte imperial e com dinheiro. Entretanto, Silvério tinha sido feito papa por influência do rei dos godos. Pouco depois o comandante bizantino Belisário ocupou com tropas a cidade de Roma, a qual foi porém novamente sitiada pelos godos. Vigílio deu a Belisário as cartas da corte de Constantinopla, as quais recomendavam o próprio Vigílio para a sede papal. Falsas acusações fizeram então que Belisário depusesse Silvério. Devido à pressão exercida pelo comandante bizantino, Vigílio foi eleito papa em lugar de Silvério e consagrado e entronizado a 29 de Março de 537. Vigílio fez com que o injustamente deposto Silvério fosse posto sob o seu cuidado, onde o antigo papa rapidamente morreu por causa do rude tratamento recebido. Depois da morte do seu predecessor, Vigílio foi reconhecido como papa por toda a clerezia romana." (Catholic Encyclopedia, s.v. "Vigilius, Pope").

Vigílio não somente procedeu da maneira mais ruim contra Silvério, mas rapidamente se esqueceu do seu compromisso com a imperatriz, a quem devia o cargo, e não fez absolutamente nada para restaurar Antimo nem a favor do monofisismo. Em contrapartida, se dedicou activamente a consolidar o seu poder metendo o nariz em dioceses alheias.

Em 540 lembrou-se do assunto, e escreveu ao imperador e ao patriarca Menas de Constantinopla cartas onde sustentava a ortodoxia de Éfeso e Calcedónia.

Quando o imperador, a pedido do bispo Teodoro Askidas de Cesareia na Capadócia, condenou três teólogos antioquenos (os "três capítulos") provavelmente para ganhar a simpatia dos monofisitas, exigiu que os bispos do Oriente e Ocidente subscrevessem a condenação. Vigílio se negou, e como resposta o imperador o fez comparecer perante a corte em Bizâncio. Enquanto era levado para o navio que o aguardava no Tibre, muitos o acompanharam atirando-lhe pedras e lixo, enquanto gritavam: "Leva a fome, leva a morte! Mal fizeste aos romanos; o mal seja contigo!".

Vigílio chegou finalmente a Constantinopla – após uma prolongada estadia na Sicília – em finais de 546 ou princípios de 547. Embora fosse um prisioneiro na corte, nenhuma das fontes consultadas diz que tivesse sido objecto de tortura. Pelo contrário, pôs-se à sua disposição uma residência na casa Placidiana. Opunha-se a condenar os "três capítulos" porque sabia que isso lhe traria sérios inconvenientes no Ocidente, mas ao mesmo tempo devia o seu bispado ao poder imperial e não se encontrava em condições de resistir à vontade de Justiniano.

Após muitas idas e voltas, admitiu condenar os "três capítulos" enquanto sustentava as decisões de Calcedónia, no seu Iudicatum de 548. Com isto é evidente que queria ficar bem tanto com os bispos gregos e com o imperador, para que o devolvesse à sua sede, como com os seus pares ocidentais.

Contudo, os bispos do Ocidente não morderam o anzol, e reagiram em massa, considerando-o como herege. Um sínodo de Cartago, presidido pelo bispo dessa cidade, Reparatum, excomungou Vigílio em 550 e o excluiu da Igreja católica até que se arrependesse formalmente.

Perante esta reacção generalizada, o papa Vigílio se retratou de seu Iudicatum e apelou a um concílio ecuménico, com representação equitativa de bispos ocidentais e orientais, solicitando aos gregos que não emitissem juízo até à celebração do sínodo.

Isto causou a ira de Justiniano, que reiterou a condenação dos "três capítulos" noutro decreto de 551. Vigílio protestou e, temeroso do imperador, se refugiou numa igreja, onde permaneceu até que se lhe garantiu a sua segurança e a sua antiga residência. No entanto, dava-se conta da volatilidade da sua situação, de modo que fugiu para Calcedónia, onde se refugiou em Santa Eufémia (onde tinha reunido o concílio de 451). Recusou-se tenazmente a voltar a Bizâncio, apesar das ordens de Justiniano.

Então o imperador retirou o seu decreto e convocou um concílio ecuménico, o II de Constantinopla. Apesar de Vigílio ter comprometido a sua participação, se negou a concorrer. Em vez disso, junto com dezasseis bispos, em 553 condenou no documento Constitutum sessenta proposições de Teodoro de Mopsuéstia, mas proibiu a condenação de Teodoreto e Ibas.

No século VI podia haver concílio ecuménico com bispo de Roma ou sem ele. "Sem a sua presença e, apesar do seu protesto, inaugurou o patriarca Eutíquio o concílio – o segundo de Constantinopla - a 5 de Maio na sacristia da igreja episcopal, em presença de 150 bispos. Cento e sessenta e quatro bispos subscreveram a oitava sessão, de encerramento, a 2 de Junho de 553." (Hubert Jedin, S.I., Breve historia de los concilios. Barcelona: Herder, 1963; p. 39).

Contra a opinião de Vigílio, o Concilio condenou os "três capítulos" e de passagem acusou Vigílio de nestorianismo e o condenou ao desterro. "O seu nome foi apagado dos registos dos bispos, dípticos das igrejas e documentos oficiais." (Javier Gonzaga: Concilios. Grand Rapids: International Publications, 1965, 1:213).

Perante o fracasso de todas as suas cartas, e em finais de 553, após seis meses de exílio, Vigílio acatou a decisão conciliar: Num novo Constitutum condenou finalmente os "três capítulos" e reconheceu as resoluções do recente concílio de Constantinopla. Pouco depois, em 554, escreveu a Eutíquio que ele, Vigílio, "tinha sido um instrumento nas mãos de Satanás, que trabalha para destruir a Igreja e assim se separou de seus colegas, mas finalmente tinha sido iluminado por Deus".

Como disse antes: De Vigílio pode dizer-se com justa razão que os seus contemporâneos, primeiro do Ocidente e depois do Oriente, o tiveram por herege. Os seus avanços e recuos no terreno doutrinal o tornavam extremamente inepto como mestre e pastor supremo da cristandade (ideia que, suspeito, teria resultado então igualmente ridícula tanto aos bispos do Oriente como aos do Ocidente).

Acrescento agora que usurpou o seu bispado (facto interessante para quem crê na "sucessão apostólica ininterrupta"), atraiçoou até os seus seguidores, e para obter a sua restauração teve que submeter-se total e incondicionalmente a um concílio ecuménico que o tinha condenado. Quão diferente da actual doutrina romana de que os ensinamentos do papa são irreformáveis em si e não pelo consentimento da igreja!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Papas que caíram em heresia


A. O caso de Libério, que acabou a assinar uma confissão de fé ariana e a condenar Santo Atanásio.

Depois das decisões de Niceia, a questão ariana não ficou definitivamente resolvida, longe disso. Quando os arianos ganharam a simpatia do novo imperador, Constâncio, este pressionou os bispos ortodoxos do Ocidente para que condenassem Atanásio, bispo de Alexandria e campeão da fé nicena. A maioria dos bispos claudicaram, e Libério, bispo de Roma (352-366), que resistia em condenar Atanásio sem ouvi-lo primeiro, foi como muitos outros deportado para a Ásia.

Após dois anos de exílio, Libério finalmente claudicou e subscreveu uma confissão de fé que, embora fosse ambígua, era aceitável para os arianos. A fórmula que Libério assinou era uma redigida pelos bispos da corte, a mesma que o ancião Ósio, bispo de Córdoba e antes conselheiro de Constantino, tinha sido obrigado a subscrever.

O que não resultou ambígua foi a sua condenação de Atanásio. Libério escreveu aos arianos como seus "amadíssimos irmãos" e se desculpou por ter defendido Atanásio, com base em que o seu predecessor, Júlio, assim o tinha feito. Dizia: "Eu não defendo Atanásio... tendo sabido quando agradou a Deus, que o condenastes justamente, assenti à vossa sentença. Assim que, tendo sido Atanásio expulso da comunhão de todos nós, de maneira tal que não vou sequer receber as suas cartas, digo que estou muito em paz e concórdia com todos vós, e com todos os bispos orientais nas províncias. Mas para que saibais melhor que nesta carta falo na verdadeira fé o mesmo que o meu comum senhor e irmão, Demófilo, que foi tão bom em conceder mostrar-me o vosso credo católico, o qual em Sírmia foi por muitos dos nossos irmãos considerado, estabelecido e recebido por todos os presentes: isto recebi com mente bem disposta, sem contradizer nada. A isto dou o meu assentimento; isto é o que sigo; isto é sustentado por mim... Rogo-vos que obreis conjuntamente para que possa ser liberto deste exílio e possa voltar à sede que me foi confiada por Deus".

Testemunhas da defecção de Libério são o próprio Atanásio, Hilário de Poitiers, Jerónimo, Hermias Sozomeno, Faustino e Marcelino.

Atanásio menciona a resistência inicial de Libério (que "era consciente da conspiração formada contra nós" e a sua claudicação depois de dois anos de exílio (Apologia contra os arianos, 89). Em outro lado (História dos arianos, 41) diz: "Assim se esforçaram [os conspiradores arianos] ao princípio para corromper a Igreja dos romanos, desejando introduzir a impiedade nela assim como noutras. Mas Libério, depois de ter estado no exílio dois anos, cedeu, e por medo à ameaça de morte subscreveu. Ainda assim, isto só mostra a conduta violenta, e o ódio de Libério contra a heresia, e o seu apoio a Atanásio, enquanto se lhe permitiu exercitar uma livre escolha".

Evidentemente Libério não era feito da mesma massa que alguns dos seus antecessores e bispos contemporâneos, capazes de enfrentar o martírio por causa da sua fé.

Jerónimo, em sua Vidas de Homens Ilustres (97), diz: "Fortunatiano, africano de nascimento, bispo de Aquilia durante o reino de Constâncio, ... , é detestado porque, quando Libério bispo de Roma foi exilado pela fé, foi induzido pela insistência de Fortunatiano a subscrever a heresia".

Sozomeno na sua História da Igreja (IV,15) diz que Libério tinha escrito uma confissão de fé ortodoxa que foi aprovada "parcialmente". "Pois quando Eudóxio e seus partidários em Antioquia, que favoreciam a heresia de Aécio, receberam a carta de Ósio, circularam a notícia de que Libério tinha renunciado ao termo 'consubstancial' e tinha admitido que o Filho é dissimilar com o Pai. Depois destas sanções terem sido feitas pelos bispos ocidentais, o imperador permitiu a Libério regressar a Roma".

Faustino e Marcelino apresentaram aos imperadores um livro em 383, em que se contava que dois anos depois de ter sido exilado Libério, Constâncio visitou Roma. Quando lhe perguntaram por Libério, o imperador respondeu que voltaria, e melhor do que quando tinha partido. "Desta maneira", dizem os autores, "aludiu o imperador ao consentimento de Libério, mediante o qual apertou as mãos da perfídia".

Hilário de Poitiers, que transcreve a carta de Libério citada antes, interrompe a transcrição com palavras muito severas: "Esta é a infidelidade ariana", "anátema, te digo, Libério e teus cúmplices", "de novo, pela terceira vez, anátema ao prevaricador Libério". Escrevendo a Constâncio em 360, diz Hilário: "Não sei se cometeste maior impiedade quando o exilaste [a Libério] do que quando o restauraste".

A defecção de Libério era reconhecida pelos martirológios e breviários romanos, até que no século XVI – suponho que no calor da controvérsia religiosa – foram retirados. Num deles se diz "Libério, papa, tinha expresso a sua conformidade com a perfídia ariana". O mesmo reconhece Barónio em seus Anais (56:57).

Tomando em conta todos os dados, parece correcto afirmar que Libério não era ariano em seu coração. Isto não o iliba do facto de ter subscrito o arianismo e a condenação de Atanásio para recuperar a sua sede. Em outras palavras, aceitou o que sabia que era injusto e erróneo, e o comunicou oficialmente aos bispos orientais, para poder regressar a Roma, como efectivamente o fez. Nesta complexa situação histórica, o mínimo que pode dizer-se do bispo de Roma é que fez um papel muito pobre e não defendeu a ortodoxia nicena, que teve de ser sustentada contra vento e maré pelo bispo de Alexandria, Atanásio.

B. O caso de Zósimo, um "supremo mestre" que não sabia distinguir um documento pelagiano de um ortodoxo, e que desconhecia tanto os cânones de Niceia (que confundiu com os de Sardes) como os limites da sua própria autoridade, e teve de ser ensinado pelos bispos africanos.

Traduzo o seguinte da Catholic Encyclopedia:

«Não muito depois da eleição de Zósimo o pelagiano Celéstio, que tinha sido condenado pelo papa precedente, Inocêncio I, veio a Roma para justificar-se perante o novo papa, tendo sido expulso de Constantinopla. No verão de 417, Zósimo realizou uma reunião com a clerezia romana na basílica de São Clemente, perante a qual compareceu Celéstio. As proposições redigidas pelo diácono Paulino de Milão, por causa das quais Celéstio tinha sido condenado em Cartago em 411, foram dispostas perante ele. Celéstio se recusou a condenar tais proposições, declarando ao mesmo tempo em geral que ele aceitava a doutrina exposta nas cartas do papa Inocente e fazendo uma confissão de fé que foi aprovada. O papa foi conquistado pela conduta astutamente calculada de Celéstio, e disse que não estava seguro de se o herege tinha realmente mantido a doutrina falsa rejeitada por Inocente, e portanto considerava demasiado apressada a acção dos bispos africanos contra Celéstio. Escreveu de imediato neste sentido aos bispos da província africana, e convocou aqueles que tivessem algo que dizer contra Celéstio para que comparecessem em Roma dentro de dois meses. Pouco depois disto, Zósimo recebeu de Pelágio também uma confissão de fé artificiosamente expressa, juntamente com um tratado do heresiarca sobre o livre arbítrio. O papa reuniu um novo sínodo da clerezia romana, perante a qual ambos os escritos foram lidos. As expressões habilmente escolhidas de Pelágio ocultavam o conteúdo herético; a assembleia susteve que as afirmações eram ortodoxas, e Zósimo escreveu de novo aos bispos africanos defendendo Pelágio e reprovando os seus acusadores, entre os quais se encontravam os bispos galos Hero e Lázaro. O arcebispo Aurélio de Cartago rapidamente convocou um sínodo, o qual enviou a Zósimo uma carta em que se provava que o papa tinha sido enganado pelos hereges. Em sua resposta, Zósimo declarou que não tinha determinado nada em forma definitiva, e que não desejava estabelecer nada sem consultar os bispos africanos. Depois da nova carta sinodal do concílio africano, de 1 de Maio de 418, ao papa, e depois das medidas tomadas contra os pelagianos pelo imperador Honório, Zósimo reconheceu o verdadeiro carácter dos hereges. Então publicou a sua "Tractoria", no qual eram condenados o pelagianismo e seus autores. Assim, finalmente, o ocupante da Sé Apostólica no momento exacto manteve com toda a autoridade o dogma tradicional da Igreja, e protegeu a verdade da Igreja contra o erro.

Pouco depois disto, Zósimo se envolveu numa disputa com os bispos africanos em relação ao direito de apelação à sé romana de clérigos que tinham sido excomungados pelos seus bispos. Quando o sacerdote Apiário de Sicca tinha sido excomungado por causa dos seus delitos, apelou directamente ao papa, sem consideração pelo curso regular da apelação em África, que estava exactamente prescrito. O papa aceitou a apelação de imediato, e enviou a África legados com cartas para investigar o assunto. Um procedimento mais sábio teria sido remeter primeiro Apiário para o curso ordinário de apelação na própria África. A seguir, Zósimo cometeu o erro adicional de basear a sua acção num suposto cânon do Concílio de Niceia [ecuménico], que era na realidade um cânon do Concílio de Sárdica [local]. Nos manuscritos romanos, os cânones de Sárdica seguiam-se aos de Niceia imediatamente, sem um título independente, enquanto os manuscritos africanos continham unicamente os cânones genuínos de Niceia, de modo que o cânon a que apelou Zósimo não se encontrava nas cópias africanas dos cânones nicenos. Assim surgiu um sério desacordo acerca desta apelação, que se prolongou depois da morte de Zósimo».

J.P. Kirsch, Pope St. Zosimus. Em The Catholic Encyclopedia, vol. XV).

É provavelmente um facto afortunado para a Igreja de Roma que o bispado de Zósimo (417-418) tenha durado tão pouco, pois do contrário é possível que tivesse cometido ainda mais erros.

Embora o autor do artigo citado pretenda ilibar Zósimo e apresentá-lo como o guardião da ortodoxia que "no momento exacto manteve com toda a autoridade o dogma tradicional da Igreja, e protegeu a verdade da Igreja contra o erro", os factos que ele mesmo narra são bem diferentes.

O titular da sé romana examinou cuidadosamente o exposto por Celéstio e Pelágio, e chegou à conclusão de que ambos eram ortodoxos. Se vê que o Espírito Santo não o assistiu para distinguir a verdade do erro. Como consequência da sua avaliação, corrigiu a condenação pronunciada pelo bispo romano anterior (o que mostra que nesta época os papas não se sentiam ainda obrigados pelos ensinamentos e decisões dos seus predecessores, que podiam ser anuladas se fosse necessário), censurou gravemente os bispos galicanos acusadores – os quais qualificou de maliciosos e turbulentos e pretendeu excomungar -, aconselhou paternalmente os bispos africanos para que não se apressassem a crer o mal do seu próximo, e disse que desejaria que os africanos tivessem podido ouvir as exposições de Celéstio e Pelágio, aos quais chamou homens de ortodoxia perfeita (absolutae fidei).

Apesar da decisão do bispo romano, os bispos africanos se mantiveram na sua posição e reafirmaram a condenação dos erros pelagianos. Foi somente perante a firmeza dos africanos e a condenação e desterro de Pelágio pela autoridade imperial (que vaticinava um negro futuro para os seus defensores) que Zósimo publicou a sua condenação dos pelagianos e seus escritos. O fez muito tarde para defender a ortodoxia, que já tinha sido reivindicada pelos bispos da Gália e de África, e apenas a tempo para salvar a sua própria pele da acusação de heresia.

Assim que, se Zósimo não era pelagiano, pelo menos engoliu a isca pelagiana com anzol e chumbo, atreveu-se a admoestar os bispos que defendiam a ortodoxia, e só a muito custo reagiu no instante final. Por certo, um papel muito triste para um pastor e mestre supremo.

E embora o problema do pelagianismo tenha sido muito mais grave, a nova controvérsia sustentada com os africanos a propósito das apelações, mostra o pobre Zósimo como muito pouco versado também em questões de disciplina eclesiástica, outra área na qual se ensina hoje que as decisões dos papas são inapeláveis.

O Código de Direito Canónico vigente estabelece:

"O Romano Pontífice é o juiz supremo para todo o mundo católico e julga pessoalmente, pelos tribunais ordinários da Sé Apostólica ou por juízes por ele delegados" (# 1442).

"Não há lugar para apelação: 1º de uma sentença do próprio Romano Pontífice ou da Assinatura Apostólica..." (# 1629).

"Contra uma sentença ou decreto do Romano Pontífice, não há apelação, nem recurso" (# 333, § 3).

"Em razão do primado do Romano Pontífice, é facultado a qualquer fiel recorrer à Santa Sé ou introduzir perante ela, para julgamento, sua causa contenciosa ou penal, em qualquer grau do juízo e em qualquer estado da lide" (# 1417.1).

Parece que os bispos africanos do século V não estavam inteirados destas leis.

C. O caso de Vigílio, um papa extremamente vacilante, muito pouco apto para ser mestre supremo da cristandade.

Apesar das definições de Calcedónia, o monofisitismo (doutrina de uma única natureza divino-humana em Cristo) estava longe de estar vencido. Enquanto as igrejas do Ocidente se aferravam ao proclamado por Calcedónia, o imperador Justiniano favorecia a heresia monofisita.

Nesta situação o bispo de Roma, Vigílio, posto ali pelo próprio imperador, se encontrava numa incómoda posição. Embora tenha tentado resistir aos decretos imperiais, uma visita obrigada à corte bizantina fez que, em 548, no documento Iudicatum, subscrevesse a condenação imperial dos escritos de três teólogos antioquenos (detestados pelos monofisitas): Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa. Ao mesmo tempo que fazia isto, tentava sustentar as decisões de Calcedónia.

Aparentemente Vigílio desejava ficar bem com ambas as partes. Contudo, os bispos ocidentais não estavam dispostos a tolerar semelhante atitude. Foi considerado um violador da ortodoxia, e se o teve por herege nas Gálias, Dalmácia, Ilíria e em África, onde em 550 foi excomungado por um sínodo.

Perante esta reacção, Vigílio anulou o seu próprio escrito e sugeriu convocar um concílio geral em que houvesse igual representação dos bispos ocidentais e dos orientais. Isto o malquistou com o imperador e com os bispos orientais. Como resposta às pretensões do bispo romano, Justiniano convocou um concílio ecuménico, o II de Constantinopla de 553, do qual o papa ficou excluído. O Concílio o acusou de nestorianismo. Vigílio foi desterrado, e o seu nome apagado dos registos e documentos oficiais.

Pela terceira ou quarta vez, depois de seis meses de exílio, o desafortunado bispo romano mudou novamente de opinião e aceitou as resoluções do II Concílio de Constantinopla. Numa carta que dirigiu ao patriarca Eutíquio de Constantinopla, confessava ter sido um instrumento nas mãos de Satanás, mas tinha sido finalmente iluminado por Deus. Depois desta capitulação, lhe foi permitido regressar a Roma, coisa que nunca chegou a fazer porque faleceu no caminho.

De Vigílio pode dizer-se com justa razão que os seus contemporâneos, primeiro do Ocidente e depois do Oriente, o tiveram por herege. Os seus avanços e recuos no terreno doutrinal o tornavam extremamente inepto como mestre e pastor supremo da cristandade (ideia que, suspeito, teria resultado então igualmente ridícula tanto aos bispos do Oriente como aos do Ocidente).

D. O caso do papa Honório, cuja condenação como herege permaneceu no breviário romano até ao século XVIII, quando foi piedosamente omitido.

Honório sucedeu a Bonifácio V, foi bispo de Roma entre Outubro-Novembro de 625 e 12 de Outubro de 638. A condenação de Honório pelo III Concílio de Constantinopla mostra cabalmente que o bispo de Roma estava sujeito à mesma disciplina que os demais bispos, e que podia ser disciplinado se errava como mestre e pastor. A Igreja antiga não conhece nada da actual doutrina da infalibilidade sancionada por Roma há pouco mais de um século.

O contexto histórico é o da heresia monotelita, que ensinava a existência de uma só vontade em Cristo, o que tendia a minimizar a natureza humana de nosso Senhor como antes o tinham feito os monofisitas.

O imperador Heráclio desejava conciliar os monofisitas com os ortodoxos, e uma fórmula que parecia adequada para ambos os grupos foi remetida a Sérgio, patriarca de Constantinopla. Por sua vez Sérgio enviou a Honório de Roma uma carta dogmática, solicitando a sua opinião.

Honório aceitou a fórmula de compromisso entre monofisismo e ortodoxia ("Estas coisas pregará vossa fraternidade convosco, assim como nós as pregamos juntamente com vós", disse a Sérgio). O pior é que, em vez de "uma energia" como os gregos, Honório expressou: "Também confessamos uma só vontade de nosso Senhor Jesus Cristo" (ver Denzinger # 251). O ensino de Honório deu origem à formulação do ensino herege chamado monotelismo (uma vontade).

Perante o facto de que como bispo de Roma, consultado formalmente pelo bispo de Constantinopla, confirmou este no seu erro em vez de corrigi-lo, Honório recebeu de Sofrónio, patriarca de Jerusalém, e de outros bispos, um documento que defendia a ortodoxia. Como resposta, Honório escreveu uma segunda carta a Sérgio, onde ratificava e ampliava o dito; a carta concluía:

«E estas coisas decidimos manifestar à vossa mui santa fraternidade para que, estabelecendo esta confissão, possamos mostrar-nos de uma mesma mente com vossa santidade, estando claramente de acordo num mesmo espírito, com um mesmo ensino da fé ... E escrevemos aos nossos colegas e irmãos, Ciro e Sofrónio, para que não persistam na nova expressão de uma ou duas energias.»

Os defensores da infalibilidade papal usaram sem êxito diversas tácticas para eludir a condenação de Honório: a partir da época de Torquemada, se questionaram as actas do Concílio que condenou Honório; posteriormente, ao fracassar isto, se quis reinterpretar o dito por Honório para tomá-lo em sentido ortodoxo (suponho que por esta razão a sua declaração se publica no Denzinger). Outra artimanha de valor histórico foi tomar o ensino de Honório como a opinião de um teólogo privado. A este respeito diz John Chapman, autor do artigo sobre Honório em The Catholic Encyclopedia: A carta [de Honório] não pode ser tida como privada, pois é uma resposta oficial a uma consulta formal.

No entanto, Chapman por sua vez recorre a outro subterfúgio, a saber, que a carta supostamente não define nem condena nada, nem se apresenta como vinculante para todos os cristãos, pelo que não se a pode considerar ex cathedra segundo a moderna definição do Concílio Vaticano I (1870). Na verdade, Honório subscreve plenamente, com toda a sua autoridade, o dito por Sérgio, e ainda por cima acrescenta a confissão de "uma só vontade".

Para lá das subtilezas, a questão é que por muitos séculos ninguém pôs em dúvida que Honório fosse herege.

Chapman diz de Honório que "A sua maior notoriedade veio pelo facto de ter sido condenado como herege pelo sexto concílio ecuménico (680)…".

«Na Sessão 13ª de 28 de Março, as duas cartas de Sérgio foram condenadas, e o concílio acrescentou: «Àqueles cujos ímpios dogmas execramos, julgamos que os seus nomes também sejam expulsos da santa Igreja de Deus ... E além destes decidimos que Honório também, que foi papa da antiga Roma, seja com eles expulso da santa Igreja de Deus, e anatematizado com eles, porque verificamos na sua carta a Sérgio que seguiu a opinião deste em tudo, e confirmou os seus dogmas ímpios». Estas últimas palavras são suficientemente verdadeiras, e, se Sérgio tinha de ser condenado, Honório não podia ser recuperado. Os legados [papais] não objectaram a sua condenação.

... A condenação do papa Honório foi guardada nas lições do Breviário para 28 de Junho (São Leão II) até ao século XVIII ...»

(John Chapman, Pope Honorius I. The Catholic Encyclopedia, vol. VII).

O Concílio dirigiu uma carta ao então bispo de Roma, Agatão, na qual se incluía Honório entre os que "erraram na fé".

No Édito imperial que concedia força legal às decisões conciliares, se mencionava como anatematizado "Honório, que foi papa da antiga Roma, o qual em todas as coisas promoveu e cooperou e confirmou a heresia".

A condenação de Honório foi renovada pelos Concílios II de Niceia (787) e IV de Constantinopla (869-870).

Ainda antes do Concílio Ecuménico citado, um importante sínodo de Latrão em 649, presidido por um sucessor de Honório, Martinho (649-655) condenou todo aquele que confessasse uma só vontade e operação em Cristo, o que incluía Honório, embora talvez por vergonha, o seu nome não aparecesse na lista.

O papa Leão II (682-683), sucessor de Agatão, reiterou a condenação de Honório. Numa carta ao imperador diz do papa herege que Honório "não santificou esta apostólica Igreja com o ensino da tradição apostólica mas com profana traição transtornou a sua fé imaculada". Noutro lado coloca-o junto a outros hereges como Ário, Apolinário, Nestório e Eutiques.

Durante vários séculos, o Liber Diurnus, que continha os juramentos que cada bispo de Roma devia prestar, incluía um anátema contra "Honório, que acendeu o fogo das afirmações ímpias". Este anátema foi pronunciado por cerca de cinquenta papas que prestaram juramento no lapso mencionado.

Honório foi tido por herege durante séculos, e tal opinião generalizada, sustentada ainda por dezenas de seus sucessores, somente foi questionada pelo seu efeito pulverizador sobre a doutrina da infalibilidade papal.

Que um bispo de Roma caísse na heresia era uma coisa pouco frequente, além de uma grande desgraça; mas a ninguém, nem sequer aos próprios bispos de Roma, passava pela cabeça que fosse impossível. E de facto, ocorreu.

Por último, a história mostra que a solução romanista para as diferenças na interpretação das Escrituras não é válida.

A Igreja teria admitido o arianismo se tivesse capitulado com Libério; teria afirmado o pelagianismo se os africanos não tivessem corrigido Zósimo; estaria ainda vacilante se seguisse o usurpador Vigílio; e seria monotelita se de Honório tivesse dependido.

Como o expressa muito bem George Salmon:

«Quando se sugeriu que poderíamos contentar-nos com a guia das Sagradas Escrituras, os advogados do romanismo replicaram que embora a Bíblia possa ser infalível não é uma guia infalível; ou seja, não protege aqueles que a seguem do perigo de errar. Certamente agora podemos dizer o mesmo do papa. Que seja infalível, se quiserdes; que seja em seu coração da mais admirável ortodoxia, ainda assim não é um guia infalível se pelas suas afirmações públicas leva ao erro o povo cristão. É indisputável que houve casos em que o povo cristão erraria se seguisse a guia do bispo de Roma. Mesmo se fosse possível demonstrar que nenhum bispo de Roma jamais albergou sentimentos que não fossem da mais rígida ortodoxia, ficaria demonstrado que o papa não é uma guia infalível. Podemos assinalar caso após caso em que se concedeu autoridade papal a decisões que sabemos erróneas, e em cada caso pode fazer-se alguma tentativa engenhosa para mostrar que a decisão errónea não compromete o atributo da infalibilidade; mas mais cedo ou mais tarde os homens devem despertar para ver que o resultado de todos estes pedidos de excepção é que, enquanto esperavam um guia que sempre os dirigisse correctamente, eles têm em seu lugar um guia que sempre pode encontrar alguma desculpa plausível para cada vez que os extravia».

(The Infallibility of the Church, pp. 441-442, vi).
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