sábado, 3 de fevereiro de 2018

OS FINAIS DO EVANGELHO DE MARCOS


Os manuscritos gregos e de antigas versões (traduções) do Novo Testamento apresentam cinco finais diferentes para o Evangelho de Marcos, a saber:

1. Alguns finalizam no versículo 16:8 e simplesmente omitem os vv. 9-20: “Elas saíram fugindo do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. São assim os códices Sinaítico e Vaticano, L*, o manuscrito k da Antiga Versão Latina, a Siríaca sinaítica, e diversos manuscritos das versões antigas arménia, georgiana e etíope. Eusébio e Jerónimo notaram que a maioria dos manuscritos gregos que conseguiram examinar careciam do final longo. Aparentemente, nem Clemente nem Orígenes conheceram tal final. Finalmente, ainda alguns dos manuscritos que o possuem, apresentam observações ou marcas dos escribas indicando que se trata de uma adição.

2. Outros acrescentam o seguinte texto: “Mas [as mulheres] relataram resumidamente a Pedro e aos que estavam com ele tudo quanto lhes tinha sido dito. E depois disto o próprio Jesus enviou por meio deles, do oriente ao ocidente, a sagrada e imperecível proclamação da salvação eterna”. Entre eles apenas este versículo no códice Bobbiensis (k) do século IV ou V.

3. Ainda outros intercalam o versículo acima citado antes do final longo (16:9-20) em unciais dos séculos VII ao IX (L, Psi, 099, 0112), alguns minúsculos e cópias de versões antigas.

4. Muitos manuscritos contêm o final longo que inclui os versículos 9-20, alguns com o acréscimo do texto recém-mencionado. É o que se encontra no chamado Textus Receptus, e é atestado pelos unciais A C D L W Delta Sigma Theta 047, pela maioria dos manuscritos minúsculos e da Antiga Latina, da Vulgata, da siríaca curetoniana e Peshitta (“vulgata” siríaca), e da versão copta. Além de outros testemunhos posteriores, Ireneu e Hipólito o conheciam; aparentemente é citado pela Epistula Apostolorum e Taciano o incluiu na sua harmonia ou Diatessaron de finais do século II.

5. Finalmente, existe uma versão ampliada do final “longo” que imediatamente depois do versículo 14 (“..porque não haviam crido nos que o tinham visto já ressuscitado”) acrescenta: “E eles se desculparam dizendo «Esta era de iniquidade e incredulidade está debaixo de Satanás, que não permite que a verdade e o poder de Deus prevaleçam sobre a impureza dos espíritos. Portanto, revela agora a tua justiça». Assim falaram a Cristo. E Cristo lhes respondeu, «O fim de anos do poder de Satanás se cumpriu, mas outras terríveis coisas se aproximam. E por aqueles que pecaram eu fui entregue à morte, para que possam voltar à verdade e não pecar mais; para que possam herdar a glória espiritual e incorruptível de justiça que está no céu»”. Esta adição foi notada por Jerónimo, e é atestada pelo códice W adquirido em 1906 por Charles L. Freer, que data da última parte do século IV ou princípios do seguinte.

É claro que, nem todos estes finais têm o mesmo peso. É extremamente improvável que Marcos, com seu estilo simples, tenha escrito algo tão altissonante como “a sagrada e imperecível proclamação da salvação eterna”, ou “a glória espiritual e incorruptível de justiça”, expressões que delatam influências helenistas posteriores. Este facto, somado ao número e idade dos testemunhos, praticamente isenta de maiores considerações os finais listados (2) (3) e (5).

Apesar de alguns terem sustentado – por exemplo Lohse, p. 144-145 - que o Evangelho finalizava originalmente no versículo 8, isto também é pouco provável, em parte porque aparece como um final anticlimático, muito pouco apropriado para concluir “o evangelho de Jesus Cristo” (1:1).

Mais importante é a evidência fornecida pela última cláusula do versículo 8, “porque tinham medo” (grego efobounto gar). Metzger nota que “de um ponto de vista estilístico, terminar uma frase grega com a palavra gar é extremamente incomum e raríssimo – só se acharam relativamente poucos exemplos em toda a vasta gama de obras literárias gregas, e não se achou nenhum caso no qual gar se encontre no final de um livro. Mais ainda, é possível que no versículo 8 Marcos use o verbo efobounto para significar «estavam assustadas com...» algo (como o faz em quatro das outras aparições deste verbo no seu Evangelho [ver Marcos 9:32, 11:32, 12:12 e especialmente 11:18, “efobounto gar auton”, eles o temiam]). Em tal caso, obviamente é preciso algo para concluir a frase” (p. 228). Em suma, estes factos sugerem que falta algo do que Marcos originalmente escreveu, e que tal ausência motivou mais tarde a aparição de diferentes conclusões.

A versão que aparece nas nossas Bíblias como os versículos 16:9-20 também não parece a original, apesar de ser atestada por muitos manuscritos. Para começar, há uma transição muito abrupta entre o v. 8 e o 9; o sujeito do primeiro versículo (8) são as mulheres, enquanto Jesus é obviamente o sujeito no segundo (9). No entanto, no texto grego o sujeito está tácito: “E tendo ressuscitado cedo no primeiro [dia] da semana, apareceu primeiro a Maria a Madalena...” Este facto não resulta evidente em muitas versões em português porque os tradutores incluem habitualmente o nome de Jesus nesta frase.

Em segundo lugar, no v. 9 se fala de Maria Madalena como se não tivesse sido mencionada antes, quando já se falou dela no relato marcano da crucificação, sepultura e ressurreição. O resto das mulheres desaparece da cena, ainda que tivessem sido comissionadas para relatar a ressurreição no v. 7. No mesmo versículo o anjo anuncia que verão Jesus na Galileia, mas as manifestações do Ressuscitado dão a impressão de ocorrer na área de Jerusalém; pelo menos, não é mencionada a Galileia.

O estilo destes versículos difere também da linguagem habitual de Marcos. Das 101 palavras gregas dos versículos 9-20, há 75 significativas (excluídos conjunções, artigos e nomes próprios), das quais 15 não aparecem no resto do Evangelho e 11 que aparecem, usam-se com um sentido diferente. Mesmo considerando a diferença do tema, a linguagem se apresenta prima facie como não própria de Marcos.

Também não há no resto do segundo Evangelho nenhuma recriminação tão severa como a indicada no versículo 14. Por outro lado, a promessa de imunidade diante das serpentes e do veneno não só é alheia a Marcos, mas aos outros três evangelhos, e ao resto do Novo Testamento.

Há quem pense que os versículos 9-20 são uma tentativa de harmonizar o relato de Marcos com os dos outros Evangelhos canónicos; são desta opinião por exemplo Bruce e Linnemann (citado por Kümmel). Por outro lado tal “conclusão foi contestada, com muito acerto” (Leon-Dufour), por Joseph Hug, numa tese doutoral publicada em 1978. Esta análise literária indicaria que os versículos 9-20 seriam um acréscimo original que deve datar-se entre finais do século primeiro ou em todo caso antes de meados do segundo (Metzger, p. 297). O acréscimo teria tido como propósito fornecer instruções missionárias à comunidade cristã de fala grega com tendências carismáticas. Deste ponto de vista, Marcos 16:9-20 seria um testemunho muito primitivo proveniente da Igreja sub-apostólica.

Em suma, considerada toda a evidência, aparentemente o texto autêntico e original de Marcos, tal como este Evangelho foi conservado, termina em 16:8. Portanto, não é prudente basear doutrinas nos versículos 9-20.


Bibliografia

Bruce, Frederick Fyvie: Answers to questions. The Paternoster Press, 1972 (p. 155).

Kümmel, Werner Georg. Introduction to the New Testament. Rev. English Ed. Trad. Howard Clark Kee. Nashville: Abingdon Press, 1975 (p. 98-101).

Ladd, George Eldon. Crítica del Nuevo Testamento: Una perspectiva evangélica. Trad. Moisés Chávez. El Paso: Mundo Hispano, 1990 (p. 56-59).

Leon-Dufour, Xavier. Los evangelios sinópticos. Em Augustin George e Pierre Grelot (Dirs.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Trad. J. Cabanes e M. Villanueva. Barcelona: Herder, 1982 (pp. 293-295).

Metzger, Bruce M. The text of the New Testament: Its transmission, corruption and restoration, 3ª Ed. New York: Oxford University Press, 1992 (p. 226-228, 296-297).

Wessel, Walter W.. Mark. Em Frank E. Gaebelein (Gen.Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984 (8:791-793).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

AGNUS DEI


Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor. (Prov. 19:21)

domingo, 19 de novembro de 2017

Uma sucessão apostólica… inverificável


Afirma a New Catholic Encyclopedia:

«Deve admitir-se francamente que o viés ou deficiências nas fontes torna impossível determinar, em certos casos, se os pretendentes eram papas ou antipapas... Os autores calculam variavelmente o número de antipapas: Baümer conta 33 colocando três outros entre parêntesis como papas legítimos; Amanieu, 34; Frutaz, 36 mais alguns duvidosos e nove designados impropriamente; Moroni, 39. Desde 1947 o Anuário Pontifício do Vaticano tem publicado a lista de papas de Mercati que inclui 37 antipapas no texto. Todas as listas estão sujeitas a reservas, e o catálogo Mercati tem provocado divergências».

New Catholic Encyclopedia (CUA, 2nd ed., 2003), 1:530b.

Portanto, se a sucessão apostólica servisse para alguma coisa, a igreja hoje estaria numa situação de impraticabilidade, sem saber exatamente quem são os legítimos sucessores dos apóstolos, uma vez que é impossível determinar a validade da sucessão apostólica que os bispos reclamam.

Por exemplo, o atual papa Francisco pode descender tanto de uma linha válida como inválida da sucessão apostólica. Simplesmente não há possibilidade de saber.

Quando alguém diz que o papa Francisco é o sucessor de Pedro, através de uma linha ininterrupta de bispos, faz uma afirmação no vazio que não pode de modo algum ser sustentada documentalmente. É um completo salto no escuro.

O caricato é que as prerrogativas atribuídas ao papa, incluindo a sua infalibilidade ex cathedra, dependem da validade da sua sucessão apostólica, a qual não só não pode ser determinada infalivelmente, como é mesmo impossível determiná-la através dos dados da história. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Arqueologia Bíblica


Mais uma forte evidência da confiabilidade geral do Texto Massorético aqui

Dezenas de artigos sobre Arqueologia Bíblica podem ser encontrados aqui:

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/0

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/1

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/2

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/3

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Fé na Bíblia ou fé cega no Magistério?


A Igreja Católica Romana está dividida entre o Magistério, constituído pelo clero, principalmente o Papa e os bispos em comunhão com ele, e os leigos que são os crentes comuns. Os leigos estão obrigados a acreditar no que o Magistério ensina, porque o Magistério é considerado a voz autorizada da verdade. Esta situação cria uma bizarria epistemológica na relação entre leigos e Magistério, uma vez que o leigo vê os ensinos do Magistério como leis a ser obedecidas juridicamente. Em questões do âmbito da «verdade» isto redunda no absurdo de para um leigo a verdade ser estabelecida «por decreto» do Magistério. Os leigos estão como num estado de niilismo filosófico. A única forma de chegarem ao conhecimento de uma verdade em questões de fé é através do ensino do Magistério.

No caso particular da Bíblia é comum os leigos católicos, aqueles doutrinados pelos sites de apologética católica, dizerem que acreditam na Bíblia porque a “Igreja”, leia-se Magistério Romano, manda acreditar na Bíblia, ou que acreditam na inspiração da Bíblia porque o Magistério diz que os livros da Bíblia são inspirados, só e apenas por isto. Na cosmovisão de um leigo não há outra forma de dar crédito à Bíblia ou de saber que a Bíblia é inspirada por Deus a não ser «por decreto» do Magistério. Ou seja, a confiabilidade e a inspiração da Bíblia é estabelecida «por decreto», não interessa se o Magistério tem bons ou maus argumentos, aliás, está fora do alcance do leigo ajuizar se os argumentos do Magistério são bons ou maus.  

Por exemplo, este católico, com quem tive um breve diálogo, além de se ter suicidado epistemologicamente à segunda mensagem, nem sabe que o fundamento do seu Magistério para ensinar que os livros da Bíblia são sagrados e canónicos é porque os considera inspirados por Deus. Para ele, os livros da Bíblia são sagrados e canónicos, porque simplesmente o Magistério diz que são. E, na verdade, para o leigo católico o fundamento que o Magistério possa ter para ensinar uma doutrina é irrelevante. O que conta é o «ditame» do Magistério. Não é por acaso que acreditam em coisas tão infundadas como a imaculada conceição, a transubstanciação, ou a infalibilidade papal.  

Estamos, portanto, perante uma situação epistemologicamente bizarra que conduz a uma equivocada visão do que é a Bíblia por parte do leigo.

A Bíblia não é um documento legal emitido por uma autoridade eclesiástica, que confere «por decreto» autoridade àqueles determinados livros que doutra forma não a teriam, e a que se tem que obedecer por força de lei.

Não, a Bíblia são relatos históricos, ensinamentos e testemunhos de vários autores transmitidos ao longo de gerações e que nós recebemos e, aos quais podemos dar crédito ou não - sim, podemos, a razão e os sentidos ajudam-nos a discernir a verdade e a dar passos de fé plausíveis, o niilismo filosófico não é cristão. Uma vez dado crédito ao conteúdo da Bíblia, segue-se logicamente que temos de considerá-la como inspirada por Deus, porque ela mesma reclama ser de origem divina. A seguir, a experiência pessoal e o testemunho do Espírito Santo no crente também lhe confirmam a sua inspiração divina.

Portanto, para o crente na Bíblia, ela tem uma autoridade intrínseca que vem do seu autor e não depende de sanção humana em geral nem eclesiástica em particular.

Na vida real podemos observar que quando uma pessoa recebe uma Bíblia, ela vai considerá-la autorizada ou não, na medida em que achar o seu conteúdo confiável, e segundo o que ela vai experimentar através dela na sua vida, e não porque um grupo qualquer no passado, que ela nem conhece, «decretou» que a Bíblia tem autoridade e é inspirada por Deus. Seria realmente absurdo que tal pessoa acreditasse que a Bíblia tem autoridade e é inspirada por Deus só e por este motivo. Implicaria acreditar que a verdade se estabelece «por decreto».

Resumindo, a autoridade da Bíblia é independente da autoridade Igreja. Ser verdadeira é a única condição necessária e suficiente para a Bíblia ter autoridade. É a verdade que é autoritativa e obriga.

Os cristãos confessam a Bíblia, exercem fé nela e proclamam a sua verdade, não obedecem ex nihilo a um magistério eclesiástico autossubsistente.

domingo, 5 de novembro de 2017

LUTERO E A CIÊNCIA


Os seguintes extratos são do artigo intitulado "Lutero e a Ciência" de Donald Kobe, professor de física na Universidade do Texas:

Sem a Reforma, a ciência moderna se teria provavelmente desenvolvido de todo o modo por causa do ethos da racionalidade e da doutrina da criação que conduz a ela. A Reforma, porém, acelerou o desenvolvimento pela sua crítica do escolasticismo e a sua ênfase na observação direta da natureza. Lutero foi chamado o Copérnico da teologia enquanto, por outro lado, Copérnico foi chamado o Lutero da astronomia... Na filosofia natural ou ciência, as perguntas acerca da natureza já não se respondiam primariamente mediante citações de Aristóteles e dos escolásticos, mas atentando para a observação e para a experimentação na própria natureza. Similarmente, depois da Reforma, os protestantes não respondiam já perguntas de teologia primariamente por citação de filósofos e teólogos escolásticos, mas virando-se diretamente para a Bíblia. Lutero interpretou a Escritura perguntando: Qual é o significado claro e direto do texto? Os cientistas interpretam a natureza da forma mais simples possível usando o mínimo número de hipóteses.

Lutero acreditava que o mundo estava no começo de uma nova era, a qual traria não somente uma reforma na religião mas também um novo apreço pela natureza. Nas suas informais “Conversas à Mesa” disse:

«Estamos no amanhecer de uma nova era, pois estamos começando a recuperar o conhecimento do mundo externo que foi perdido pela queda de Adão. Agora observamos apropriadamente as criaturas... Mas pela graça de Deus já reconhecemos na mais delicada flor as maravilhas da divina bondade e omnipotência [paráfrase de Romanos 1:20]».

Lutero estava aberto aos autênticos avanços científicos da sua época. Apreciava as invenções mecânicas do seu tempo.

Aceitou o uso dos medicamentos para tratar as doenças ... A alguém que disse que não é permissível para um cristão usar medicamentos, Lutero lhe replicou retoricamente, “Você come quando está esfomeado?” Segundo Andrew White, esta atitude de Lutero fez que as cidades protestantes da Alemanha estivessem mais dispostas do que outras a admitir a investigação e dissecção anatómica.

Lutero aceitou a astronomia como ciência, mas rejeitou a astrologia como uma superstição pois não pode ser confirmada por uma demonstração... por exemplo, Lutero estava disposto a aceitar a conclusão dos astrónomos de que a lua é o mais pequeno e baixo dos “astros”. Interpretava a Escritura que chamava o sol e a lua “grandes luminárias” como acomodada à aparência dos fenómenos.
...
Em conclusão, a influência luterana sobre o desenvolvimento da ciência foi geralmente positiva. Lutero, e também Calvino, rejeitaram a ideia de que as vocações religiosas são superiores às seculares. Os homens e as mulheres devem servir a Deus realizando um trabalho honesto e útil com diligência e integridade. O trabalho científico revela a obra de Deus num universo que é tanto racional como ordenado. Também proporciona resultados que podem ser usados para o benefício da humanidade.
...
Lutero não estava primariamente interessado na ciência. Mas a Reforma criou um clima de abertura e aceitação de novas ideias, que em geral alentaram o desenvolvimento científico. Depois do julgamento de Galileu em 1633, as áreas protestantes da Europa dominaram os descobrimentos científicos [Owen Gingerich, "The Galileo Affair", Scientific American 247 (August 1982): 132-143].

http://www.leaderu.com/science/kobe.html

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O justo viverá pela fé


Pouco antes de morrer, em 1545, Lutero publicou a edição latina dos seus escritos, e no prefácio descreveu a sua experiência de descoberta da maravilhosa graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, como Paulo a anunciava aos Romanos. Eis o testemunho pessoal de Lutero:

«Naquele ano (1519) tinha voltado a interpretar os Salmos, e pensava estar melhor preparado por ter entretanto comentado as Epístolas aos Romanos, aos Gálatas e aos Hebreus. Desejava ardentemente entender bem um vocábulo usado na Epístola aos Romanos, no primeiro capítulo, onde está dito: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho’; porque até então o considerava com terror. Esta expressão: ‘justiça de Deus’ eu a odiava, porque o costume e o uso que fazem habitualmente dela todos os doutores me tinham ensinado a entendê-la filosoficamente. Entendia a justiça que eles chamam formal ou ativa, aquela pela qual Deus é justo e pune os culpados. Apesar da irrepreensibilidade da minha vida de monge, sentia-me pecador diante de Deus; a minha consciência estava extremamente inquieta, e não tinha alguma certeza que Deus fosse aplacado pelas minhas obras satisfatórias. Por isso não amava esse Deus justo e vingador, antes, o odiava, e se não o blasfemava em segredo, certamente me indignava e murmurava violentamente contra ele, dizendo: “Não basta que nos condene à morte eterna por causa do pecado dos nossos pais, e que nos faça sofrer a severidade da sua lei? É preciso ainda que aumente o nosso tormento com o Evangelho, e que também nele nos anuncie a sua justiça e a sua cólera?” Estava fora de mim, de tão perturbada que estava a minha consciência; e refletia sem trégua essa passagem de São Paulo, desejando ardentemente saber o que São Paulo tinha querido dizer. Finalmente, Deus teve compaixão de mim. Enquanto meditava dia e noite e examinava a conexão destas palavras: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho como está escrito: ‘O justo viverá por fé’, comecei a compreender que a justiça de Deus significa aqui a justiça que Deus doa, e por meio da qual o justo vive, se tem fé. O sentido da frase é pois este: o Evangelho nos revela a justiça de Deus, mas a justiça passiva, por meio da qual Deus, na sua misericórdia, nos justifica mediante a fé, como está escrito: ‘O justo viverá por fé’. Imediatamente me senti renascer, e me pareceu que se escancararam para mim as portas do paraíso. Desde então a Escritura inteira ganhou para mim um significado novo. Percorri os textos como a memória mos apresentava, e notei outros termos que se deviam explicar de modo análogo, como a obra de Deus, isto é, a obra que Deus faz em nós, o poder de Deus, mediante o qual ele nos dá força, a sabedoria pela qual nos torna sábios, a salvação, a glória de Deus. Quanto tinha odiado o termo: ‘justiça de Deus’, outrotanto o amava agora, exaltava esse dulcíssimo vocábulo. Assim essa passagem de São Paulo tornou-se para mim a porta do paraíso. Em seguida li o De spiritu et littera de Agostinho, e inesperadamente observei que interpreta a “justiça de Deus” de modo totalmente análogo, isto é, que entende a justiça da qual Deus nos reveste justificando-nos. E se bem que ele se exprima ainda num modo imperfeito, e não explique claramente tudo aquilo que diz respeito à imputação, tive a alegria de constatar que ensinava a entender, que a justiça de Deus é aquela pela qual somos justificados. Melhor preparado por todas estas reflexões, comecei pela segunda vez a interpretação dos Salmos […]»

(W.A. D. Martin Luthers Werke, Kritische Gesamtausgabe, Weimar, 1883-1983, 54, 185-186)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

"30 mártires" do colonialismo esclavagista


Foi ontem noticiado que o “Papa proclamou um novo santo português”.

Supostamente o sacerdote português Ambrósio Francisco Ferro, foi morto durante perseguições anticatólicas, por tropas holandesas.

“perseguições anticatólicas, por tropas holandesas”??? A sério?

e que “a chegada dos holandeses, de religião calvinista, provocou “a restrição da liberdade de culto para os católicos”, contexto em que se verifica o martírio dos futuros santos.” 

A sério? Não havia no contexto da época conflitos politico-sociais?

Que poder tinham os holandeses para restringir a liberdade de culto em território sob jurisdição portuguesa?

Imediatamente salta à vista que nesta história há algo muito mal contado.

É bastante estúpido apresentar os holandeses como autores de tais atos. Nada podia ser pior naquela altura para os holandeses do que um evento que acicataria ainda mais os ânimos dos colonos portugueses contra o governo holandês. Além disso, os holandeses eram conhecidos pela sua tolerância religiosa rara para a época.

Vejamos o que diz alguma historiografia séria sobre os holandeses da época dos acontecimentos:

“Durante essa época, a Igreja Reformada holandesa formou-se e se tornou proeminente. Conhecida por sua tolerância com outros grupos religiosos, inclusive católicos...” (COLLINS, Michael; PRICE, Matthew A. História do Cristianismo: 2000 anos de fé. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p. 141)

“Já nesse tempo [c. 1660], Nova York ou Nova Amsterdam como era então chamada, era uma cidade cosmopolita. Além de holandeses havia na cidade povos de muitas nações que tinham as mais diferentes organizações religiosas, pois o governo holandês permitiu ampla liberdade de culto. Havia huguenotes, puritanos da Nova Inglaterra, presbiterianos, escoceses, luteranos suecos e alemães, católicos romanos e judeus” (NICHOLS, Robert Hastings.História da Igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960, p. 264)

“Guilherme de Orange havia resistido à transformação da revolta contra a Espanha numa cruzada religiosa e esforçou-se para criar um ambiente tolerante na República Holandesa. Em consequência, luteranos, menonitas, várias seitas e até católicos conseguiram estabelecer seus próprios serviços religiosos” (LINDBERG, Carter. Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001, p. 366)

“[Os holandeses] não perseguiam pessoa alguma por opiniões religiosas”(CANTÚ, Cesare. História Universal – Vigésimo Segundo Volume. São Paulo: Editora das Américas, 1954, p. 21)

“Depois da sua independência total da Espanha, reconhecida em 1648, reina nos Países Baixos uma grande tolerância religiosa e filosófica. Numerosos teólogos e filósofos, perseguidos noutros países, aqui procuram refúgio, entre os quais Descartes e Espinosa, contribuindo bastante para o brilho intelectual e cultural deste país” (HERMAN, Jacques. Guia de história universal. Lisboa: Edições 70, 1981, p. 145)

“A Holanda acabava de reconhecer Guilherme por estatúder, proclamando a liberdade de culto igual para protestantes e para católicos (15 de julho de 1572)” (BLEYE, Pedro Aguado. Manual de Historia de España, Tomo II: Reyes católicos – Casa de Austria (1474 – 1700). 7ª ed. Madrid: ESPASA-CALPE, S. A., 1954, p. 633-634)

Cabe na cabeça de alguém que os holandeses, que no seu próprio país distinguiam-se pela sua tolerância religiosa, de repente tornam-se  em terra estrangeira, e onde estão em minoria, intolerantes religiosos da pior espécie capazes de cometer as maiores atrocidades?

Além de que “tropas holandesas” não é sinónimo de “protestantes holandeses”. Nem todos os holandeses eram protestantes calvinistas. Também havia holandeses de outras religiões inclusive católicos.

A razão de nesta história aparecerem as “tropas holandesas” misturadas com os índios (sem qualquer evidência documental), é para que possa ser possível atribuir ao massacre uma motivação religiosa e esconder o verdadeiro motivo da chacina. De facto, apresentar os índios sozinhos como autores de um massacre motivado por um sentimento anticatólico seria completamente inverosímil. E por isso junta-se os holandeses à narrativa.

Contudo, o verdadeiro motivo do massacre foi a vingança e o medo dos índios pela escravatura e maus tratos sofridos dos colonos portugueses, que nas palavras do padre António Vieira não percebiam que um índio não é um negro. Nada tem a ver com perseguições anticatólicas. Aqueles colonos foram mortos porque defendiam a escravatura dos índios (e dos negros) e não porque eram católicos.

É compreensível que a Igreja Católica prefira ser vítima de “holandeses calvinistas” do que de índios primitivos em território sob jurisdição de portugueses “católicos” (segundo a notícia). Assim esconde a verdadeira motivação do massacre e denigre os seus adversários de uma assentada. Mas não é a opção mais honesta.

Canonizem os santos e mártires que quiserem mas não denigram terceiros nem branqueiem a História. Não dignifica a instituição de que fazem parte nem honra quem pretendem “elevar aos altares”.


P.S. Um agradecimento ao Lucas Banzoli pela pesquisa bibliográfica :)

sábado, 14 de outubro de 2017

A vitória do paganismo sobre a Igreja


J.B. Bury, célebre historiador e académico classicista, afirma:

"Em cem anos o Império transformara-se de um estado em que a imensa maioria dos habitantes era devotada a religiões pagãs, num em que um Imperador podia dizer, com grande exagero, mas sem absurdo manifesto, que não sobreviveu um pagão. Tal mudança não se concretizou pela mera proibição e repressão. Não é exagero afirmar que o sucesso da Igreja na conversão do mundo gentio nos séculos IV e V foi devido a um processo que pode ser descrito como uma transmutação pagã do próprio Cristianismo. Se as crenças Cristãs e o culto tivessem sido mantidos inalterados na simplicidade inicial do seu espírito e forma, pode muito bem questionar-se se um período muito mais longo teria sido suficiente para cristianizar o Império Romano. Mas a Igreja permitiu um compromisso. Todas as religiões da época tinham em comum uma bruta superstição, e a Igreja não encontrou nenhuma dificuldade em oferecer aos convertidos crenças e cultos semelhantes àqueles a que eles estavam acostumados. Foi um problema relativamente pequeno que incenso, velas e flores, os acessórios de vários cerimoniais pagãos, fossem introduzidos no culto Cristão. Foi uma jogada importante e feliz para incentivar a introdução de um politeísmo disfarçado. Uma legião de santos e mártires substituiu a antiga legião de deuses e heróis, e o pagão hesitante podia gradualmente reconciliar-se com uma religião, a qual, enquanto lhe roubou a sua divindade protetora, a quem estigmatizou como um demónio, permitiu-lhe em compensação o culto de um santo protetor. Uma nova e banal mitologia foi criada, de santos e mártires, muitos deles fictícios; os seus corpos e relíquias, capazes de operar milagres como os que costumavam acontecer junto dos túmulos dos heróis, estavam constantemente a ser descobertos. O devoto de Atena ou Isis podia transferir o seu tributo para a Virgem Mãe. O marinheiro ou pescador Grego, que costumava orar a Poseidon, podia invocar São Nicolau. Aqueles que cultuavam em altares de pedra de Apolo no topo de colinas podiam demonstrar a mesma fidelidade a São Elias. O calendário dos aniversários Cristãos correspondia em muitos pontos aos calendários dos festivais Gregos e Romanos. As pessoas podiam mais facilmente aceitar a perda das celebrações pagãs relacionadas com o solstício de inverno e o equinócio vernal, quando encontravam as alegres celebrações da Natividade e da ressurreição associadas com essas épocas, e podiam transferir alguns dos seus antigos costumes para as novas festas. A data da Natividade foi fixada para coincidir com o aniversário de Mitra (natalis Invicti, 25 de dezembro), cuja religião tinha muitas afinidades com o Cristão. Este processo não foi o resultado, em primeira instância, de uma política deliberada. Foi um desenvolvimento natural, pois o Cristianismo não podia escapar da influência das ideias que eram correntes no seu ambiente. Mas ele foi promovido pelos homens de posição e liderança na Igreja."

(J.B. Bury, History of the Later Roman Empire, Macmillan & Co., Ltd, Vol. I Cap. XI, pg. 373)



http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/BURLAT/11*.html#3

sábado, 30 de setembro de 2017

Jesus e a Bíblia


Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem.

Mateus 24:37-39

Se Noé não é uma personagem histórica e o dilúvio nunca aconteceu, estas palavras de Jesus perdem toda a força e sentido. Podia-se dar muitos mais exemplos como este que mostram que a credibilidade de Jesus está intimamente ligada à credibilidade da Bíblia.

Alguns tentam dissociar Jesus da Bíblia, apreciando-o, desejando tê-lo ao seu lado e até invocando-o como autoridade, mas ao mesmo tempo depreciam e descredibilizam a Bíblia. Isso é uma completa tonteria. É a Bíblia que dá testemunho de Jesus. Se a Bíblia cai, Jesus cai junto com ela.

domingo, 24 de setembro de 2017

A primazia «petrina» nos séculos II, III, IV, V e VI


A primazia «petrina» tal como a entende a Igreja Católica é uma doutrina falsa que só conseguiu impor-se depois do Cisma entre oriente e ocidente. Roma definiu por si mesmo tal primazia, e claro está, somente ela crê nela.

Nos primeiros séculos da Igreja a sede romana era tida por muito excelente, e inclusive como a primeira entre iguais (primado de honra) mas não tinha autoridade sobre outras sedes patriarcais como Bizâncio, Alexandria, Antioquia, etc. 

No século II, quando o bispo romano Vitor quis impor a sua opinião acerca da páscoa, foi repreendido tanto pelos asiáticos como por Ireneu. 

No século III, quando o bispo romano Estêvão quis impor a sua opinião sobre o batismo dos hereges foi rejeitado frontalmente por Cipriano à cabeça dos bispos africanos e por Firmiliano à frente dos asiáticos. 

No século IV o bispo de Roma Libério foi censurado pela Igreja universal por assinar uma confissão de fé ariana (testemunhos de Atanásio, Hilário de Poitiers, Jerónimo, Hermas Sozómeno, Faustino e Marcelino).

No século V o bispo de Roma Zósimo considerou ortodoxos Celéstio e Pelágio, e teve que ser corregido pelos bispos africanos. Também lhe foi negado o direito de ouvir apelações, pelo que esgrimiu um cânon de Niceia, que na realidade era do Concílio local de Sárdica. 

No século VI reuniu-se o Concílio II Constantinopla, considerado o V Concílio Ecuménico, Vigílio era o bispo de Roma, e tal Concílio reuniu-se “sem a sua presença, e inclusive, apesar do seu protesto”, nas palavras do Professor Hubert Jedin, S.I.

Se a alguém parece que isto não demonstra que os bispos de Roma não possuíam pelo menos até ao século VI uma autoridade superior à de outros bispos, e que não tinham de modo algum a primazia de jurisdição e ensino que hoje a Igreja romana lhes atribui, é porque está cego à evidência histórica.
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