domingo, 26 de dezembro de 2010

O cânon do Antigo Testamento nas Igrejas Orientais


Fora da Igreja Católica Romana ninguém aceita o cânon do AT estabelecido em Trento no século XVI. Os protestantes não aceitam, uma vez que aderem ao mais breve cânon hebreu - único válido uma vez que as Escrituras foram entregues a eles em primeiro lugar - e os Orientais por seu lado incorporam os "deuteros" mas também admitem outros livros que a Igreja de Roma nunca aceitou.

Ora, interessa saber que esta incorporação por parte dos Orientais ocorreu tardiamente, contra a tradição estabelecida por Melitão de Sardes (século II), Orígenes (século III), Atanásio de Alexandria (século IV), o concílio de Laodiceia (século IV), Cirilo de Jerusalém (século IV), Gregório de Nazianzo (século IV), Anfilóquio de Icónio (século IV), Epifánio de Salamina (século IV-V), etc. Ainda em princípios do século VII, Leôncio de Bizâncio, que foi julgado como "o mais completo teólogo do seu tempo" dá uma lista detalhada que reconhece somente o cânon hebreu do AT.

Parece que a confusão se semeou no Concílio chamado Trulano de 692 que, de maneira implícita, sancionou ao mesmo tempo duas listas canónicas diferentes entre si, uma que excluía e outra que incluía os apócrifos. Isto sugere que o cânon do Antigo Testamento não figurava entre as principais preocupações dos bispos orientais de finais do século VII.

Os escritores orientais posteriores mostram uma inconsistência parecida, já que quando têm de formular uma lista de livros canónicos uniformemente excluem os apócrifos; mas os utilizam indiscriminadamente nos seus escritos. Isto demonstra que as citações não bastam para demonstrar por si mesmas a opinião que sustenta o autor acerca da canonicidade do livro citado. Disto é um bom exemplo João de Damasco, o último dos Padres gregos (m. cerca de 750), que subscreve o cânon hebreu, embora cite Sabedoria (livro que tem por bom e nobre, mas não profético).

Fócio, patriarca de Constantinopla, num resumo das leis da Igreja, refere-se às listas de livros canónicos dadas pelos "Cânones Apostólicos" e pelos Concílios de Cartago e Laodiceia como se fossem as mesmas. O mesmo tipo de confusão se observa em Zonaras, historiador e teólogo bizantino do século XII, nos seus contemporâneos Aleixo Aristeno e Teodoro Balsamon, e no século seguinte, no patriarca de Constantinopla, Arsénio.

Apesar disso, um dos títulos que se deu à Biblia na Igreja grega foi «Os Sessenta Livros» que, segundo antigos manuscritos, se contavam como se segue: Sabedoria, Eclesiástico, Macabeus, Judite e Tobite ficavam expressamente de fora, como também Ester. A lista omitia Apocalipse. A chamada Esticometria de Nicéforo (finais do século IX) menciona todos os apócrifos excepto Baruc como "livros disputados".

Ainda mais tarde (1333) Nicéforo Calisto se baseia em Gregório de Nazianzo e Anfilóquio e dá uma lista do cânon hebreu excepto Ester. Não menciona como duvidosos os apócrifos salvo Judite e Tobite.

O patriarca reformador de Constantinopla, Cirilo Lucar (1572-1638), dá na sua Confissão de Fé uma definição dos livros canónicos, que para o AT correspondem ao cânon hebreu. Dos apócrifos diz que "têm esse nome por esta razão, que não possuem a mesma ratificação do Santíssimo Espírito, como a tem os livros que são própria e indisputavelmente canónicos".

A mesma posição é confirmada por Metrófanes Critopulus, Patriarca de Alexandria (1636-1639), que dá uma lista do AT conforme ao cânon hebreu na sua Confissão da Igreja Católica e Apostólica Oriental. Acrescentou:

mas os restantes livros que alguns pretendem incluir na Sagrada Escritura, tais como Tobite, Judite, a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Jesus filho de Sirá (Eclesiástico), Baruc e os livros dos Macabeus, não os consideramos merecedores de ser descartados, pois muitos preceitos morais, merecedores do maior louvor, se contêm neles; mas a Igreja de Cristo nunca os recebeu como canónicos e autênticos, como dão testemunho muitos outros, mas especialmente São Gregório o Teólogo, e São Anfilóquio, e finalmente São João de Damasco. Portanto não nos esforçamos em estabelecer doutrinas destes, mas dos trinta e três livros canónicos e autênticos, os quais também chamamos inspirados e Sagrada Escritura.

Confissão... citado por Westcott, The Bible in the Church, 3a Ed, 1870, p. 228-229

Esta opinião é subscrita e citada com aprovação por Platão, bispo da Igreja Ortodoxa Russa; no catecismo ortodoxo russo sustenta-se o cânon hebreu, embora não se descartem os apócrifos para edificação.

Tão tardiamente como no século XVII sínodos orientais reunidos em Jasi (1642) e Jerusalém (1672) declararam como "genuínas partes da Escritura" 1 Esdras (incluído no apêndice da Vulgata como 3 Esdras e nunca reconhecido pela Igreja Católica), Tobite, Judite, 1, 2 e 3 Macabeus (este último fora do cânon romano), Sabedoria, Jesus ben Sirá, Baruc e a carta de Jeremias. Isto ocorreu sobretudo (como Trento contra Lutero) como reacção aos ensinamentos do já referido Cirilo Lucar. Contudo, um sínodo contemporâneo de Constantinopla adere à posição verdadeiramente tradicional, ao dizer que "aqueles livros que não são incluídos na enumeração dos Escritores Sagrados, não são rejeitados e tratados como pagãos e profanos; mas descritos como bons e excelentes".

Mas as Igrejas Orientais como um todo nunca canonizaram os apócrifos.

Por outro lado, Bruce nota que "a maior parte dos eruditos ortodoxos de hoje, no entanto, seguem Atanásio e outros ao pôr os livros do «plus da Septuaginta» num nível de autoridade menor que os escritos «protocanónicos»". (F.F. Bruce, The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988, p. 82).

Ou seja que, na prática, os teólogos ortodoxos tendem para a posição histórica, da qual Lutero estava mais próximo que os bispos tridentinos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Resposta a “2 Tim 3,16-17 e a Sola Scriptura” de James Akin [1]


[James Akin] Os defensores do princípio protestante da "Sola Scriptura" ("somente a Bíblia") estão com problemas.

[Fernando Saraví] Muito mais o estão aqueles que postulam outra fonte de revelação paralela às Escrituras e de igual autoridade que estas.

[James Akin] Se a doutrina da "Sola Scritura" fosse verdadeira, então seria possível provar todas as doutrinas baseando-se unicamente nas Sagradas Escrituras. Dessa forma, também seria possível provar que a "Sola Scriptura" encontra-se registrada na mesma Bíblia. Se isso, contudo, não puder ser feito, então a doutrina da "Sola Scriptura" estará refutada por si mesma.

[Fernando Saraví] Parece justo, embora antes de proceder a alguma refutação deveria definir claramente a doutrina à qual se opõe.

[James Akin] Por essa razão, há um grande interesse de se encontrar na Bíblia versículos que possam ser usados para provar a teoria da "Sola Scriptura". Essas tentativas geralmente são feitas por dois tipos de defensores da referida doutrina: os descuidados e os cuidadosos. O primeiro tipo, entretanto, parece ser a grande maioria.

Os defensores da "Sola Scriptura", assim como muitos outros "defensores de meras idéias", não tomam o devido cuidado com o modo de fundamentar suas posições, e pressionam para que as coisas mais insignificantes lhe sirvam para provar que suas teorias são verdadeiras. Em outras palavras, os defensores descuidados da "Sola Scriptura" citam todo gênero de passagens irrelevantes como se estas fossem prova da referida doutrina. 

[Fernando Saraví] Na mesma posição estão os defensores descuidados da tradição apostólica. Não me parece que considerar os piores argumentos contribua para a discussão. Além disso, antes haveria que ver se o que o presente autor considera "passagens irrelevantes " o são na verdade.

[James Akin] Citam, por exemplo, passagens dos Evangelhos onde Jesus, ao ser interrogado por seus inimigos sobre certo ponto doutrinário, lhes responde com alguma passagem do Antigo Testamento. Entretanto, essa classe de versículos só pode ser usada para provar que o Antigo Testamento possui autoridade doutrinária, mas não que seja prova da "Sola Scriptura", uma vez que Jesus nunca disse que apenas o Antigo Testamento possui autoridade doutrinária (neste caso, teríamos que admitir a doutrina do "'Solo' Antigo Testamento"). 

[Fernando Saraví] O "solo Antigo Testamento" corre por conta do autor. Por certo que o Antigo Testamento era a Escritura a que Jesus se refere, mas se se admite que o Novo Testamento possui o mesmo tipo de inspiração que o Antigo (e isto não o nega nenhum cristão) é inevitável a conclusão de que não pode possuir menos autoridade.

O que o nosso apologista romano esquece por completo é o facto de que Jesus não somente citou o Antigo Testamento como possuindo alguma "autoridade doutrinária". Pelo contrário, quando o Senhor citou tais Escrituras o fez de modo tal que excluía toda a discussão adicional. A autoridade do Antigo Testamento era tal que estava acima de toda outra excepto a do próprio Senhor.

[James Akin] Ora, quando Jesus cita o Antigo Testamento para provar certa doutrina, está apenas querendo mostrar que essa doutrina poderia ser provada por tal passagem do Antigo Testamento. Não significa, assim, que Ele tenha considerado que todas as doutrinas poderiam ser provadas pelo Antigo Testamento ou pela Bíblia em geral. Por isso, não surpreende ver Jesus respondendo aos seus inimigos apelando para a sua própria autoridade ou ainda para outras fontes extra-escriturísticas.

[Fernando Saraví] O "está apenas querendo mostrar" é uma redução que o autor apresenta como algo demonstrado, quando precisamente disto trata a discussão. Deveria ser evidente que o Antigo Testamento é parte da Revelação, a qual se completa com o Novo Testamento dando lugar ao que hoje conhecemos como a Bíblia. O Antigo e Novo Testamentos se relacionam entre si como da promessa ao cumprimento. E este cumprimento tem como ponto central a Encarnação de Jesus Cristo, a sua vida, a sua morte e a sua ressurreição, tal como nos é apresentado nas Escrituras do Novo Pacto. A questão é que para Jesus, como para os seus Apóstolos, a Palavra escrita de Deus tem uma autoridade superior à de qualquer outra fonte, com excepção do próprio Senhor.

Não me resulta claro a que se refere Mr. Akin quando alude vagamente a "outras fontes extra-escriturísticas" diferentes da própria autoridade do Senhor Jesus Cristo.

[James Akin] A idéia de que Jesus – Palavra viva de Deus que veio trazer-nos uma nova revelação por meio de suas pregações e ensinamentos – praticava e cria na proposição de que toda a doutrina deveria ser provada apenas pela Palavra escrita de Deus é absurda em si mesma. Apesar disto, os defensores descuidados da "Sola Scriptura" não deixam de citar os exemplos onde Jesus usa a Escritura para provar uma doutrina individual, como se provassem assim que a Escritura é capaz de dar validade a todas as doutrinas. 

[Fernando Saraví] A natureza geral das afirmações de Mr. Akin (que cuidadosamente evita lidar com as passagens relevantes) esquece alguns factos fundamentais:

1. Jesus como Dador da Escritura é ao mesmo tempo o seu Intérprete perfeito. E diante de diversas discussões, o testemunho das Escrituras era para ele inapelável.

2. Jesus julgou com severidade os religiosos do seu tempo entre outras coisas porque invalidavam as Escrituras pondo ao mesmo nível que elas as suas próprias tradições orais, que sustentavam ter sido recebidas pelo próprio Moisés (do mesmo modo que hoje a Igreja Católica sustenta que muitas das suas tradições de duvidosa origem provêm dos próprios Apóstolos que escreveram o Novo Testamento).

3. Como já indiquei antes, por razões óbvias no tempo de Jesus a revelação não se havia completado; isto não tira um pingo de autoridade ao Antigo Testamento, nem tão pouco valida a "tradição dos anciãos". Quando sob a inspiração do Espírito Santo se pôs por escrito no que hoje conhecemos como Novo Testamento, sim se completou a Revelação.

[James Akin] De outro modo, os defensores cuidadosos da "Sola Scriptura" – aqueles que tentam limitar os versículos usados para fundamentar essa doutrina, deixando somente aqueles que têm como mais relevantes – são mais raros que "dentes de galinha". Só alguns reconhecem que deixam de lado um grande número de passagens irrelevantes… Na verdade, reconhecem que só uma ou duas passagens poderiam mesmo ser usadas para fundamentar a doutrina da "Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Completamente ao contrário: é o contexto geral da Bíblia e não uma ou duas passagens isoladas o que testemunha a verdade da doutrina de Sola Scriptura.

[James Akin] A maior esperança estaria em 2Tim 3,16-17, que declara: "Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para convencer, para corrigir e para educar na justiça. Assim o homem de Deus se encontra perfeito e preparado para toda boa obra". 

[Fernando Saraví] Aqui Mr. Akin comete a falácia de seleccionar como "promissora" uma passagem isolada, como se alguma doutrina importante pudesse basear-se num só texto particular. Uma vez feito isto, começa a demonstrar que a mencionada passagem por si mesma não prova a doutrina de Sola Scriptura. Se alguém admite a sua pressuposição, a conclusão fica predeterminada no sentido que Mr. Akin deseja.

[James Akin] Quem recorre a esta passagem afirma que a primeira parte ("Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar") é suficiente para fundamentar a "Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Certamente que não o é, como não o seria nenhuma passagem particular isolada do contexto da Escritura; e isto é válido para qualquer doutrina cristã, não somente para Sola Scriptura.

[James Akin] Algumas vezes a discussão ganha a forma de um apelo mais emotivo, ou seja, de que a expressão "Toda Escritura é inspirada por Deus" poderia ser melhor traduzida por "É exalada por Deus", passando a idéia de que os católicos não crêem que a Bíblia tenha sido escrita por inspiração verbal de Deus. 

[Fernando Saraví] Bem, deixemos as emoções de lado como quer Mr. Akin.

[James Akin] Mas o uso desta primeira parte do versículo é infrutífero pois diz apenas que a Escritura é "útil" ("ophelimos" em grego) para ensinar, e não que seja obrigatória para ensinar cada ponto teológico. Exemplificando, o martelo é útil para pregar, mas isso não significa que todos os pregos só possam ser pregados com um martelo.

[Fernando Saraví] Antes de tudo, o texto bíblico em algumas versões aprovadas pela Igreja Católica:

Mas tu permanece fiel à doutrina que aprendeste e de que estás plenamente convencido: tu sabes de quem a recebeste. Recorda que desde a meninice conheces as Sagradas Escrituras: elas podem dar-te a sabedoria que conduz à salvação, mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura está inspirada por Deus, e é útil para ensinar e para arguir, para corrigir e para educar em justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para fazer sempre o bem. (2 Timóteo 3:14-17, O Livro do Povo de Deus).

Tu, porém, persevera no que aprendeste e no que creste, tendo presente de quem o aprendeste, e que desde menino conheces as Sagradas Letras, que podem dar-te a sabedoria que leva à salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para arguir, para corrigir e para educar na justiça; assim o homem de Deus se encontra perfeito e preparado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:14-17, Bíblia de Jerusalém).

Tu, continua firme em tudo aquilo que aprendeste, do qual estás convencido. Já sabes quem foram os que to ensinaram. Recorda que desde menino conheces as Sagradas Escrituras, que podem instruir-te e levar-te à salvação por meio da fé em Cristo Jesus. Toda Escritura está inspirada por Deus e é útil para ensinar e repreender, para corrigir e para educar numa vida de rectidão, para que o homem de Deus esteja capacitado e completamente preparado para fazer todo o tipo de bem. (2 Tim 3: 14-17, Versão Popular "Deus fala hoje").

Segundo Mr. Akin, "o uso desta primeira parte do versículo é infrutífero pois diz apenas que a Escritura é "útil" ("ophelimos" em grego) para ensinar, e não que seja obrigatória para ensinar cada ponto teológico". Mas o texto não diz que a Escritura seja "apenas" útil para ensinar. Somente pode reduzir desta forma o texto omitindo deliberadamente o resto da frase: ensinar, arguir, corrigir e educar em rectidão. Quando, à diferença do que faz Akin em seu fervor apologético, se toma o texto tal como nos é apresentado, observa-se de imediato que segundo o Apóstolo abarca a totalidade da educação cristã orientada, como Paulo acaba de dizer, para a salvação pela fé em Cristo: expor as crenças da nossa fé, demonstrar a verdade, corrigir o erro e inculcar a conduta própria do cristão. Onde, pois, está o "apenas" de Mr. Akin senão na sua própria imaginação?

Além disso, Mr. Akin passa por alto um facto tão óbvio que deveria saltar-lhe aos olhos, a saber: que nem nesta passagem nem em nenhuma outra se declara que a Tradição tenha um valor sequer aproximado ao que o Apóstolo atribui aqui à Escritura. A menos que na bíblia de Mr. Akin haja alguma passagem que inculque: "Toda Tradição é inspirada por Deus e útil", etc.

[James Akin] Um apelo mais cuidadoso para esta passagem buscaria outras partes da mesma, como por exemplo, a última parte, cuja idéia central é que "o homem de Deus se encontra perfeito e preparado para toda boa obra". 

[Fernando Saraví] Provavelmente a tradução "perfeito" em Reina-Valera (e na Bíblia de Jerusalém, etc) se deve à variante textual "teleios" que aparece num antigo uncial. Portanto, toda a discussão e o apelo a outros textos que usam a palavra "teleios" se torna irrelevante, já que está a misturar coisas relacionadas mas não iguais. O termo "artios" significa adequado, sólido, preparado, capacitado. Segundo Schippers "se refere ao estado de ser equipado para uma tarefa delegada" (New International Dictionary of New Testament Theology; Colin Brown, Ed.; Grand Rapids: Zondervan, 1975-1978, 3: 349). Em igual sentido deve entender-se o particípio traduzido "completamente preparado".

Ora, São Paulo afirma aqui que as Escrituras podem instruir Timóteo para levá-lo à salvação em Cristo. Diz também que toda Escritura é "respirada por Deus", o que fala da origem divina delas; diz finalmente que capacitam completamente o homem de Deus para toda boa obra. Se isto não é suficiência – no correcto sentido, ou seja, como autoridade final - me pergunto o que poderá sê-lo. O outro aspecto importante mas por razões óbvias completamente omitido da discussão, é que não existe uma declaração similar sobre o valor da tradição como inspirada por Deus, capaz de levar à salvação, e de equipar perfeitamente o homem de Deus para toda a boa obra.

[James Akin] Certa vez, um anti-católico que conheço centralizou seu discurso sobre as palavras gregas usadas nessa expressão, "perfeito" (=artios) e "preparado" (=exartizo), que ele interpretava como "suficiente". Ele foi até capaz de citar um dicionário que aceitava a palavra "suficiente" como uma tradução possível para "artios" e um outro dicionário que apresentava "suficiente" também como possível tradução para "exartizo". Porém, algumas observações devem ser feitas quanto a este argumento: 

[Fernando Saraví] Certa vez, um anti-evangélico que conheço centralizou o seu discurso na atomização da passagem e evitar assim uma análise séria, para não falar de uma síntese.

[James Akin] 1. Os dicionários que aceitam o termo "suficiente", citam-no como terceira ou quarta opção de tradução para os termos "artios" e "exartizo". Nunca são tidos, porém, como a tradução preferencial, de maneira que não se pode recorrer a esse possível significado como prova final de que esse é o significado do texto, principalmente porque ainda existem mais três ou quatro possibilidades de tradução. 

[Fernando Saraví] A palavra grega artios tem uma variedade de significados que incluem apropriado, completo, capacitado, íntegro. O verbo relacionado exartizô significa terminar, completar, equipar, prover (New International Dictionary of New Testament Theology, Ed. Colin Brown, 3:349). O significado preciso que corresponde em cada instância deve determinar-se, evidentemente, pelo contexto. Em vez de fazer isso, Mr. Akin começa a fazer uma série de disquisições que não repetirei já que em vez de aproximar-nos de uma recta interpretação nos afastam dela. As razões pelas quais este apologista segue semelhante caminho deverão ser óbvias.

Como disse, em vez de responder detalhadamente às suas divagações, me limitarei a precisar alguns aspectos que considero salientes. Em primeiro lugar, não há indicação alguma que Paulo esteja falando hiperbolicamente aqui. Sem dúvida o Apóstolo está a fazer uma afirmação solene acerca da Escritura inspirada por Deus.

Em segundo lugar, não há dúvida em que, como Mr. Akin diz, tanto o substantivo como o verbo que mencionamos não qualificam a Escritura mas o "homem de Deus". Sobre as Sagradas Escrituras diz o Apóstolo que têm a capacidade de dar-lhe a sabedoria que leva à salvação em Cristo Jesus; e a seguir afirma que toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, arguir, corrigir e educar em justiça. Parecem afirmações suficientemente fortes. É esta Palavra divinamente inspirada que faz apto, capacita, torna íntegro ou "perfeito" para ensinar e para fazer. Se isto não é suficiência, me pergunto o que poderia sê-lo.

Em terceiro lugar e contrariamente ao que sugere Mr. Akin, o texto não diz que a Escritura "ajuda" a tornar íntegro o homem de Deus, mas que tem a capacidade de torná-lo assim. O "ajuda" é um subterfúgio para introduzir ideias que não estão no texto. Certamente que não exclui a existência de outros elementos formativos, como os ensinamentos da avó e da mãe de Timóteo, e do próprio ensinamento oral do Apóstolo. No entanto, o que coroa, valida e completa o ensinamento oral é a Escritura. Tudo o resto é válido na medida em que se conforma a ela.

A doutrina protestante não é que a Bíblia seja a única autoridade, mas a autoridade final ou suprema. A Escritura certamente dá testemunho da sua própria autoridade, como sendo inspirada por Deus. A tradição oral como uma fonte adicional de revelação é absolutamente desnecessária. A tradição oral como exposição e pregação da Palavra tem um papel importantíssimo, que de nenhuma maneira é negado, mas antes claramente evidenciado nos sermões e ensinamentos orais que podem ouvir-se nas Igrejas derivadas da Reforma. Ora, esta proclamação oral é válida na medida que responde fielmente às Escrituras. Os milhões que carecem de uma Bíblia ou não sabem ler beneficiam sem dúvida com a leitura da Escritura em voz alta e quando se lhes prega o que as Escrituras dizem. O suporte da mensagem não é o mais relevante. Pode ser escrita em papel, numa tela, em Braille ou lida em voz alta; continua sendo a Palavra de Deus, continua sendo suficiente.

Diz Mr. Akin: "Não é possível afirmar que a Bíblia é tão clara que não seja necessária a Tradição Apostólica ou o Magistério da Igreja para interpretá-la (posição conhecida como suficiência formal da Escritura, idêntica à doutrina protestante da "Sola Scriptura"). Portanto, ainda que a Bíblia ofereça toda a base necessária para a teologia, ela não nos ensina todos os detalhes." Este é um pronunciamento ex cathedra que dá por demonstrado precisamente o que se discute. De resto, bem diz Mr. Akin descontraidamente que "qualquer católico pode admitir, felizmente" a suficiência material das Escrituras. A chave está na palavra "pode". O facto é que não há acordo entre os católicos a tal respeito; por isso um católico "pode" admitir tal suficiência, sem que esteja obrigado a fazê-lo. Outros católicos rejeitam tal suficiência material, e portanto "podem" não admitir.

Diz também Mr. Akin: "Realmente o texto diz que a Escritura tornará o homem de Deus perfeito, mas esta perfeição não é dada ao leigo, mas ao clérigo, que recebe um treinamento especial como, por exemplo, o conhecimento da Tradição Apostólica, que o faz capaz de interpretar corretamente as Escrituras. Assim, o texto pressupõe um conhecimento que o homem de Deus já deve ter antes de tomar contato com as Escrituras". Segundo esta estranha interpretação, a Escritura aperfeiçoaria os clérigos mas não os leigos. É para começar um anacronismo, já que esta distinção não existia no tempo dos Apóstolos: embora existissem ministros, o clero ou herdade de Deus era coincidente com o seu laos ou povo. Quem pressupõe um conhecimento "tradicional" é Mr. Akin, não o texto que tão descuidadamente distorce. É certo que o texto se refere primariamente a Timóteo que de facto é um pastor, e que a preparação a que Paulo se refere é primariamente o ministério evangélico; mas não há nenhuma razão válida para postular que o mesmo conhecimento que é proveitoso para o «homem de Deus» não o seja igualmente para os crentes que não são ministros. O próprio Concilio Vaticano II contradiz tal ideia e Mr. Akin não pode ignorá-lo.

[James Akin] 10. Porém, além destas considerações (que levam em conta as traduções dos termos "artios" ou "exartizo"), há razões positivas pelas quais esta passagem (pouco importando a tradução dos referidos termos gregos) não pode ser usada para provar a teoria da "Sola Scriptura", a começar nas primeiras palavras do v.16: a frase "Toda Escritura" é normalmente entendida pelos protestantes como "Toda a Bíblia", ou seja, se refere a todo o cânon bíblico (AT+NT ). A isto soma-se o desejo protestante de fazê-la normativa para a teologia cristã. Assim, é natural para um protestante pensar que o termo "Escritura" no singular refere-se à Bíblia por inteiro e nada mais além da Bíblia. Todavia, não é assim que a mesma Escritura compreende… 

...

Quando Paulo quis referir-se à totalidade das Escrituras usou uma frase diferente em grego – algo assim como "hai pasai graphai" ("a totalidade das Escrituras") e não "pasa graphe", a qual significa simplesmente "cada Escritura" (fato este que um dos maiores defensores do uso de 2Tim 3,16-17, o anti-católico James White, teve que admitir publicamente). Isto é importante porque impossibilita totalmente o uso desta passagem para provar a teoria da "Sola Scriptura" já que, se alguém tentar usá-la, a única coisa que conseguirá provar será apenas o modo. Desta forma, se a passagem que diz "Cada Escritura é inspirada por Deus e é útil para o ensinamento, etc." prova a suficiência da Escritura, provaria realmente a suficiência que cada passagem da Escritura – ou ao menos cada livro da Bíblia – possui para a teologia. 

...

Isto seria um completo absurdo já que nenhuma passagem ou livro em particular da Bíblia contém o que necessitamos saber para fazer teologia. Vemos então que 2Tim 3,16-17 não pode ser usado para provar a "Sola Scriptura". Se fosse assim, mais que a "Sola Scriptura", provaria o modo utilizado. Paulo simplesmente está dizendo que cada escritura em particular contribui para que o homem de Deus seja preparado para todas as suas tarefas ministeriais, só isso… Não diz que cada Escritura em particular é suficiente para se fazer toda a teologia.

[Fernando Saraví] Abreviei esta bacharelada para evitar repetições. Como o fez consistentemente até aqui, Mr. Akin se põe com rodeios e, sobre a sua própria autoridade, caricatura os argumentos contrários para demonstrar que são absurdos. O que na verdade resulta absurdo, pois, é a sua própria elaboração.

William Hendriksen observa:

Citação:

Toda Escritura, distinta de "(as) Sagradas Escrituras" ... quer dizer tudo o que, por meio do testemunho do Espírito Santo na igreja, é reconhecido pela igreja como canónico, isto é, com autoridade.

Não é verdade que a ausência de artigo nos obrigue a adoptar a tradução de Reina-Valera 1909: "Toda Escritura" (no sentido de "cada"). A palavra Escritura pode ser definida igualmente sem o artigo (1 Pedro 2:6; 2 Pedro 1:20).... Mas mesmo se a tradução "toda Escritura" fosse aceite, o sentido resultante não teria grande diferença, porque se "toda (cada) Escritura" é inspirada, "toda a Escritura" é inspirada também.

Exposición de las Epístolas Pastorales em Comentario del Nuevo Testamento. Grand rapids, SLC, 1979, p. 340)

A declaração do Apóstolo não estabelece o cânon da Escritura, mas a sua origem, natureza e autoridade. Como católicos, ortodoxos e protestantes reconhecem por igual a natureza inspirada do Novo Testamento, é simplesmente razoável admitir que o dito aqui por São Paulo se aplica de igual maneira às Escrituras da Nova Aliança.


O que afirma o Apóstolo é que tudo aquilo que possa rectamente considerar-se Escritura foi respirado por Deus e daí provém o seu valor e utilidade. Que deva traduzir-se "Toda Escritura" ou "Toda a Escritura" (como o fazem a maioria das versões protestantes e católicas), ou "Cada Escritura" (como não o faz nenhuma versão que eu conheça) é irrelevante.

[James Akin] Se formos ainda mais além, perceberemos que sempre que os protestantes citam 2Tim 3,16-17, acabam por excluir da citação os dois versículos anteriores. 

[Fernando Saraví] Certamente, os versículos 14 a 17 formam uma unidade temática.

[James Akin] Isto não é bom – para eles. Se abrirmos a Bíblia nos versículos imediatamente precedentes, leremos o seguinte: 

"14. E tu, permaneça fiel ao que tens aprendido e de que estás firmemente convencido, sabendo de quem o aprendeste. 
15. E que desde a infância conheces as Sagradas Escrituras, que podem dar-te a sabedoria que leva à salvação mediante a fé em Cristo Jesus.
16. Cada Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para convencer, para corrigir e para educar na justiça,
17. assim o homem de Deus pode ser perfeito e preparado para toda boa obra".


Paulo exorta a Timóteo a permanecer fiel àquilo que está firmemente convencido, citando duas bases para essa crença:

1. Timóteo sabe de quem aprendeu tudo isso: foi através do ensinamento oral do mesmo apóstolo Paulo. Nós, igualmente, temos a mesma crença de Timóteo, baseada na Tradição Apostólica.

2. Desde a infância, Timóteo se familiarizou com as Santas Escrituras, constituindo esta a segunda base para a sua crença.

Assim, é justamente aqui, em 2Tm 3,14-17, onde temos um duplo recurso: a Tradição Apostólica e a Escritura Apostólica. Portanto, quando os protestentes citam os versículos 16 e 17, estão citando somente a última parte de uma dupla apelação que faz referência à Tradição e à Escritura, coisa que evidentemente não prova a "Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Isto não é bom para Mr. Akin. A alusão de Paulo à origem da aprendizagem de Timóteo não sustenta a sua tese. Paulo não diz de "quem" o aprendeste no singular (grego tinos), mas usa o plural "aqueles de quem" o aprendeste (grego tinôn). Em português o pronome "quem" é invariável, sendo igual tanto no singular como no plural mas no original grego emprega-se o plural. Claro está que isto não exclui o próprio Apóstolo mas também não alude com exclusividade a ele; a referência ao aprendido desde a meninice seguramente inclui a instrução da sua avó Loide e da sua mãe Eunice, como Paulo o explicita em 1:5.

Citação:

O que o Apóstolo acrescenta nos v. 14-15 é de suma importância doutrinal. Aí temos indicado a via como chega a nós a verdade revelada ou mensagem evangélica: tradição, Sagrada Escritura. Entre os mestres da fé há que contar, sem dúvida, a sua avó e a sua mãe (cf. 1,5), mas sobretudo Paulo (cf. 2,2; 3,10).

(Lorenzo Turrado, Epístolas Paulinas em Profesores de Salamanca: Biblia Comentada, 2ª Ed. Madrid: BAC, 1975, p. 413).

O facto de Timóteo ter sido exortado a reter e transmitir o que recebeu dos seus mais velhos e do próprio Paulo não afecta em nada o princípio de Sola Escritura. O que Paulo ensinou a Timóteo, e a muitos outros, persiste para sempre no NT. Jesus rejeitou como "doutrinas de homens" não quaisquer tradições, mas as dos mais religiosos e piedosos do seu tempo. Dificilmente rejeitaria a paradosis ou tradição apostólica dado que Ele próprio comissionou os Apóstolos para anunciar o Evangelho a toda a criatura. O que se discute aqui é a existência de tradições apostólicas autênticas e necessárias para a salvação que não se tenham registado no Novo Testamento.

[James Akin] Finalmente, temos que concluir que todos os argumentos que apresentamos constituem uma ajuda contra aqueles que, baseados em 2Tim 3,16-17, defendem a "Sola Scriptura".

[Fernando Saraví] Aqui Mr. Akin comete a falácia de afirmar que um grande número de argumentos é suficiente por si mesmo – ou seja, sem importar a sua qualidade - para provar a sua tese; pelo contrário, o que demonstra é a sua falta de consideração pelo texto e a fraqueza da sua postura.

[James Akin] A razão pela qual se distingue a "Sola Scriptura" da opinião católica de suficiência material é a seguinte: a "Sola Scriptura" reclama que não apenas a Escritura tem toda a base de dados necessária para se fazer teologia, como também é suficientemente perspicaz (ou seja, bem clara), de maneira que não se necessita de outras informações externas (como as que provêm da Tradição Apostólica ou do Magistério) para se interpretar corretamente a Escritura. O fato de mencionar muitos fatores que minam o uso de 2Tim 3,16-17 – cada um dos quais é fatal para se tentar usar a passagem – nos mostra que esta não é suficientemente clara para provar a doutrina da "Sola Scriptura". Se alguém não estiver convencido do que dissemos, mas considerar como opinião válida qualquer um dos pontos que apresentamos, então restará provado que 2Tim 3,16-17 não é suficientemente clara para se provar a doutrina da "Sola Scriptura" de forma que tal citação não poderá ser usada para essa finalidade.

[Fernando Saraví] Teria piada se não o dissesse com tanta solenidade. O que Mr. Akin quer fazer-nos crer aqui é que por ele não entender a passagem, ou não querer entendê-la, a Escritura não é perspicaz. Mas a sua ignorância é, no melhor caso, culposa.

[James Akin] E assim, tendo demonstrado desde o princípio que a passagem de 2Tim 3,16-17 (que parecia ser a mais oportuna e favorável) não é suficientemente clara para provar a doutrina da "Sola Scriptura", podemos afirmar, sem medo de errar, que nenhuma outra passagem estará apta para provar essa doutrina. Isto, então, nos mostra que a Bíblia não é suficientemente clara quanto a "Sola Scriptura", nem que possa ser tida como verdadeira.

[Fernando Saraví] Quem postulou que a passagem era a mais oportuna e favorável foi o próprio Mr. Akin. Agora diz que, afinal, não o é; e com isto demonstra, para sua inteira satisfação, a falta de clareza da Escritura. Não se me ocorre melhor resposta às suas puerilidades que o seguinte texto tomado de autores católicos que evidenciam uma compreensão mais adequada do mesmo texto:

Citação:

"Da Escritura diz o Apóstolo (v. 16) que é «divinamente inspirada» (theopneustos), afirmação básica, em virtude de cuja realidade os Livros Sagrados estão acima de qualquer outro livro, por mais profundo e bem composto que o suponhamos. Dessa realidade que está isenta de todo erro, flui como consequência necessária a sua utilidade para ensinar a verdadeira doutrina, para combater os erros, para corrigir os vícios e para fazer progredir na vida moral. Bem apetrechado com o seu conhecimento, o «homem de Deus» ou ministro do Evangelho (v. 17) estará em condições de desempenhar devidamente o seu ministério. Directamente Paulo está referindo-se ao Antigo Testamento, que era o que Timóteo tinha aprendido desde a sua infância (v. 14-15); mas a sua afirmação do v. 16 vale igualmente para o Novo, quando o catálogo de livros veterotestamentários foi ampliado com os neotestamentários".

(Turrado, o.c., p. 413).

Este versículo e o seguinte ... precisam a origem e a utilidade da Sagrada Escritura. Toda Escritura: no contexto presente se trata dos livros sagrados, e em concreto dos do AT, que Timóteo aprendeu desde a sua meninice. A ausência do artigo está a indicar que se toma aqui a Escritura em sentido distributivo; por conseguinte, tudo aquilo que seja na realidade um livro ou uma parte qualquer que possa com razão chamar-se Escritura Sagrada. Entra, pois, sob essa denominação paulina: toda Escritura, não só o AT com todas as suas partes, mas também o NT...

O interesse de Paulo é insistir perante Timóteo sobre a utilidade da Sagrada Escritura, mas afirma de passagem a inspiração, porque dela se deduz a sua origem e, consequentemente, a sua utilidade.

(Justo Collantes, S.I., Cartas Pastorales. Em La Sagrada Escritura. Texto y comentario por Profesores de la Compañía de Jesús, 2ª Ed. Madrid: BAC, 1965, 2:1058-1059).

 

[1] O artigo de James Akin traduzido em português encontra-se publicado no site http://www.veritatis.com.br/

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Inconsistências do catolicismo


1) O apelo a uma suposta "tradição apostólica" conservada na Igreja de Roma, que ninguém parece capaz de enunciar e delimitar depois de tantos séculos.

2) Ninguém parece poder dizer exactamente que coisas disseram Pedro, Paulo, João e os demais Apóstolos que não ficaram escritas mas são supostamente fundamentais para a doutrina e costumes.

3) O apelo à autoridade de Pedro como primeiro bispo de Roma, quando a evidência histórica, reconhecida até por historiadores católicos, não apoia tal ideia.

4) A construção tardia - basicamente a partir do século V - de um suporte doutrinal para sustentar o primado romano com base em textos que de modo algum apoiam tal pretensão.

5) A exaltação do magistério romano como autoridade inapelável na interpretação da Palavra de Deus quando claramente tal magistério ensina muitas doutrinas alheias às Escrituras.

6) A proclamação do carisma especial da infalibilidade papal depois de dezanove séculos de história, ao mesmo tempo que não parece existir nenhuma declaração infalível sobre quais ensinamentos papais são infalíveis.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um Papa filho de outro Papa

Segundo São Jerónimo, seu contemporâneo, Inocêncio I (papa 401-417) era o filho do seu predecessor Anastácio I (papa 399-401).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Como podem ser Apostólicos os protestantes se a(s) sua(s) igreja(s) não remonta nem aos últimos 700 anos?


A Igreja de Roma se preza de ser apostólica porque afirma ter uma sucessão ininterrupta de bispos que remonta ao primeiro século. Esta pretensão é totalmente falsa, para começar porque falta o primeiro elo da cadeia:

Não há evidência de que a Igreja de Roma tenha sido fundada pessoalmente por Pedro, nem que ele tenha sido o seu primeiro bispo.

Além disso, é falsa porque em muitas ocasiões o cargo foi disputado por dois ou mais contendentes, sem que claramente um deles represente a suposta "linha de sucessão".

E é falsa porque houve bispos de Roma que foram impostos ou apoiados pelo poder imperial.

E é falsa porque no século XV o concílio de Constança depôs três papas rivais e nomeou um quarto no seu lugar.

Portanto, simplesmente por razões históricas bem conhecidas, Roma não pode reivindicar para si uma "sucessão apostólica ininterrupta".

A única sucessão apostólica válida é a perseverança na doutrina dos Apóstolos tal como ela se expressa no Novo Testamento. Esta é a única prova necessária e suficiente da apostolicidade de uma congregação, tenha sido fundada há vinte séculos ou ontem. E com os acréscimos e distorções que fez à doutrina apostólica, Roma certamente também não cumpre este critério.

sábado, 27 de novembro de 2010

O cânon 28 de Calcedónia


No IV Concílio Ecuménico reunido em Calcedónia em 451, aprovou-se entre outros o seguinte cânon vigésimo oitavo:

Citação:

Seguindo em todas as coisas as decisões dos santos Padres, e reconhecendo o cânon, que acaba de ser lido, dos Cento e Cinquenta bispos amadíssimos de Deus (que se reuniram na cidade imperial de Constantinopla, a qual é a Nova Roma, em tempos do imperador Teodósio de feliz memória), nós também estabelecemos e decretamos as mesmas coisas concernentes aos privilégios da Santíssima Igreja de Constantinopla, que é a Nova Roma. Pois os Padres rectamente concederam privilégios ao trono da velha Roma, porque era a cidade régia. E os Cento e Cinquenta religiosíssimos bispos, motivados pela mesma consideração, deram iguais privilégios (isa presbeia) ao santíssimo trono da Nova Roma, julgando justamente que a cidade que é honrada com a Soberania e o Senado, e goza de iguais privilégios com a antiga Roma imperial, devia em assuntos eclesiásticos também ser magnificada como ela é, e contada a seguir a ela, de modo que, nas dioceses do Ponto, da Ásia e da Trácia, os metropolitanos somente e os bispos também das dioceses referidas que haja entre os bárbaros, deviam ser ordenados pelo referido santíssimo trono da santíssima Igreja de Constantinopla; ordenando cada metropolitano das referidas dioceses, junto com os bispos da sua província, os seus próprios bispos provinciais, como foi declarado pelos divinos cânones; mas que, como se disse acima, os metropolitanos das dioceses mencionadas acima deviam ser ordenados pelo arcebispo de Constantinopla, depois de as eleições apropriadas terem sido realizadas segundo o costume e terem sido comunicadas a ele.

Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series (= NPNF2). General Editors Philip Schaff, Henry Wace. Vol. 14, The Seven Ecumenical Councils. Volume Ed. Henry R. Percival. Grand Rapids: Eerdmans , Reprint 1988, p. 287.

Este cânon foi o último dos propostos na Sessão 16ª de 31 de Outubro. Os legados papais se tinham retirado (apesar de não desconhecerem a proposta), mas apresentaram no dia seguinte, na última sessão, um protesto formal. O cânon permaneceu em todo o caso: tinha sido subscrito licitamente por quase duzentos bispos, entre os quais estavam os de sedes que podiam sentir-se menosprezadas pela decisão (Antioquia e Jerusalém). Diversas desculpas dos legados, que incluíram o apelo a um acréscimo romano a um cânon do Concílio de Niceia, foram rejeitadas pelo sínodo.

Os «Cento e Cinquenta religiosíssimos bispos» a que se alude foram os que participaram no II Concílio Ecuménico (Constantinopla, 381). O cânon terceiro de dito Concílio estabelecia:

Citação:

O bispo de Constantinopla, no entanto, terá a prerrogativa de honra depois do bispo de Roma; porque Constantinopla é a Nova Roma.

NPNF2 14:178

O Papa Leão Magno recusou-se a subscrever o cânon 28 de Calcedónia e desconheceu o cânon 3 de Constantinopla sobre o qual aquele se baseava, com base em que nunca tinha sido enviado a Roma e que era uma violação da ordem nicena. A primeira coisa era provavelmente falsa, e a segunda o era com toda a certeza. O cânon sexto de Niceia (325) não dava uma ordem de honra, mas estabelecia certos privilégios para as sedes de Alexandria e Antioquia:

Citação:

Que prevaleçam os antigos costumes no Egipto, Líbia e Pentápolis, que o bispo de Alexandria tenha jurisdição em todas estas, já que o mesmo é habitual também para o bispo de Roma. De igual modo em Antioquia e nas outras províncias, que as Igrejas conservem os seus privilégios...

NPNF2 14:15

Contudo, em Roma e suas zonas de influência este cânon circulava com o acréscimo «A Igreja de Roma teve sempre a primazia».

Leão escreveu ao imperador Marciano (Ep. 104) e à imperatriz Pulquéria (Ep. 105) contra Anatólio, patriarca de Constantinopla, que segundo o Papa buscava somente o seu próprio interesse. Entre outras coisas, argumentava que por mais que a cidade de Constantinopla fosse de categoria imperial, «todavia as coisas seculares levantam-se sobre uma base diferente que as coisas divinas» (Ep. 104, NPNF2 12:75). Contudo, é claro que o fundamento que se dá no cânon terceiro de Constantinopla, como no seu homólogo de Calcedónia, se baseia tanto para Constantinopla como para Roma na sua categoria imperial, sem menção alguma da sua autoridade apostólica. Em bom português, concedem a estas cidades um lugar de honra por causa da sua importância como metrópoles.

Leão também escreveu uma dura reprovação ao próprio Anatólio (Ep. 106), o que explica o tom da resposta deste (Ep. 108). Na sua carta a Pulquéria, Leão desconhece a autoridade dos mesmos bispos que aclamaram o seu Tomo no Concílio:

Citação:

Mas os assentimentos dos bispos, que se opõem às regulações dos santos cânones compostos em Niceia em conjunto com a sua fiel Graça, não os reconhecemos, e pela autoridade do bem-aventurado Apóstolo Pedro os anulamos absolutamente nos termos mais amplos, obedecendo em todos os casos eclesiásticos àquelas leis que o Espírito Santo estabeleceu pelos 318 bispos para a pacífica observância de todos os sacerdotes de tal sorte que mesmo se um número muito maior sancionasse um decreto diferente do deles, qualquer coisa que fosse oposta à constituição deles não mereceria nenhum respeito.

Ep. 105 (NPNF2 12:77)

O escrito dogmático de Leão tinha sido recebido pelo Concílio com expressões tais como "Por boca de Leão falou Pedro!" e "Leão fala como Cirilo!" (em referência a Cirilo de Alexandria, campeão da ortodoxia em Éfeso, 431), e da elogiosíssima e quase aduladora carta que os orientais lhe dirigiram (Ep. 98). No entanto, os seus inflamados protestos contra o cânon 28 não tiveram nenhum resultado sobre os orientais. A sede romana tinha um lugar de honra entre os cinco patriarcados que incluíam também Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, mas não podia mudar a decisão de um Concílio Geral.

Citação:

Os Padres Conciliares receberam a leitura do documento de Leão com entusiasmo, declarando que «Pedro tinha falado através de Leão». Isto não era mais do que o que Leão cria acerca de todas as declarações papais ... Os bispos em Calcedónia, porém, não faziam tal suposição. Eles reconheciam a especial dignidade e a honra da sede apostólica, mas não supunham por isto que qualquer coisa que dissesse o seu bispo devia ser verdade, e parecem ter crido que nesta particular ocasião Pedro tinha falado por meio de Leão. Eles adoptaram a solução dele ao problema, portanto, não meramente porque era sua, mas porque a julgaram verdadeira. Para sublinhar isto, no cânon 28 do Concílio reafirmaram o ensino do Concílio de Constantinopla, de que Constantinopla tinha precedência depois de Roma, «porque é a Nova Roma».

Eamon Duffy, Saints and Sinners: A History of the Popes. New Haven: Yale University Press, 1997, p. 35.

Numa atitude escandalosa, Leão demorou por dois anos a sua ratificação dos cânones dogmáticos de Calcedónia – ratificação que era esperada de todos os bispos, e particularmente dos patriarcas - por causa do aborrecido cânon 28. Também os seus sucessores imediatos não admitiram reconhecer a Constantinopla, a «Nova Roma», a condição de segunda sede em honra.

Não obstante, os tempos mudam e com eles as prioridades.

Citação:

No Oitavo Concílio Geral em 869 [IV Constantinopla] os legados romanos (Mansi, XVI, 174) reconheceram Constantinopla como segunda na categoria patriarcal. Em 1215, no IV Concílio Laterano (op. cit., XXII, 991), isto foi formalmente admitido para o novo patriarca latino, e em 1439, no Concílio de Florença, para o patriarca grego (Hefele-Leclercq, Hist. des Conciles, II, 25-27).

The Catholic Encyclopedia, vol. 4 (1908), s.v. Constantinople, First Council of.

De modo que apesar de toda a argumentação de Leão e do recurso à sua «autoridade apostólica», por fim, inclusive a Igreja de Roma acabou assentindo o estabelecido pelos Concílios I de Constantinopla e de Calcedónia.

Concluo com um comentário de Karl Joseph Hefele (1809-1893), a maior autoridade católica do século XIX em matéria de história conciliar:

Citação:

Isto é, a prerrogativa atribuída à Igreja de Constantinopla é, apesar da oposição do legado romano, decretada pelo sínodo. Assim terminou o Concílio de Calcedónia depois de ter-se estendido por três semanas.

Não posso entender como é possível, depois de ler as actas precedentes, imaginar-se sequer por um instante que os bispos deste Concílio considerassem os direitos em discussão como de origem divina, e que o ocupante da Sede de Roma fosse, jure divino, supremo sobre todos os pontífices. É bem possível, claro está, afirmar, como alguns fizeram, que as actas tais como as temos foram mutiladas, mas o argumento implica não só muitas dificuldades mas também não poucos absurdos; e não obstante não posso senão pensar que até esta hipótese extrema é preferível a qualquer tentativa de reconciliar as actas como as temos agora com a aceitação por parte dos membros do concílio da doutrina de uma supremacia papal jure divino tal como é agora sustentada pela Igreja Latina.

Hist Conc 3:428 (citada em NPNF2, 14:295).

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quem é Maria?


Maria (Miriam) é a bem-aventurada jovem hebreia a quem Deus, por pura graça, escolheu para que fosse a mãe do Messias. Segundo a Bíblia, o anjo Gabriel anunciou a Maria esta singular eleição, e o modo em que, pelo poder do Espírito Santo de Deus, sem intervenção de varão, ela haveria de conceber (Mateus 1:18-21; Lucas 1:26-38).

Maria é uma verdadeira crente que foi obediente a Deus e deu à luz Jesus o Messias, ou Cristo, sem ter tido até então relações sexuais com seu esposo José (Isaías 7:14; Mateus 1:22-25).

Maria pode correctamente ser chamada a mãe de Deus pois o seu primogénito Jesus foi "Deus connosco" (Mateus 1:23). Claro está que ela não gerou o Verbo eterno, a segunda Pessoa da Trindade, o Filho único de Deus; mas Jesus, o ser que nasceu de Maria, era tanto Deus como homem.

Embora a expressão exacta "a mãe de Deus" não apareça na Bíblia, em Lucas 1:43 lemos que Isabel, cheia do Espírito Santo, disse a Maria: "Quem sou eu para que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?". Em todo o primeiro capítulo de Lucas, a palavra "Senhor" se utiliza como sinónimo de "Deus", de modo que a pergunta de Isabel é um testemunho claro da divindade de Jesus Cristo (ver também João 1:1; 20:28; Romanos 9:5; Hebreus 1:8; Tito 2:13).

Maria foi um modelo de esposa, de mãe e de crente. A sua fé e a sua obediência são um exemplo perpétuo para todos os cristãos. Isto é mostrado desde o princípio: Depois de o anjo lhe ter anunciado o propósito de Deus ela exclamou: "Eu sou a serva do Senhor; que Deus faça comigo como me disseste" (Lucas 1:38). E depois de ser saudada pela sua prima Isabel, Maria deu a glória a Deus: "A minha alma louva a grandeza do Senhor; o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador. Porque Deus pôs os seus olhos em mim, sua humilde serva, e desde agora sempre me chamarão ditosa." (Lucas 1:46-48).

Maria levou uma vida de oração e de meditação (Lucas 2:19). Nas bodas de Caná, ela disse aos serventes que obedecessem a Jesus: "Fazei tudo o que ele vos disser" (João 2:5). Sem dúvida ela orou pelo ministério público de Jesus, embora somente seja mencionada no princípio de tal período e no final deste, no Calvário (Marcos 3:31, Juan 19:25). A última vez que é nomeada na Bíblia, a encontramos orando com os demais discípulos. Quem tenha lido o Novo Testamento sabe bem que, fora desta menção em Actos 1:14 Maria somente é mencionada nos Evangelhos, e sempre em relação com a obra de Jesus Cristo. Paulo é o único apóstolo que, num contexto obviamente cristológico, alude a ela numa das suas cartas, e não menciona o seu nome: "...Deus enviou o seu Filho, que nasceu de uma mulher..." (Gálatas 4:4).

Consequente com o seu interesse central na pessoa e na obra de Cristo, o NT não nos informa absolutamente nada sobre a vida da bem-aventurada Maria antes da concepção de Jesus, nem depois de Pentecostes. Não nos diz como se chamaram os seus pais, se teve irmãos, nem onde, como e em que idade faleceu Maria.

Como não desejamos ir além do que Deus revelou na Sua Palavra, não podemos subscrever as seguintes doutrinas.

1. Que por uma graça especial de Deus a bem-aventurada Maria tenha sido completamente livre de pecado desde a sua concepção.

"...declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda a mancha da culpa original no primeiro instante da sua concepção por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do género humano, está revelada por Deus e deve portanto ser firme e constantemente crida por todos os fiéis..." (Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 8 de Dezembro de 1854)[1]

À diferença da concepção milagrosa de Jesus, a denominada imaculada concepção de Maria não tem fundamento bíblico. Pior ainda, contradiz o claro ensino apostólico que estabelece que o único sem pecado foi nosso Senhor Jesus Cristo (Hebreus 4:15; ver também 1 Pedro 2:22). Dos restantes declara o Apóstolo Paulo: "todos pecaram e estão longe da presença salvadora de Deus" (Romanos 3:23). As próprias palavras de Maria indicam que ela também se encontrava nesta triste condição, da qual teve de ser resgatada pela graça de Deus (Lucas 1:28, 47).

2. Que a bem-aventurada Maria tenha permanecido sempre virgem, tanto antes, como durante, como depois de parir Jesus.

"O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria (cf DS 427) mesmo no parto do Filho de Deus feito homem (cf DS 291; 442; 503; 571; 1880). Com efeito, o nascimento de Cristo «não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal» da sua Mãe (LG 57). A liturgia da Igreja celebra Maria como a "Aeiparthenos", a «sempre Virgem» (cf LG 52) ... Maria «foi Virgem ao conceber o seu Filho, Virgem no parto, Virgem depois do parto, Virgem sempre» (S. Agostinho, serm. 186,1); com todo o seu ser; ela é a «serva do Senhor» (Lc 1, 38)." (Catecismo da Igreja Católica, 499 e 510).[2]

O que a Bíblia claramente ensina é que ela era virgem ao conceber, e que permaneceu em tal condição até ao nascimento de Jesus (Mateus 1:25). Embora a concepção de Jesus tenha sido um milagre operado pelo poder do Espírito Santo, parece claro que a gravidez e o parto foram completamente normais. Não se menciona nenhum milagre ligado a eles (Mateus 1:25; Lucas 2:6-7).

Nada há nas Escrituras que afirme, implique ou exija a perpétua virgindade de Maria. Pelo contrário, o NT menciona em várias ocasiões os "irmãos e irmãs" de Jesus (Mateus 12:46-47; 13:56; Marcos 3:31-32; Lucas 8:19-20; João 2:12; 7:3-10; Actos 1:14; 1 Coríntios 9:5). Quem eram eles?

Antes de considerar diversas explicações, recordemos que a palavra grega adelphos, irmão, se refere primariamente a filhos da mesma mãe ou pai; por exemplo, Mateus 1:2, 11; 4:18; Lucas 3: 1, 19; João 1: 40. Secundariamente pode aludir a parentes próximos [Génesis 13:8], a vínculos raciais ou nacionais (Actos 2: 29,37; Romanos 9:3), ou espirituais e religiosos (Mateus 18:15; Romanos 1:13). Ora bem, entender a expressão "os irmãos" de Jesus neste último sentido é impossível, pois eles são claramente distinguidos dos discípulos: "Depois disto, [Jesus] desceu a Cafarnaum, acompanhado da sua mãe, seus irmãos e seus discípulos" (João 2:12). Por outro lado, durante o ministério terrenal de Jesus os seus irmãos não criam n`Ele (João 7:5). Consideremos pois outras explicações.

A) Os irmãos e irmãs de Jesus eram filhos de um matrimónio anterior de José.

Segundo esta noção, que é a explicação oficial da Igreja Ortodoxa Grega, José era um velho viúvo quando se casou com Maria. No entanto, estes supostos irmãos mais velhos nunca se mencionam nas narrações da infância de Jesus, e por outro lado Lucas 2:23 diz que Jesus foi o primogénito da família, ou seja, o filho mais velho.

B) Os irmãos eram parentes próximos, por exemplo, primos.

Esta é a explicação corrente da Igreja Católica Romana, e tem em seu favor o uso habitual do vocábulo hebreu ah (e o seu correspondente arameu aha), irmão, no sentido de parente. No entanto, esta opinião tem vários pontos fracos.

Em primeiro lugar, não há nenhum exemplo claro deste uso no Novo Testamento.

Em segundo lugar, nenhuma das listas de irmãos que incluem nomes próprios mencionam o parente mais famoso de Jesus, ou seja o seu primo João o Baptista.

Em terceiro lugar, parece decisivo que os Evangelistas, que escreveram em grego, fazem sempre uma cuidadosa distinção entre um parente e um irmão em sentido próprio. Assim, o anjo Gabriel chama Isabel, a prima de Maria, sua "parenta" [grego syngenis] e não sua "irmã" (Lucas 1:36). Segundo Marcos 6:4, Jesus disse: "Em todos os lugares se honra um profeta, menos na sua própria terra, entre os seus parentes [grego syngeneus] e na sua própria casa [o núcleo familiar, pais e irmãos]." Também pode ver-se Lucas 14:12 e 21:16.

Se os Evangelistas quisessem referir-se aos familiares de Jesus e não aos seus irmãos e irmãs carnais, com toda a probabilidade teriam usado o termo grego usual, como faz Lucas em 1:58 e 2:44. Em vez disso, e sem nenhuma aclaração, escreveram uniformemente "irmãos" [adelphoi].

C) Os irmãos e irmãs de Jesus eram filhos da mesma mãe.

Esta é a explicação mais natural e evidente, e os que a rejeitam o fazem por considerações dogmáticas e não pelos dados escriturais. Contrariamente ao que por vezes se insinua, esta opinião não menospreza de modo nenhum a bem-aventurada Maria, uma vez que para os hebreus a fertilidade era um sinal de bênção divina.

Esta óbvia explicação tem sido objectada com o argumento de que os irmãos de Jesus citados pelo nome em Mateus 13:55 e Marcos 6:3, ou seja Tiago, José, Judas e Simão, eram filhos de outras mulheres. Tal objecção se baseia no facto de que outras mulheres que se mencionam no NT terem filhos com os mesmos nomes; ver por exemplo Mateus 27: 56; 28:1; Marcos 10:35 com Mateus 20:20; Lucas 24:10. No entanto, nos tempos de Jesus todos estes nomes eram muito comuns, o que torna impossível provar que se trata das mesmas pessoas.

Outra objecção é que Tiago, o irmão do Senhor (ver Actos 12:7; 15:13) teria sido a mesma pessoa que Tiago o Menor, um dos Doze Apóstolos, e portanto não um filho de Maria. Esta ideia se baseia em Gálatas 1:19 onde Paulo chama "apóstolo" a Tiago, o irmão do Senhor (nesta opinião quiçá um primo). No entanto, é um facto que Paulo chamou "apóstolos" a cristãos que certamente não pertenciam ao grupo dos Doze, como por exemplo Andrónico e Júnias (Romanos 16:7). A palavra grega apostolos significa "enviado" e parece que São Paulo a utilizou num sentido mais amplo. Em 1 Coríntios 15: 5-7, Paulo nomeia primeiro Cefas (Pedro) e os Doze, e depois, como se fosse um grupo diferente de cristãos, "Tiago e todos os apóstolos". O facto de que a um dos Tiagos que se mencionam no Evangelho se o chamasse "o Menor" (ou "o Pequeno", ou "o Baixinho") não implica de modo nenhum que só houvesse dois Tiagos.

De qualquer modo, o que resulta definitivo e concludente é que os chamados "irmãos do Senhor" não eram discípulos seus antes da Ressurreição: Compare-se João 7:5, "Porque nem mesmo os seus irmãos criam nele" com Actos 1:14, "Todos eles se reuniam sempre para orar com algumas mulheres, com Maria, a mãe de Jesus, e com os seus irmãos."

Outra objecção à opinião que sustentamos é que se Jesus tivesse tido irmãos, teria encomendado a eles o cuidado da sua mãe. Um momento de reflexão nos permitirá dar conta de que o mesmo se aplica aos seus outros supostos parentes: poderia ter encomendado o cuidado de Maria a algum dos seus primos.

No entanto, para Jesus o parentesco mais importante era o espiritual. "Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Marcos 3:35). "Uma mulher da multidão exclamou: Feliz é a mulher que te deu à luz e te amamentou! Ele respondeu: Antes, felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e lhe obedecem!" (Lucas 11:27-28). Obviamente, Jesus teve mais confiança no seu discípulo do que nos seus irmãos carnais.

3. Que a bem-aventurada Maria seja a mãe universal de todos os crentes

"Ou seja, que ela, pelo facto de ter dado à luz o Redentor do género humano, é também, de certo modo, mãe benigníssima de todos nós, a quem Cristo Senhor quis ter por irmãos. «Tal – diz nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII - no-la deu Deus, que pelo facto de tê-la escolhido para mãe de seu Unigénito, lhe infundiu sentimentos verdadeiramente maternais ... ; tal, com o seu modo de operar, no-la mostrou Jesus Cristo, ao querer estar voluntariamente submetido e obedecer a Maria como filho à sua mãe; tal no-la proclamou desde a cruz, quando no discípulo João encomendou ao seu cuidado e amparo todo o género humano [João 19,26s]; tal, finalmente, se deu ela mesma, quando ao abraçar generosamente aquela herança de imenso trabalho que seu filho moribundo lhe deixava, começou imediatamente a cumprir todos os seus ofícios de mãe»." (Pio XI, Encíclica Lux veritatis de 25 de Dezembro de 1931[3]; ver Concilio Vaticano II, Lumen Gentium 61-63 e Catecismo da Igreja Católica, 964-970).

Que Santa Maria fosse a mãe de Jesus na ordem terrenal não implica que seja a sua mãe, e por extensão a nossa, também na ordem sobrenatural. Uma vez que Maria foi uma criatura que necessitou da redenção tanto como qualquer ser humano desde Adão em diante, na realidade na ordem da salvação esta "serva do Senhor" é uma irmã mais nova de Jesus Cristo o Salvador, e uma filha adoptiva do Pai celestial (veja-se Hebreus 2:10-18; João 1:12-13).

Enquanto padecia na cruz, Jesus disse à sua mãe, referindo-se ao seu discípulo amado, (provavelmente o apóstolo João), "Mulher, aí tens o teu filho" e ao discípulo, "Aí tens a tua mãe" (João 19:25-27). Estas palavras mostram a terna provisão de Jesus para a sua mãe, e implicam um encargo íntimo e familiar, feito pessoalmente a um dos discípulos e não a todos eles. Isto provavelmente se deveu a que este era o único deles que esteve presente no Calvário, e talvez também ao particular afecto que Jesus sentia por ele.

Além disso, do contexto resulta claro que era Maria quem necessitava do cuidado do discípulo, não ao contrário. O mesmo texto nos diz que ele honrou o encargo do Senhor, tomando ao seu cuidado a idosa e presumivelmente viúva Maria: "Desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua casa".

4. Que a bem-aventurada Maria tenha ascendido ao céu em corpo e alma

"... proclamamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado: Que a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial." (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, 1 de Novembro de 1950[4]; veja-se Catecismo da Igreja Católica, # 966, 974).

Estamos seguros de que a alma de Maria, como a de todo crente, está na presença gloriosa de Deus (veja-se por exemplo Lucas 23:43; 2 Coríntios 5:1-10; Filipenses 1:21-23; Apocalipse 6:9-11; 7:9). Uma vez que a Bíblia não diz nem uma palavra a este respeito, não é possível em contrapartida afirmar que a bem-aventurada Maria tenha ascendido em corpo e alma ao céu.

Também não pode afirmar-se terminantemente que isto seja impossível, já que existem indicações bíblicas de que no passado Deus concedeu tal privilégio a Enoque e a Elias (veja-se Génesis 5:24 e 2 Reis 2:11) e, portanto, não é inconcebível que o tivesse concedido também a Maria. No entanto, o Novo Testamento não diz absolutamente nada sobre este tema, e tal silêncio nos impede de afirmar esta doutrina.

5. Que possa pedir-se à bem-aventurada Maria o que a Bíblia ensina a pedir a Deus através de Jesus Cristo

"E esta maternidade de Maria perdura sem cessar na economia da graça ... Pois uma vez assunta aos céus, não deixou o seu ofício salvador, mas continua a alcançar-nos por sua múltipla intercessão os dons da eterna salvação. Por seu amor materno cuida dos irmãos de seu Filho que peregrinam e se debatem entre perigos e angústias e lutam contra o pecado até que sejam conduzidos à pátria feliz. Por isso, a bem-aventurada Virgem na Igreja é invocada com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Socorro, Mediadora. O que, no entanto, se entende de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia de Cristo, único Mediador." (Concilio Vaticano II, Lumen Gentium, 62[5]; veja-se o Catecismo da Igreja Católica, # 969, 975).

As Escrituras ensinam claramente que existe um único Senhor, Salvador e Sumo Sacerdote, que é o Senhor Jesus Cristo.

"E há também um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também" (1 Coríntios 8:6)

"Em nenhum outro há salvação, porque em todo o mundo Deus não nos deu outra pessoa pela qual nos possamos salvar" (Actos 4:12).

Não há dúvida que podemos orar uns pelos outros, mas quando se trata da mediação celestial, nada nem ninguém pode substituir ou complementar o ministério de Jesus Cristo:

"no templo celestial ... Jesus entrou como nosso precursor, tornando-se Sumo Sacerdote para sempre" (Hebreus 6:20).

Este único Senhor, Salvador e Sumo Sacerdote é também o único Advogado e Mediador em quem somos chamados a depositar toda a nossa esperança:

"Meus filhinhos, eu vos escrevo estas coisas, para que não pequeis; e se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" (1 João 2:1).

"Porque há um só Deus, e também um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1 Timóteo 2:5).

O facto de termos um profundo amor, uma enorme admiração e um reverente respeito por Maria não implica que esqueçamos que ela não é, nem nunca poderia ser, tão boa como Jesus, nem mais sábia que Ele, nem tampouco pode possuir, como Jesus possui, os atributos divinos de omnipotência e omnipresença. Jesus pode ouvir, e ouve, todas e cada uma das nossas orações. Também tem o poder de mediar perante o Pai e dar a resposta divina a elas. Isto é algo que jamais poderia ser concedido a alguma criatura, nem sequer aos anjos.

Com todo respeito, não vemos absolutamente nenhuma razão para depositar a nossa confiança nesta santa mulher que – como ela própria seria a primeira a reconhecer – não é tão boa, nem tão sábia, nem tão poderosa como Jesus Cristo. A bem-aventurada Maria nos deu um grande exemplo ao confiar primeiro em Deus (Lucas 1:38) e depois em Jesus, o Filho de Deus (João 2:22). Como o fez Maria, devemos deixar operar na nossa vida o Espírito Santo; só assim poderemos compreender cabalmente as coisas de Deus (1 Coríntios 2:6-16).


Notas

1. Enrique Denzinger, O Magistério da Igreja. Manual dos Símbolos, Definições e Declarações da Igreja em Matéria de Fé e Costumes (versão de D. Ruiz Bueno; Barcelona: Herder, 1963, p. 385-386).
2. Edição Livraria João Paulo II: Santo Domingo, 1993, p. 118-119. DS = Denzinger, o.c.; LG, Lumen Gentium (Concilio Vaticano II).
3. Denzinger, o.c., # 2271, p. 572-573.
4. Denzinger, o.c., # 2333, p. 613.
5. Vaticano II – Documentos conciliares. Buenos Aires: Edições Paulinas, p. 85-86.


Nota adicional sobre o significado do nome Maria:

De uma revisão sumária de diversas obras se depreende que não está clara a etimologia, nem, por conseguinte, o significado, do nome "Maria" (hebreu miryam).

Segundo o Vocabulário de Teologia Bíblica (Dir. X. Leon-Dufour; Barcelona: Herder, 1985) significava em arameu 'senhora' ou 'princesa', embora tal afirmação não seja documentada. De qualquer modo, no seu livro "Jesus o judeu" (Barcelona: Muchnik, 1977, pp. 117-130), Geza Vermes trata do título 'mar' como equivalente do grego 'kyrios', senhor, forma respeitosa de dirigir-se a alguém  importante. 'Mar' forma parte da palavra 'Maranatha'.

O Novo Dicionário Bíblico (Dir. J.D. Douglas e N. Hyllier. Buenos Aires: Certeza, 1991) diz que há uma 'ténue possibilidade' de que derive do egípcio marye, 'amada.'

A International Standard Bible Encyclopedia (Dir. G.W. Bromiley; Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1986) dá como possíveis significados (1) 'amada', da raiz egípcia mr ; (2) 'amada de Yahveh' (mr + yw/m); (3) 'roliça', de meri' ou (4) amarga, amargura, de mar.

Também poderia derivar de meri, rebelião.

O fim do discurso é que dada a incerteza acerca do significado do nome, não parece sensato construir algum argumento a partir de um dos supostos significados.
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