segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Como posso saber que a Bíblia é a Palavra de Deus?


É claro que se houvesse uma forma de provar inequivocamente e de maneira formal que a Bíblia é a Palavra de Deus, não haveria liberdade para rejeitá-la. Aceitar a inspiração divina das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Pacto exige, então, um passo de fé. No entanto, não se trata de uma fé cega ou irracional, já que existem numerosos factos que orientam a nossa escolha. Estes factos podem agrupar-se em três aspectos gerais. [1]

Primeiro, o texto da Bíblia foi transmitido fielmente e sem distorção ao longo de séculos: as suas referências históricas são comprováveis por registos seculares e arqueológicos, e mesmo em casos em que havia discrepância entre a história secular e o registo escritural, essa se resolveu em favor da Bíblia.

Segundo, as dezenas de homens que escreveram ao longo de mais de um milénio os diferentes livros da Bíblia mostram uma extraordinária unidade no que se refere aos aspectos centrais da fé. A veracidade do registo manifesta-se inclusive na crueza de algumas das suas partes, e também na franqueza com a qual se evidenciam as fraquezas de todos os heróis da fé, como os patriarcas, o rei David e os Apóstolos de Jesus.

Terceiro, a mudança que a leitura devota e consagrada da Bíblia é capaz de produzir no coração humano não tem comparação. É uma renovação verdadeiramente sobrenatural, que pode converter o mais malvado e abjecto membro da raça humana num servo consagrado a proclamar a salvação de Deus com as suas obras e as suas palavras.

Quarto, a aplicação dos princípios bíblicos às nossas vidas e às relações humanas em todos os seus aspectos produz resultados extraordinários. Como disse alguém, ninguém é ignorante se conhece a Bíblia, nem ninguém pode ser considerado sábio se a ignora.

[1] Um tratamento detalhado e convincente pode ver-se em Josh McDowell (Dir.), Evidência que exige um veredito (Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo, Arrowhead Springs,  1972, p. 22-76)

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Gregório Magno: O Papa que condenou o primado


A Igreja de Roma alega que o primado papal pode ser validado pelos factos da história em que era a prática universal da igreja desde o início. Esta alegação é falsa; os factos da história contradizem-na. As atitudes e práticas dos Padres e concílios revelam que a igreja nunca viu os bispos de Roma como sendo dotados de autoridade suprema para governar a igreja universal. E nunca houve um governante humano supremo na igreja. 

Este conceito foi repudiado pelo Papa Gregório Magno (590-604), quando censurou o bispo de Constantinopla por tentar pretender para si o título de "bispo universal". Ele insistiu que tal posição e título são ilegítimos na igreja de Jesus Cristo.

Em 587, Maurício, o imperador do Império Bizantino concedeu a João o Jejuador, Patriarca de Constantinopla, o título de "Patriarca Ecuménico", que foi mal interpretado e incompreendido pelos Romanos que o entenderam como "Patriarca Universal", pensando que significava "Patriarca Supremo" ou "Bispo Universal" de todas as igrejas.

O Papa Gregório Magno renunciou fortemente a qualquer sugestão de que ele fosse um "bispo universal" e se opôs fortemente ao uso do mesmo título por João IV.

Gregório advertiu que o uso do título de "Bispo Universal", por parte de João, era um sinal de que o anticristo estava próximo! Referia-se a este versículo: "Ninguém de maneira alguma vos engane; porque [a segunda vinda] não virá sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe, e se exalta acima de tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus." (2 Tess. 2:3-4)

O ponto mais importante aqui, é que, quando João IV, Patriarca de Constantinopla, começou a chamar-se "Bispo Universal", Gregório I, Patriarca de Roma, não disse: "Ei, esse título é meu, tu não tens direito de usá-lo", como se João estivesse a roubar o título e a autoridade de Gregório. Em vez disso, Gregório disse que nenhum homem devia considerar-se o "Bispo Universal", chamando-o sinal que o "anticristo" estava próximo.

William Webster comenta:

"... Gregório [Magno] atacou João por reivindicar para si o título de Bispo Universal de toda a Igreja, por Constantinopla ser a cidade capital do império atual. A sua cólera não era por causa das prerrogativas que supostamente pertenciam exclusivamente a Roma estarem a ser roubadas por um impostor, mas porque, de acordo com Gregório, esse título era uma inovação, uma expressão de orgulho diabólico que promovia a desunião e não devia ter lugar na Igreja. Gregório repudiou a ideia de que qualquer bispo pudesse ser o chefe supremo na Igreja, e explicitamente afirmou que todos os bispos eram iguais."

William Webster, The Church of Rome at the Bar of History (Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1995), p.61.

O título dado por Maurício a João o Jejuador, não era um título que reivindicava primazia, embora tenha sido mal interpretado como se reivindicasse, e quisesse dizer: "Eu estou acima de todos os bispos", a que Gregório respondia: "nós somos iguais".

O título de "Bispo Universal", que papas posteriores vieram a adotar, foi por Gregório Magno, chamado de tolo, orgulhoso, blasfemo, profano, ímpio, uma usurpação diabólica; a ambição de alguém que supunha ser como a de Satanás, e a sua assunção um sinal da aproximação do rei do orgulho, ou seja, do Anticristo. Os seus argumentos são extremamente fortes para impedir que ele mesmo e outros assumissem tal título ou autoridade.

Gregório estava determinado, e escreveu várias cartas protestando contra a concessão do título de “Pastor Universal” tanto a si como a qualquer outro prelado. Por exemplo, escreveu ao imperador Maurício para que proibisse ao patriarca de Constantinopla a adoção deste título: “Uma vez que não é a minha causa, mas a de Deus, uma vez que as leis piedosas, uma vez que os veneráveis sínodos, uma vez que os próprios mandamentos de nosso Senhor Jesus Cristo são transtornados pela invenção de uma certa orgulhosa e pomposa frase que seja o piedosíssimo senhor a cortar o lugar da chaga... Mas longe dos corações cristãos esteja esse nome blasfemo, por meio do qual é tirada a honra de todos os sacerdotes, no momento em que é loucamente arrogado para si por um (só).” [Epístola XX a Maurício César (NPNF 2 12:170-171)] 

No final pronunciou a dura frase... de que quem desejasse ser chamado bispo universal é precursor do anticristo. 

Henry Wace informa-nos:

"Nesta altura, ele (Gregório) parece ter ganho um apoiante, se não para o seu protesto, pelo menos para a suma dignidade da sua própria sé, em Eulógio de Alexandria, a quem ele tinha antes abordado sem resultado. Pois em resposta a uma carta desse patriarca, ele reconhece, com satisfação a dignidade atribuída por ele à Sé de São Pedro, e expressa habilmente uma visão curiosa do seu correspondente, bem como do patriarca de Antioquia, sendo um participante na mesma. "Quem não sabe", diz ele, "que a igreja foi construída e estabelecida sobre a firmeza do príncipe dos apóstolos, em cujo próprio nome está implícita uma rocha? Assim, embora houvesse vários apóstolos, há uma única Sé Apostólica, essa do príncipe dos apóstolos, que adquiriu grande autoridade; e essa sé está em três lugares, em Roma, onde ele morreu, em Alexandria, onde foi fundada pelo seu discípulo São Marcos, e em Antioquia, onde ele próprio viveu sete anos. Estes três, portanto, são uma única sé, e nessa única sé sentam-se três bispos, que são um n`Aquele que disse, Eu estou em meu Pai, e vós em Mim, e Eu em vós". Mas quando Eulógio numa segunda carta denominou o bispo de Roma papa universal, Gregório veementemente rejeitou tal título, dizendo: "Se você dá mais a mim do que me é devido, você rouba a si mesmo do que é devido a você. Nada pode redundar em minha honra o que redunda em desonra de meus irmãos. Se você me chama papa universal, você, desse modo, confessa não ser nenhum papa. Que nenhum desses títulos sejam mencionados ou ouvidos entre nós."

(Henry Wace, A Dictionary of Christian Biography, Gregorius, 51, I, p 425)

O sacerdote Ortodoxo Nicholas R. Alford da St. Gregory the Great Orthodox Church afirma:

"ele (Gregório) rejeitou a noção de supremacia universal para qualquer bispo e repreendeu o Patriarca de Constantinopla por usar o título de "Patriarca Ecuménico", que tinha sido dado a ele pelo Imperador. Gregório escreveu diretamente ao Imperador para explicar por que era errado qualquer bispo pretender estar acima de todos os outros, dizendo que "todo aquele que se chama a si mesmo, ou deseja ser chamado, Bispo Universal, é na sua exaltação o precursor do Anticristo, porque orgulhosamente se coloca acima de todos os outros". Às vezes Gregório é citado fora do contexto sobre o papado, mas quando os seus escritos são tomados como um todo, ele claramente não acreditava na jurisdição universal, mas em todos os bispos sendo iguais dentro do seu próprio território". 

Em linha: http://www.stgregoryoc.org/about-us/who-was-st-gregory-the-great/

E outro sacerdote Ortodoxo, Gregorio Cognetti diz:

São João, o Jejuador, Patriarca de Constantinopla (festa: 02 de setembro) foi contemporâneo de São Gregório. São João era muito piedoso e ascético. Ele rezava longamente durante a noite, e, a fim de evitar ser vencido pelo sono, ele costumava espetar pregos na cera de uma vela: o barulho dos pregos a cair num prato de metal colocado debaixo da vela acordavam-no se ele adormecesse. Ao longo da sua vida S. João não era alguém que buscasse a glória humana. No entanto, no ano 587 o Imperador Maurício deu-lhe oficialmente o título de "Patriarca Ecuménico". Hoje, este título soa um pouco pomposo, mas não era esse o caso no século VI. Ecuménico vem da palavra grega oikoumene, que significa literalmente "o mundo habitado". Devido em parte à falta de conhecimento geográfico e, em parte, ao orgulho típico dos conquistadores, os romanos identificaram o "mundo habitado" com o Império Romano, e, portanto, nessa época, "ecuménico" não era nada mais do que um sinónimo de "imperial". Constantinopla era a cidade "ecuménica". O chefe bibliotecário de Constantinopla, por exemplo, era chamado de "bibliotecário Ecuménico". Mas isso apenas implicava que ele era o bibliotecário da cidade imperial, e não que ele tinha autoridade sobre todos os bibliotecários do império. "Patriarca Ecuménico", portanto, em grego, era entendido apenas como "o Patriarca da cidade Imperial": somente um sinónimo de Patriarca de Constantinopla. Na verdade, este título é atestado em uso esporádico muito antes.

Todo o problema começou quando o título foi comunicado ao Papa de Roma: foi traduzido para o Latim como Patricharcha Universalis, ou seja, "Patriarca Universal". O Papa Gregório reagiu porque pensou que João estava pretendendo a supremacia na Igreja. É claro que este não era o objetivo do Patriarca João. Alguns escritores católicos romanos afirmam que Gregório estava reivindicando a supremacia para si mesmo. Mas não estava. As cartas de São Gregório Magno estão disponíveis para quem quiser lê-las. Os leitores podem julgar por si mesmos. Comecemos com esta carta que dirigiu ao Patriarca João:

"Considera, peço-te, que nesta presunção imprudente a paz de toda a Igreja está perturbada, e que [o título de Patriarca Ecuménico] está em contradição com a graça que é derramada sobre todos em comum; em cuja graça, sem dúvida, tu mesmo terás poder de crescer na medida em que determinares contigo mesmo a fazê-lo. E tornar-te-ás tanto maior quanto impeças a ti mesmo a usurpação de um título orgulhoso e tolo: e avançarás na proporção em que não estiveres empenhado na arrogância pela derrogação de teus irmãos ...

"Certamente Pedro, o primeiro dos apóstolos, ele próprio um membro da Igreja santa e universal, Paulo, André, João - o que eram eles senão cabeças de comunidades particulares? E, no entanto todos eram membros debaixo de uma única Cabeça ... os prelados desta Sé Apostólica, que pela providência de Deus eu sirvo, tiveram a honra lhes oferecida de ser chamados universal pelo venerável Concílio de Calcedónia. Mas, ainda assim, nenhum deles jamais quis ser chamado por tal título, ou apoderou-se deste nome desaconselhável, para que, se em virtude do ranking do pontificado ele tomasse para si a glória da singularidade, não parecesse tê-lo negado a todos os seus irmãos..." (Livro V, Epístola XVIII)

Não conhecemos a resposta de S. João o Jejuador. Provavelmente ele nem chegou a responder, porque morreu cerca de um ano depois da carta de São Gregório (o correio era muito lento naquela época, e um ano não era um tempo irrazoável para uma carta viajar de Roma até Constantinopla). Mas São Gregório continuou a expressar a sua opinião sobre o Episcopado Universal. Ele escreveu a Eulógio, bispo de Alexandria e Anastácio, bispo de Antioquia, em tais termos: "Este nome de Universalidade foi oferecido pelo Santo Sínodo de Calcedónia ao pontífice da sé apostólica, que pela providência de Deus eu sirvo. Mas nenhum dos meus antecessores jamais consentiu em usar um título tão profano, já que, em verdade, se um Patriarca é chamado Universal, o nome de Patriarca no caso dos restantes é revogado. Mas longe esteja da mente de um Cristão qualquer atitude que possa diminuir a honra de seus irmãos, por pouco que seja...." (Livro V: Epístola XLIII) 

Ao Imperador Maurício:

"Eu afirmo com confiança que todo aquele que se chama a si mesmo, ou deseja ser chamado, Bispo Universal, é na sua exaltação o precursor do Anticristo, porque orgulhosamente se coloca acima de todos os outros.” (Livro VII: Epístola XXXIII)

E de novo a Eulógio, Bispo de Alexandria:

"Vossa Bem-aventurança… se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós.  Pois em posição sois meus irmãos, em carácter meus pais... e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal. Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo ... Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente." (Livro VIII: Epístola XXX)

E, certamente, naquele tempo, alguém perguntou por que Deus permitia que uma coisa tão má acontecesse na Sua Igreja. A resposta hoje é clara. O Espírito Santo permitiu este mal-entendido, para que a oposição de um eminente Papa à autoridade papal ficasse bem documentada. Sem estas cartas não teríamos a evidência impressionante que, mesmo em Roma o direito de reclamar um primado não era reconhecido.

Todas as citações são de: A Selected Library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church (1894), P. Schaff and H. Wace eds. Vol. 12. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids, Michigan. The emphases are the author's. Reprinted with permission from The Dawn, July 1993.

Em linha: http://www.roca.org/OA/126-127/126e.htm

domingo, 3 de Agosto de 2014

Digno é o Cordeiro


"Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração"  (Efésios 5:19)





domingo, 6 de Julho de 2014

Sobre a homossexualidade e a defesa do casamento heterossexual monogâmico como único válido


A BASE NATURAL, GENÉTICA E ANTROPOLÓGICA DO CASAMENTO ENTRE UM HOMEM E UMA MULHER 

A instituição do casamento pretende solenizar a união entre um homem e uma mulher, um por cada sexo, já que é necessário um por cada sexo para existir um ser humano e para determinar a sua constituição. 

Do mesmo modo, verifica-se que a forma mais natural e saudável de desenvolvimento humano ocorre quando ele, desde a infância, é acompanhado pelo pai e pela mãe num ambiente de igualdade, complementaridade, respeito mútuo e amor. 

Se existissem 3 sexos e se todos fossem necessários para definir a totalidade e assegurar a continuidade do género humano e de cada indivíduo, certamente que se justificaria objetiva e logicamente um casamento de 3 pessoas. 

Diferentemente, se só existisse um sexo, justificar-se-ia até o casamento de uma pessoa consigo mesma! Mas a verdade é o género humano e a estrutura de cada indivíduo assenta na existência e complementaridade dos sexos masculino e feminino, de quem recebemos os nossos 46 cromossomas em partes iguais, assim se justificando ontológica, biológica e logicamente o casamento entre duas pessoas dos dois sexos existentes, o masculino e o feminino. 

O casamento entre um homem e uma mulher, sendo potencialmente reprodutivo, é considerado em todos os tempos e lugares a estrutura mais fundamental, universal, intemporal, consensual, equilibrada, natural e saudável para assegurar o desenvolvimento físico, psíquico e espiritual do género humano e de cada indivíduo. 

O casamento entre um homem e uma mulher tem uma base ontológica, biológica e lógica, não sendo uma invenção arbitrária do ser humano, expressão do preconceito ou do capricho. 

Todos, mesmo aqueles que se definem como homossexuais, somos o resultado da união de um homem e de uma mulher. 

O padrão heterossexual monogâmico é constitucional, estruturante e conformador do género humano e de cada indivíduo. 

Mesmo quem não reconheça a legitimidade e prevalência da doutrina teológica do casamento entre um homem e uma mulher como instituição divinamente estabelecida para o ser humano, sempre tem que reconhecer que os dados biológicos e antropológicos observáveis são inteiramente consistentes com ela.

HOMOFOBIA. PECADO PÓS-MODERNO?

É interessante que o movimento homossexual se insurge contra a existência de padrões morais objetivos, ao mesmo tempo que ataca a defesa do padrão heterossexual monogâmico, estruturante do género humano e de cada indivíduo em concreto, como se fosse algo de moralmente errado.

Ainda assim, com essa acusação, o movimento homossexual consegue intimidar alguns incautos pela veemência com que a mesma é formulada, beneficiando até de um certo efeito surpresa.

Porém, depois de um exame crítico, o conceito de homofobia afigura-se bio-antropo-ideologicamente claudicante, se não mesmo auto-refutante. Isto, pelos seguintes motivos.

Desde logo, ele não se apoia em nenhuma pretensão de transcendência ou objetividade moral, não passando por isso de uma construção retórica, de procedência subjetiva e arbitrária, com objetivos estritamente ideológicos e polémicos.

Ele não se baseia em nenhum padrão de moralidade objetiva ou código ético devidamente identificado e justificado, do ponto de vista histórico, religioso ou filosófico, tendo surgido como uma espécie de furúnculo discursivo na civilização ocidental e degenerado para um abcesso ideológico e normativo.

O mesmo não tem qualquer substância e sustentação do ponto de vista judaico-cristão, ou da generalidade das religiões do mundo e ideologias secularizadas, em que existe uma clara preferência pela relação entre homens e mulheres, porque destas depende a continuidade do género humano e a estrutura de cada indivíduo em concreto.

O conceito é destituído de substância mesmo do ponto de vista daqueles que acreditam na teoria da evolução das espécies, de micróbios para microbiologistas, a partir de genes egoístas, porque esta teoria, operando com base na sobrevivência dos mais aptos, aponta claramente para o favorecimento de uniões atual ou potencialmente reprodutivas e mesmo daquelas mais reprodutivas.

Não tendo qualquer fundamento teológico, moral ou biológico sólido, o conceito de homofobia é totalmente subjetivo e arbitrário, destituído de qualquer pretensão de normatividade e universalidade.

É hoje muito fácil inventar fobias de toda a espécie, falando alguns em xenofobia, homofobia, islamofobia, polifobia, zoofobia, etc., com o objetivo de estigmatizar os adversários ideológicos e impedir a discussão racional dos temas e problemas, especialmente os mais controvertidos.

Destituído de substância, o conceito de homofobia pode facilmente ser virado contra aqueles que o utilizam.

Ele é inerentemente contraditório e auto-refutante. Desde logo, pode-se legitimamente sustentar, pela mesma lógica, que a própria acusação de homofobia é em si mesma uma manifestação de ódio ontofóbico, biofóbico, heterofóbico ou mesmo teofóbico.

Além disso, considerando que todos somos o resultado de um espermatozoide masculino e de um óvulo feminino e herdamos cromossomas de um pai e de uma mãe, sendo por isso estruturalmente heterossexuais (mesmo os homossexuais), a homofobia também pode ser legitimamente descrita como uma propensão genética e estrutural do ser humano, pelo que, dentro da mesma lógica, teria inteira legitimidade para reclamar respeito e igualdade para si mesma.

Ou seja, a acusação de homofobia não passa de ar quente, de uma espécie de “pecado pós-moderno” sem qualquer substância teológica, biológica, antropológica, lógica e moral, e ainda com potencialidades auto-contraditórias.

IGUALDADE, DISCRIMINAÇÃO E DIFERENCIAÇÃO 

Invocando o princípio da igualdade, alguns defendem que se duas pessoas de sexo diferente podem contrair casamento perante a lei, então a mesma possibilidade deve ser concedida a duas pessoas do mesmo sexo. 

Se não for concedida essa possibilidade, existe uma discriminação, ou seja, uma diferenciação destituída de fundamento jurídico suficiente. 

Este argumento, a despeito da sua aparência de poder moral, assenta numa incompreensão generalizada do princípio da igualdade. 

Como é sabido, o princípio da igualdade sustenta que se deve tratar de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente. Além disso, ele reconhece que pode haver fundamentos objetivos de diferenciação não arbitrária. 

Quando se pretende definir e regular o casamento com base no princípio da igualdade, naturalmente que é necessário responder corretamente à questão de saber se existe, ou não, um fundamento lógico e objetivo para tratar de forma diferente um casal propriamente dito, (i.e. união de um homem e uma mulher) adscrevendo-lhe um estatuto e um tratamento jurídico especial e diferente do dispensado à relação entre dois homens ou duas mulheres ou à relação entre um homem e duas (ou mais) mulheres ou entre uma mulher e dois (ou mais) homens. 

Se não existir esse fundamento, então a tutela especial da união entre um homem e uma mulher seria realmente discriminatória. Inversamente, se existir esse fundamento, uma tutela especial da relação entre um homem e uma mulher seria uma diferenciação jurídica lógica e objetivamente fundamentada, não havendo por isso qualquer discriminação.

Em nosso entender, existe um fundamento lógico (biológico, antropológico) e objetivo para essa diferenciação e para a adscrição de um estatuto jurídico especial à união entre um homem e uma mulher. 

No género humano, à semelhança do que sucede com a maioria dos seres vivos, existem dois sexos: o masculino e o feminino. Sem a presença e a concorrência de qualquer deles, o género humano encontra-se física e psicologicamente incompleto. 

O ser humano resulta naturalmente da união biológica entre um homem e uma mulher. Isoladamente, tanto um como outra surgem como condição necessária mas insuficiente para o surgimento de outro ser humano. 

A união entre ambos afigura-se essencial. Já nessa união física está inerente a igual dignidade do homem e da mulher. 

O género humano completa-se na complementaridade física dos sexos sem a qual não pode sequer reproduzir-se. Além disso, ele enriquece-se na complementaridade psicológica, emocional e espiritual dos sexos.

Este princípio, fundamental para a caracterização do género humano, é abertamente desvalorizado pela união entre dois indivíduos do mesmo sexo. 

Nela, o masculino rejeita a igual dignidade e a complementaridade do feminino, ao mesmo tempo que o feminino rejeita a igual dignidade e complementaridade do masculino. 

Nela, cada um dos sexos afirma a sua autonomia, empobrecendo-se física e psicologicamente e colocando-se num beco sem saída reprodutivo. 

Todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares, são fruto da união entre um homem e uma mulher. 

Podemos dizer isso dos cerca de sete mil milhões de indivíduos que vivem hoje, desde a América à Austrália, desde o polo norte ao polo sul. Isso é verdade hoje, como o era na antiga Suméria ou nos tempos idos de Sócrates, Platão e Aristóteles. 

Trata-se de um bom exemplo de uma realidade válida em todos os tempo e lugares, exatamente como sucede com as leis da lógica ou da matemática. 

Cada ser humano é o resultado de um espermatozoide masculino e de um óvulo feminino, herdando 23 cromossomas de uma mulher e 23 cromossomas de um homem. 

Quer dizer, a heterossexualidade monogâmica é um princípio constitucionalmente conformador e estruturante de cada indivíduo, mesmo daqueles que alegam uma orientação sexual homossexual. 

Tanto basta para afirmar a dignidade inerente e incomparável da relação entre um homem e uma mulher. 

LGBT, UMA CATEGORIA ARTIFICIAL E ARBITRÁRIA 

Uma variante do argumento baseado no princípio da igualdade defende o casamento de duas pessoas do mesmo sexo com base na ideia de proteção de minorias. De acordo com este argumento, as pessoas que se sentem atraídas por pessoas do mesmo sexo são uma minoria que deve ser protegida. 

O argumento vai mais longe e coloca os homossexuais dentro da categoria de lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais (LGBT), também ela considerada minoritária e por isso mesmo digna de proteção. 

Este argumento considera que essa proteção passa necessariamente pela redefinição qualitativa do casamento, o que só por si é um salto ético, jurídico e social importante que não se vê muito bem como é que resulta das premissas de que se parte. 

No entanto, existem várias debilidades neste argumento que afetam a sua credibilidade. 

Em primeiro lugar, se o facto de uma minoria de pessoas se sentir sexualmente atraída por pessoas do mesmo sexo é razão suficiente para redefinir o casamento de modo a acomodar essa atração, não se vê porque é que idêntica deferência não terão as pessoas que se sentem sexualmente atraídas por várias pessoas do sexo oposto, várias pessoas de ambos os sexos ou mesmo por animais. 

Não dizia Charles Darwin que só por preconceito natural e arrogância é que o ser humano pode pretender ser diferente dos animais? 

Em segundo lugar, e este argumento liga-se ao primeiro, a redefinição do casamento com base na categoria minoritária LGBT levaria, desde logo, à admissão de casamentos bissexuais, que teriam que incluir pelo menos três pessoas: o indivíduo bissexual e duas pessoas de sexos diferentes adequadas à orientação sexual do primeiro. 

Em terceiro lugar, e também no encadeamento, a minoria LGBT corresponde a uma classe artificialmente criada com base em critérios dotados de subjetividade e arbitrariedade, deixando de fora aqueles que sentem um forte impulso polígamo e aqueles que se sentem sexualmente atraídos por animais e que se sentem incompreendidos e arbitrariamente excluídos. 

Finalmente, a artificialidade e arbitrariedade da categoria LGBT pode ver-se no facto de que todos os seus elementos podem ser legitimamente mobilizados como evidência da existência de um padrão heterossexual monogâmico na natureza, na medida em que todos, independentemente da sua orientação ou preferência, são o resultado de um espermatozoide masculino e de um óvulo feminino, transportando em si 23 cromossomas de uma mulher e 23 cromossomas de um homem. 

Ou seja, mesmo quando defendem as suas orientações, o próprio corpo dos membros da categoria LGBT afirma a especial dignidade de proteção da união entre um homem e uma mulher. 


IGUALDADE, DISCRIMINAÇÃO E DIFERENCIAÇÃO OBJETIVAMENTE FUNDAMENTADA 

Especial dignidade jurídica do casamento entre duas pessoas de sexos diferentes não é uma construção subjetiva. 

Ela não tem sido defendida e sustentada em todos os tempos e lugares apenas porque alguém se lembrou de privilegiar arbitrariamente os afetos heterossexuais monogâmicos e esquecer os seus congéneres homossexuais ou polígamos. Isso é assim, porque, objetivamente, a totalidade do género humano e de cada indivíduo em concreto só está cabalmente representada na presença do sexo masculino e feminino. Daí resulta a heterossexualidade do casamento, o seu elemento qualitativo estruturante. 

Além disso, verifica-se que são necessários dois e apenas dois indivíduos, um por cada sexo, para o nascimento e desenvolvimento físico e emocional equilibrado de cada ser humano. 

Daí a monogamia do casamento, o seu elemento quantitativo estruturante. 

Está amplamente demonstrado que cada ser humano que, por qualquer motivo, não conhece os dois ou um dos pais, quer saber quem são o seu pai e a sua mãe e preferiria ter sido criado e educado por e com ambos, numa relação de complementaridade e amor. Está igualmente demonstrado como o divórcio tende a causar sofrimento nas crianças envolvidas, por vezes com consequências psicossomáticas para a sua idade adulta. 

Esse é um dado objetivo, socialmente relevante que justifica a criação, por parte do ordenamento jurídico, de condições que favoreçam e dignifiquem a relação entre um homem e uma mulher. 

É isso que tem justificado o papel e a função que o casamento entre um homem e uma mulher tem desempenhado ao longo da história nas diferentes civilizações.

A HOMOSSEXUALIDADE NÃO ESCOLHIDA NADA TEM QUE VER COM CASAMENTO

A orientação sexual é frequentemente caracterizada como um padrão persistente de desejo afetivo, romântica e sexual por mulheres, homens ou por ambos. Considera-se, a este propósito, que a orientação sexual não é uma escolha. 

Porém, o argumento de que a orientação sexual não é escolhida e que por isso os homossexuais devem poder casar também é fraco. 

Em primeiro lugar, porque existem muitas outras propensões que não são escolhidas e que nem por isso são igualmente sancionadas e promovidas pelo direito. 

Por exemplo, os crimes de violação e abuso sexual têm sido justificados como o resultado de uma inclinação não escolhida. 

No que diz respeito à violação e agressão sexual, existem inclusivamente estudos científicos de instituições prestigiadas que, embora com argumentos que consideramos absurdos, apresentam essa propensão como natural e inata à luz da teoria da evolução. 

Do ponto de vista do autor da agressão sexual, trata-se também aí de um padrão persistente de desejo e atração, que só difere da definição de orientação sexual acima apresentada por nada ter de romântico. 

Por aqui se vê, que o simples facto de estarmos diante de propensões não escolhidas não é suficiente para justificar a sua dignidade de tutela jurídica. 

Em segundo lugar, não é inteiramente clara a interação entre fatores genéticos, epigenéticos e culturais na determinação do comportamento homossexual. 

Mas parece certo que a normalização do casamento homossexual poderá, por si só, estimular a generalização desse comportamento. 

A verdade é que a justificação do casamento heterossexual monogâmico nada tem que ver com questões de suposta orientação sexual, mas com a realidade biológica e antropológica indesmentível de que o género humano compreende dois sexos, o masculino e o feminino, dos quais depende, em partes iguais, a conceção e o desenvolvimento de cada ser humano.

As orientações sexuais são como os chapéus.... há muitas! 

A ESPECIAL DIGNIDADE JURÍDICA E SOCIAL DO CASAMENTO ENTRE UM HOMEM E UMA MULHER 

A especial dignidade jurídica do casamento entre um homem e uma mulher baseia-se no dado biológico e antropológico objetivo de que no género humano existem dois sexos, o feminino e o masculino, sendo a união biológica entre um homem e uma mulher o meio natural que conduz à reprodução e ao nascimento de cada indivíduo. 

E é também por estar em causa o desenvolvimento desse indivíduo, nas suas fase de infância, adolescência e juventude, que existe um interesse objetivo em promover a estabilidade dessa relação, num contexto de igual dignidade, respeito e amor, de forma a garantir a cada um as condições físicas e emocionais adequadas e necessárias desenvolvimento saudável de cada ser humano. 

E porque daí depende largamente a conduta desse mesmo indivíduo em sociedade, existe mesmo um interesse público em dignificar e estabilizar essa relação. 

Daí que faça sentido que o casamento juridicamente reconhecido e protegido seja entre dois seres humanos de sexos diferentes e não entre dois seres do mesmo sexo ou entre vários seres humanos de um ou ambos os sexos. 

Ou seja, de factos biológicos e antropológicos intemporais e universais resulta um imperativo moral e jurídico universalizável de proteger a união entre um homem e uma mulher e de incentivar e promover a sua estabilidade, no respeito pela integridade psíquica e física dos envolvidos. 

Os imperativos categóricos universais não se baseiam em orientações, preferências ou pulsões individuais. Dependem de realidades também elas universais. 

A predominância universal do padrão heterossexual monogâmico como elemento gerador e estruturante de cada indivíduo é mais do que suficiente para fundamentar racionalmente a especial dignidade do casamento entre um homem e uma mulher e rejeitar desvios sem qualquer fundamento. 

O CASAMENTO HETEROSSEXUAL MONOGÂMICO E A SEPARAÇÃO ENTRE DIREITO E RELIGIÃO 

Um argumento utilizado para defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo prende-se com a tradição de autonomia do direito face à religião, sustentando que a mesma não teve nem deve ter um papel determinante na definição do casamento. 

Este argumento tem vários problemas. 

Em primeiro lugar, dele não resulta nenhuma justificação para o casamento nem nenhum critério positivo ou negativo, quantitativo ou qualitativo. 

Dizer que o casamento é uma união civil é o mesmo que dizer nada, já que o direito civil, por si só, pode criar inúmeros casamentos, tantos quantos a imaginação permitir. 

Na verdade, nada impede que se escreva, no artigo 1577º do Código Civil, que se defina o casamento como a união estável entre um ser humano e um cão, ou entre uma parede e uma janela. 

Como vimos anteriormente, a razão fundamental para a especial dignidade social e jurídica da união heterossexual monogâmica radica no dado objetivo de que a mesma é estruturante do género humano e de cada indivíduo em concreto, sempre sendo assim em todos os tempos e lugares. 

Isto é assim, para todas as pessoas, quer tenham quer não tenham religião e independentemente de sexo, raça, ideologia ou (des)orientação sexual. 

A união entre um homem e uma mulher é anterior e superior ao Estado e ao direito. 

Não foi o homem que criou esta união. Foi ela que gerou o homem. 

A união entre um homem e uma mulher é constitutiva e estruturante do género humano e de cada indivíduo. 

Se uma ou mais confissões religiosas têm doutrinas acerca do casamento inteiramente consistentes com esse dado, como sucede com o Cristianismo, isso só abona em favor da racionalidade e universalidade dos seus valores e princípios. 

O CASAMENTO HOMOSSEXUAL E O ARGUMENTO DA INTOLERÂNCIA E DO ÓDIO

Um dos argumentos utilizados para sustentar a equiparação da união entre duas pessoas do mesmo sexo a duas pessoas dos dois sexos existentes apela à compaixão e à tolerância, acusando os defensores do casamento heterossexual monogâmico de ódio e intolerância. 

Trata-se também aqui de um argumento falho e débil, por vários motivos.

Em primeiro lugar, ele pretende fazer de conta que a relação heterossexual monogâmica é apenas uma entre várias orientações e preferências particulares, privadas e subjetivas, esquecendo o modo como ela é universal, pública e objetivamente baseada no relevo estruturante que a complementaridade de géneros e a relação entre um homem e uma mulher têm para o género humano globalmente considerado e para cada indivíduo em concreto. 

Em segundo lugar, se ele pretende associar a liberdade e a não discriminação com a possibilidade de casar com aquela(s) pessoa(s) por quem o indivíduo se sente atraído, não se vê com que base é que limita o casamento a duas pessoas do mesmo sexo e não o abre a mais pessoas de um ou ambos os sexos, como sustenta o islamismo, ou até a seres de outra espécie. 

Também essa postura pode ser considerada intolerante e especista. Na verdade, se os defensores das orientações e das preferências conhecem o carácter infindável de permutações e combinações sexuais possíveis, não se percebe porque é que, consistentemente, não advogam tantos casamentos quantas essas possíveis permutações e combinações. 

De acordo com premissas que acolhem, essa seria a única conclusão lógica de máxima tolerância e menos ódio. 

Em terceiro lugar, ele não leva na devida conta que numa sociedade democrática baseada em princípios de igual dignidade humana, e igualdade de género, a tolerância deve ter na racionalidade e na moralidade o seu fundamento e os seus limites. 

Há sempre que colocar limites à tolerância. 

Considerando que todos os indivíduos são o produto de uma união entre um homem e uma mulher, é inteiramente racional e razoável concluir que uma preocupação moral com as possibilidades concretas do bem estar de cada indivíduo deve assentar na universalização da especial proteção da união entre um homem e uma mulher, de acordo com princípios de igual dignidade e complementaridade de género, respeito e amor. 

Dessa união depende o indivíduo, incluindo o homossexual, não apenas para nascer, mas para também para ter condições de desenvolvimento física e psicologicamente rico, saudável e equilibrado, inteiramente consentâneo com a sua própria identidade genética e cromossomática. 

Isto, no pressuposto de que a promoção e estabilização seria benéfica para a generalidade dos indivíduos e, por consequência, para toda a sociedade. 

Não se percebe o que é que aqui poderá existir de intolerante, irracional ou odioso. 

O PADRÃO DO CASAMENTO DE UM DEUS QUE SE APRESENTA COMO LOGOS

Não se trata de apelar ao ódio ou à discriminação. Que confusão! 

Trata-se apenas de dizer que todos nós, em todos os tempos e lugares, mesmo aqueles que se definem como homossexuais, somos o resultado de um padrão heterossexual monogâmico que é constitutivo e estruturante da nossa própria identidade. 

O seu argumento sobre a compaixão prova demais, porque levaria à legalização da poligamia, da zoofilia, etc. 

Compaixão das pessoas não pode significar concordância com tudo o que fazem e todas as ideias que defendem, mesmo quando imorais e irracionais. 

O seu argumento sobre a felicidade não pensa na felicidade coletiva a curto, médio e longo prazo nem vê os efeitos que a (des)estruturação da sociedade com base em (des)orientações, preferências ou impulsos, desvalorizando a estrutura familiar básica, pode ter no número de abortos, mães solteiras, crianças abandonadas, violência juvenil, toxicodependência, abandono escolar, insucesso escolar, pobreza, doenças sexualmente transmissíveis, etc. 

Em vez de acusar os outros de ódio e intolerância examine os seus argumentos e leve-os às suas consequências. É o que eu me limito a fazer.

Os seus argumentos são tão subjetivos e irracionais que até os apelos a padrões universais, à lógica e à racionalidade são consideradas ofensivos e intolerantes. 

Quanto à poligamia na Bíblia, também aí se revela a sua impreparação. A Bíblia, como é um livro de verdade, narra o que as pessoas pecadoras e decaídas faziam, sem esconder nada. Mas ela é clara ao explicar que se afastaram do padrão de Deus. 

O padrão bíblico do casamento encontra-se em Génesis e retomado mais tarde por Jesus Cristo. 

Ele é claro. 

Génesis: 

"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." 
(Génesis 1:27) 

"Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne". (Génesis 2:24)

Jesus Cristo: 

"Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea. Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á a sua mulher, E serão os dois uma só carne; e assim já não serão dois, mas uma só carne." (Marcos 10:6-8)

A criação confirma inteiramente este padrão: todos somos o resultado de um espermatozóide e de um óvulo e, em condições normais, todos temos 23 cromossomas de um pai e 23 cromossomas da uma mãe. 

Deus estabeleceu um padrão moral e estabeleceu-o na natureza. Todas as variações humanas são, em boa verdade, corrupções desse padrão. 

Daí que seja importante dignificar, proteger, prestigiar esta relação, distinguindo-a de todas as degenerescências sem fundamento lógico, biológico, antropológico e... teológico. 

Ao combatermos a corrupção do casamento, combatemos a corrupção da sociedade. 


FonteComentários do participante “Criacionismo Bíblico” no blogue Ktreta

terça-feira, 10 de Junho de 2014

Tomás de Aquino deturpou a filosofia aristotélica


É arqui-sabido que Tomás de Aquino usou a distinção aristotélica entre substância e acidente para tentar explicar como, após a consagração eucarística, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo, embora continuem a ver-se, a saber e a cheirar como pão e como vinho.

O que não é tão sabido é que Tomás de Aquino deturpou a filosofia aristotélica que postulava que os acidentes nunca podiam deixar de acompanhar as respectivas substâncias e vice-versa. Para Aristóteles substância e acidente eram mutuamente dependentes e inseparáveis.

Garry Wills em "Why Priests," (p. 45) descrevendo o desenvolvimento da teologia Eucarística na Idade Média diz: 

“Embora Aristóteles tenha distinguido substância de acidente, ele não (não podia) os separou. Um cão não pode existir sem acidentes como tamanho. E não pode haver "um volume" ou "um branco" a subsistir sozinho sem uma substância. Tem de ser um volume ou um branco de alguma coisa. Um acidente "vem junto com" (symbainei) a coisa que é a sua essência. Tomás admitiu esta verdade natural: "Um acidente assume o que é da sua substância" (ST 3.77 a1r). Mas, para a Eucaristia, ele postulou uma ruptura milagrosa da ordem natural. Ele deu o passo radical de afirmar que uma substância pode existir sem os seus próprios acidentes, e os acidentes podem existir sem a sua própria substância, embora apenas por uma acção especial realizada por Deus cada vez que o sacerdote diz as palavras da consagração.”

Assim, Tomás usou a filosofia de Aristóteles de uma forma que este nunca imaginou. A transubstanciação produz milagrosamente algo que é contra natura, segundo a própria filosofia aristotélica.

Como Deus não pode operar milagres que produzam oximoros (coisas logicamente impossíveis de existir na realidade), a doutrina da transubstanciação é portanto falsa.

quinta-feira, 5 de Junho de 2014

Magistério infalível e niilismo filosófico


Alguns católicos romanos costumam argumentar que não se pode chegar ao conhecimento de nenhuma verdade, a não ser através de uma autoridade infalível. Daí a necessidade da existência de uma autoridade infalível que conduza os homens à verdade.

Por exemplo, é habitual afirmarem que:

"Não se pode conhecer o cânon bíblico de modo certo e absolutamente verdadeiro, a não ser que uma autoridade infalível o determine".

"Não se pode chegar à interpretação certa e absolutamente verdadeira das Escrituras, a não ser que um intérprete infalível a forneça".

Ora, mas como todos os homens são falíveis, também não podem chegar infalivelmente ao conhecimento de uma autoridade infalível, - os católicos não podem validar infalivelmente a sua autoridade infalível, ou seja o magistério romano.

Consequentemente, os homens não teriam qualquer possibilidade de chegar a algum conhecimento da verdade. Não existiriam verdades absolutas, nem nada a que pudéssemos chamar a realidade.

Este ponto de vista conduz à total desesperança, ao cepticismo mais profundo, e à insustentável posição do niilismo filosófico.

Obviamente, este ponto de vista não é para ser levado a sério, visto que parte de uma premissa falsa e filosoficamente insustentável de que os homens não podem chegar ao conhecimento da verdade sem ser infalíveis. Podemos saber muita coisa (incluindo o cânon bíblico e o significado das Escrituras) de forma certa e absolutamente verdadeira sem ser infalíveis!!!

Na verdade, uma autoridade infalível é totalmente inútil e desnecessária para que possamos chegar ao conhecimento certo e verdadeiro do que quer que seja.

terça-feira, 20 de Maio de 2014

A hipótese documentária ou JEDP


1. Pentateuco: a hipótese JEDP
A hipótese documentária

Entre as teses relacionadas com a Bíblia que foram adquirindo categoria de dogma de fé com o passar  dos anos encontra-se a denominada Hipótese documentária relacionada com o Pentateuco. Surgida durante o século XIX, em inícios do século XX já se tinha difundido de maneira indiscutível entre os autores liberais protestantes para os quais se converteu numa tese irrefutável.

Que assim sucedesse tinha a sua lógica dados os pressupostos teológicos com os quais estes trabalhavam. Explica também a resistência de judeus, protestantes conservadores, católicos e ortodoxos. No entanto, em meados do século XX, e muito especialmente após o Vaticano II, a Hipótese documentária tinha saltado para os seminários católicos – inclusive os mais conservadores - onde hoje em dia também é ensinada de maneira acrítica como a única explicação válida para a redacção do Pentateuco.

Hoje em dia, apenas as igrejas ortodoxas, as igrejas evangélicas conservadoras e alguns sectores do judaísmo resistem em aceitá-la mantendo perante ela um profundo cepticismo. Contudo, costuma ser comum que em traduções interconfessionais da Bíblia, como as publicadas pelas Sociedades bíblicas, façam referência à Hipótese documentária.

Neste capítulo e nos seguintes tentarei mostrar que a denominada Hipótese documentária é insustentável e que as razões para essa afirmação são fundamentalmente de carácter histórico e não apenas teológico.

A Hipótese documentária – ou Hipótese JEDP – é de aparição relativamente recente. Em 1895, Julius Wellhausen articulou de maneira quase canónica a teoria, avançada em parte por Graf e outros autores oitocentistas, de que o Pentateuco ou Torá não tinha sido escrito por Moisés como afirma a Bíblia e tinham sustentado judeus e cristãos durante séculos, mas que, pelo contrário, era uma junção de documentos procedentes de distintos redactores e, em todo o caso, muito posteriores a Moisés.

De acordo com a tese de Wellhausen, no Pentateuco se entrelaçam, na realidade, quatro documentos aos quais se denomina J (javista ou de Jeová), E (de Elohim), P (de Priesterkodex) e D (de Deuteronómio).

O J ou também javista – pelo nome de Deus utilizado nele – teria sido o primeiro e se teria redigido por volta do século IX já durante os reinados de David e Salomão. O E ou elohista – pelo nome de Deus Elohim - escrito algo depois do século IX a.C., recolheria fundamentalmente tradições do reino do Norte. Estes dois documentos teriam sido unidos num só, o JE, talvez por volta de 650 a.C., ainda que quem supostamente os juntou preservou ocasionalmente os relatos distintos que sobre o mesmo facto fizeram J e E. Durante o exílio da Babilónia, escreveu-se um terceiro documento, o P, de origem sacerdotal. Dedicado fundamentalmente a questões de carácter ritual, mas também às genealogias, em algum momento do século V a.C., este código sacerdotal se teria entrelaçado com J e E. Com a adição de D, um texto que pode ter aparecido durante a reforma do rei Josias no século VII, nos encontraríamos com todos os materiais que formam o Pentateuco embora a forma actual não a teria até 400 a.C.

Apesar de, nas suas linhas mestras, a descrição das linhas anteriores corresponder à Hipótese documentária que é ensinada em seminários e faculdades, não é menos certo que é difícil encontrar dois defensores da Hipótese documentária que estejam de acordo em todos os detalhes.

Por exemplo, Rudolf Smend (1912) sustentou que, na realidade, não havia um documento J mas dois aos quais denominou J1 e J2. Otto Eissfeldt (1922) defendeu que dentro de J há também um documento L redigido em 860 a.C. R. H. Kennett (1920) negou – e outros o seguiram – que D fosse um livro relacionado com a reforma de Josias e o datou posteriormente. Autores como Martin Kegel (1919), Adam C. Welch (1924) e Edward Robertson (1936, 1941, 1942, 1944) acentuaram este aspecto e atrasaram consideravelmente D. Max Löhr negou a existência de um documento P e atribuiu a redacção final do Pentateuco a Esdras. Por seu lado, Julius Morgenstern e Robert Pfeiffer apontaram a existência de documentos adicionais assinalando o primeiro a existência de um denominado K dentro de J e o segundo, a de outro chamado S também no seio de J.

Embora – insistimos nisto - a exposição anterior não pretenda ser de modo algum exaustiva, não é difícil de ver que os defensores da Hipótese diferem em muitos aspectos e que não vêem com muita clareza a delimitação dos documentos – costuma ser habitual nos comentários que uma parte de um versículo seja atribuída a um documento e outra parte a um segundo documento! – mas pode dizer-se que coincidem em algo de não pouca relevância, que Moisés não escreveu o Pentateuco mas que este foi redigido muito posteriormente.

Não há dúvida de que semelhante conclusão se reveste de uma enorme relevância. As bases apresentadas para a mesma as examinaremos no próximo capítulo.


2. Pentateuco: bases da hipótese JEDP
A hipótese documentária: as razões da sua existência

No último capítulo tentei realizar uma descrição sumária da denominada hipótese documentária, uma teoria do século XIX sobre a autoria do Pentateuco que desde há décadas se converteu praticamente em doutrina oficial nos seminários católicos e em boa parte dos protestantes.

Naturalmente, apesar das suas contradições e das suas distintas versões dificilmente conciliáveis, a Hipótese documentária pretende sustentar-se numa série de argumentos que tentarei reunir neste capítulo.

Adiantamos que esses argumentos são de maneira muito acentuada filhos do seu tempo.

1) Um ponto de vista natural e evolucionista contra uma abordagem sobrenatural. Em primeiro lugar, a Hipótese documentária parte de um esquema evolucionista da História das religiões. Começando pelo animismo e continuando pelo politeísmo, a religião, por definição, só pode aparecer em tom monoteísta num momento determinado da História, mas não antes. Nesse sentido, referências de carácter monoteísta como as contidas no Pentateuco não podem ser contemporâneas aos factos narrados e, por definição, devem ser fruto de uma evolução posterior. O mesmo poderia dizer-se de boa parte do ensino moral do Pentateuco como a proibição de dar culto às imagens (Êxodo 20, 4 ss). O aparecimento da filosofia hegeliana – que apresentava uma abordagem evolucionista da História baseada na contraposição de tese e antítese - e a sociologia da religião do século XIX contribuíram enormemente para sustentar este ponto de vista e para dotar aparentemente a Hipótese documentária de uma capa de seriedade científica.

2) Superioridade da crítica literária sobre os achados arqueológicos. A Hipótese documentária foi-se desenvolvendo também numa época caracterizada por uma prática da crítica literária entusiasmada com a ideia de desmembrar as fontes históricas na procura de sucessivas camadas de tradição nelas. Esse comportamento – que afectou também fontes clássicas como as obras de Homero e o Novo Testamento – foi favorecido pelo facto de que a arqueologia estava nos seus inícios e não se contrastavam as suposições documentárias com o que ia aparecendo graças à picareta do investigador. Quando, posteriormente, a arqueologia se foi desenvolvendo, poucos pareceram sentir-se inclinados a aceitar a ideia de que os achados arqueológicos poderiam questionar as suas pressuposições literárias. A verdade oficial estava já estabelecida e não ia permitir-se que fosse questionada por quem andava a procurar debaixo da terra vestígios do passado.

Partindo dessa base, os partidários da Hipótese documentária puderam afirmar – e continuam fazendo-o – que Moisés não pôde ter escrito o Pentateuco porque Israel não podia conhecer a Escrita nessa época ou que os relatos sobre os patriarcas estavam cheios de inexactidões históricas.

As consequências directas desta abordagem são fundamentalmente três:

1) O Pentateuco (e seguramente boa parte do Antigo Testamento) carece de carácter histórico. Semelhante afirmação choca com as próprias declarações do Antigo Testamento além de com as de Jesus e seus discípulos, mas ainda assim é admitida em centros que se definem como cristãos recorrendo a teses como a dos géneros literários muito popular, por exemplo, em âmbitos católicos. Assim, a informação contida em Génesis ou Êxodo poderá carecer de base real, mas isso, supostamente, não teria importância porque a forma de expressão dos distintos autores do Pentateuco teria sido a saga, a lenda etiológica, etc.

2) A religião de Israel seria de origem tão natural como a de qualquer outro povo. Naturalmente, essa conclusão é negada – embora nem sempre - pelos professores de faculdades e seminários que têm um carácter confessional e inclusive recorre-se a artifícios como o de indicar que no fim de contas a Providência se adapta aos meios naturais. É, no entanto, discutível que Deus tenha que moldar-se a um suposto modelo evolutivo da religião e, de facto, existem bastantes razões para pensar o contrário, mas sobre esse tema voltaremos mais adiante.

3) O Pentateuco – e com ele a História e a religião de Israel – é uma fraude. Como pode supor-se é duvidoso que o professor de um seminário aceite esta conclusão de maneira tão taxativa (embora alguns o façam. Fui testemunha disso), mas a verdade é que não resulta fácil saber como se pode evitar chegar a esse ponto. Se, efectivamente, Moisés não escreveu o Pentateuco e durante séculos distintos personagens foram escrevendo textos que lhe atribuíram e que costuraram até dar lugar a uma obra cuja autoria lhe atribuíram falsamente nos encontraríamos não com uma fraude mas com uma cadeia de fraudes verdadeiramente espectacular, fraude, por outro lado, a que se teria somado o próprio Jesus.

Como teremos ocasião de começar a ver no seguinte capítulo os pilares básicos da Hipótese documentária resultam, apesar do seu peso em distintos centros docentes, insustentáveis.


3. Hipótese JEDP e patriarcas
A hipótese documentária: as respostas

No último capítulo sobre a hipótese JEDP acerca do Pentateuco tentei realizar uma breve descrição dos argumentos em favor da denominada hipótese documentária (também chamada hipótese JEDP).

No presente capítulo e nos seguintes, tentarei abordar por que carecem de base e, na realidade, chocam frontalmente com a realidade.

A VERACIDADE ARQUEOLÓGICA DAS HISTÓRIAS DOS PATRIARCAS.

Como já indicamos, a Hipótese documentária foi-se desenvolvendo numa época caracterizada por uma prática da crítica literária entusiasmada com a ideia de desmembrar as fontes históricas na procura de sucessivas camadas de tradição nelas. No entanto, em paralelo, a arqueologia ou era inexistente ou se encontrava verdadeiramente verde como disciplina auxiliar da História.

Se o Pentateuco tivesse sido escrito nas distintas datas assinaladas pela Hipótese documentária estaria cheio de anacronismos e conteria múltiplas inexactidões. Isso pretendem os defensores da HD, mas o certo é que os achados arqueológicos levam-nos a ver exactamente o contrário.

Por exemplo, em 1925 – várias décadas depois da articulação da HD – descobriram-se em Nuzi, uma cidade situada a sudeste de Nínive, umas vinte mil tabuletas pertencentes ao século XVI-XV a.C. De maneira bem reveladora, nelas encontramos claros paralelos com o que sobre os Patriarcas nos narra a Bíblia.

Por exemplo, a ideia de que o mordomo deve ser o herdeiro de um homem sem filhos como sucedia com Abraão e Eliézer antes de o primeiro contar com descendência (Génesis 15:2 e 24:2); o roubo dos terafins de Labão por Raquel já que eram peça de boa sorte e a sua perda uma grande desgraça (Génesis 31); a toma de uma concubina para ter filhos – no caso de Abraão e Jacó - porque a esposa é estéril e convida o marido a que dê esse passo (Génesis 16:2 e 30:3) e inclusive a venda da primogenitura que Esaú realizou em favor de Jacó (Génesis 25:30-34) constituem exemplos bem esclarecedores de instituições jurídicas pertencentes precisamente à época dos Patriarcas, mas não da monarquia de David ou do regresso do Exílio.

O mesmo pode dizer-se do relato da compra da cova de Macpela por Abraão a Efrom o hitita (Génesis 23). De maneira lógica se se crê na data antiga do Pentateuco, incompreensível se aceitamos a hipótese documentária, os dados do Génesis ajustam-se precisamente a um código legal hitita encontrado em Boghazkoy.

Acrescenta-se a isto que os supostos anacronismos mencionados nestes relatos não são tais. Por exemplo, costuma-se repetir até à saciedade que o Génesis menciona o uso de camelos e que a sua domesticação não é anterior ao século XII a.C., ou seja, muito posterior aos Patriarcas pelo que também o Pentateuco teria que ter sido redigido em data mais tardia.

A realidade é que quase causa rubor escutar semelhante argumento e inclusive contemplá-lo em documentários de recente realização. De facto, já nas escavações de Mari realizadas por Parrot encontraram-se restos de 2.400 a.C., que pertenciam a camelos domesticados. Igualmente, uma tabuleta do século XVIII a.C., encontrada em Alalach, ao norte da Síria, menciona especificamente o camelo (gam.mal) como animal doméstico. Voltamos a encontrá-lo num relevo de Biblos, Fenícia, também no século XVIII a.C. e igualmente contamos com distintos selos cilíndricos da Mesopotâmia – o lugar de origem de Abraão – com ginetes cavalgando em camelos.

Também se costuma apontar que a menção dos filisteus em Génesis é um anacronismo que indica uma data tardia de redacção do Pentateuco. A realidade arqueológica é que os “filisteus” como povos do Egeu eram largamente conhecidos na época dos Patriarcas e não só conservamos restos da sua cerâmica mas inclusive há menções sobre eles numa tabuleta de Mari do século XVIII a.C.

Mas se tudo isto não bastasse, as descrições geográficas dos relatos patriarcais correspondem com exactidão ao que conhecemos do Bronze Médio (c.1900-1600 a.C.). Em termos gerais, os patriarcas estiveram associados com a zona montanhosa – e densamente florestal nessa época – onde se encontravam Dothan, Gerar, Siquém e Betel. De todas elas temos conhecimento na época que relata o Pentateuco e o mesmo pode dizer-se de Gezer e Megido.

Este conjunto de circunstâncias tem uma explicação clara e evidente se o Pentateuco foi escrito na época que afirma a Bíblia. São absolutamente incompreensíveis se, pelo contrário, o Pentateuco foi escrito no século X a.C., já para não falar no século VI a.C. Certamente, a aproximação ao Pentateuco partindo da Hipótese documentária pode encontrar anacronismos, mas – como voltaremos a ver em posteriores capítulos - não serão outros distintos aos da própria Hipótese que se mantém com o passar do tempo nos pressupostos de um século XIX que desconhecia a arqueologia.


4. Hipótese JEDP: Israel no Egipto
A hipótese documentária: respostas: Israel no Egipto

No último capítulo tentei deixar claro como os dados proporcionados pela Torá sobre o contexto histórico dos patriarcas correspondem de maneira tão meticulosa com fontes contemporâneas aos factos relatados que resulta altamente improvável – para não dizer, impossível – que fosse redigida nas datas que lhe atribui a Hipótese documentária. Algo similar sucede com as referências históricas.

Se nos detivermos na história de José, tem de reconhecer-se que o Génesis nos proporciona dados muito exactos sobre a vida no Império Médio, a contemporânea de Jacó e seus filhos, e não a do Império Novo, contemporâneo de Moisés. Por exemplo, Potifar, o amo de José, é descrito como saris hatabbachim em Génesis 37:36 e 39:1. O saris é o sr egípcio (oficial) e o sar hatabbachim é o comandante da guarda que conhecemos nas fontes egípcias.

Segundo Génesis 39, 2-3 José começou a sua carreira no Egipto como mordomo da casa de Potifar. Pois bem, Hick compilou partindo de monumentos do Império médio uma lista de escravos asiáticos que apresentam paralelos surpreendentes com o trabalho atribuído a José.

De todos é sabido como José foi atirado para a prisão após ser acusado falsamente pela mulher de seu amo e como no seu cativeiro encontrou-se com um copeiro e um padeiro. Ambos os ofícios aparecem consignados nas fontes egípcias do império médio. O copeiro era designado com o apelativo de mashqeh e os padeiros estavam divididos em três categorias. Também encaixa com a época o interesse pela interpretação de sonhos. De facto, contamos com um manual destinado a esse fim que pertence precisamente à XIX Dinastia.

O relato bíblico também menciona como, uma vez libertado, José teve que passar por diversas circunstâncias que encontram paralelo nas fontes egípcias. Por exemplo, está muito testificado o costume de barbear-se e mudar de roupa antes de aparecer perante o faraó (Gen 41:14). Também sabemos que lhe foi entregue um colar de ouro (Gen 41:41-42). D. B. Redford citou trinta e dois exemplos de pinturas em túmulos egípcios onde o faraó entrega colares de ouro a servos seus. De maneira bem reveladora, o presente considera-se uma recompensa por algo realizado que, no caso de José, foi a revelação de sonhos.

Igualmente o v. 43 nos fala de um carro entregue ao primeiro ministro, embora transpareça que semelhante uso era muito limitado naquela época. Isso mesmo é o que conhecemos pelas fontes egípcias do Império Médio durante o qual o carro era conhecido, mas escassamente utilizado o que explica amplamente como os hyksos, que se valeram profusamente dessa arma, puderam derrotá-los.

Se, efectivamente, a Torá foi redigida por Moisés, há uma notável lógica na exactidão dos dados proporcionados pelo Génesis acerca de José e da sua época. Pelo contrário, como poderia dar-se essa exatidão em textos escritos durante a monarquia de Israel e inclusive no regresso do Exílio da Babilónia? Nesta e noutras questões, a Hipótese documentária - uma vez mais! – levanta mais problemas do que os que resolve.


5. Hipótese JEDP e a moral de Moisés
A hipótese documentária ou JEDP: respostas: os critérios morais

A Hipótese documentária costuma apresentar como suposta prova da época tardia do Pentateuco o facto de apresentar critérios morais que, supostamente, não corresponderiam à época de Moisés. Seguindo uma visão – certamente, bastante discutível – que sustenta a evolução do pensamento religioso até chegar ao monoteísmo, não se poderia admitir que Moisés fosse monoteísta como também que o decálogo incluísse um mandamento – o segundo (Êxodo 20,4 ss) – que proíbe prestar culto às imagens.

Ambos os argumentos resultam, ao contrário do que afirma a Hipótese documentária, insustentáveis.

Para começar, não é verdade que a História da Humanidade mostra uma evolução do politeísmo para o monoteísmo. Na verdade, o que encontramos em boa parte dos primitivos actuais é um monoteísmo inicial que foi degenerando em politeísmo mantendo ou não a crença num primeiro deus o qual, isso sim, se costuma acantoar no panteão ou inclusive fazer desaparecer. Além disso, a época de Moisés esteve muito próxima ao monoteísmo de Akhenaton no Egipto (um ponto que Freud não deixou de perceber) e o certo é que ninguém negou o monoteísmo do faraó egípcio como impossível para a época. O monoteísmo da Torá não é, de modo nenhum, motivo para negar a autoria mosaica a não ser que se tenham poderosos preconceitos.

Algo similar sucede com a proibição contida nos Dez mandamentos de prestar culto às imagens (Êxodo 20:4-5; Deuteronómio 5:7-8).

Se se entendesse que Moisés não podia fazer constar essa proibição porque na sua época se prestava culto às imagens se teria também que chegar à conclusão que o Pentateuco também não poderia ter sido escrito hoje quando milhões de católicos – para não falar dos fiéis de outras confissões – prestam culto a imagens e dão-lhes um papel nada desprezível nas suas práticas e cerimónias religiosas.

Para além disso, pela enésima vez, a arqueologia apoia o contido no relato bíblico. Da mesma maneira que seria impossível realizar uma escavação no Antigo Egipto ou na Europa medieval sem que apareçam imagens de culto, não é menos certo que não encontramos imagens nos estratos mais antigos da História de Israel. Por exemplo, nas escavações de Megido escavaram-se os cinco níveis urbanos – todos israelitas – sem que aparecesse uma só imagem como deixou claro G. E. Wright que dirigiu as escavações realizadas pela universidade de Chicago.

Na realidade, na História de Israel produziu-se em relação ao culto às imagens uma evolução muito similar à seguida pelo cristianismo posterior. Inicialmente, encontrava-se proscrito e contemplava-se com horror. Somente a absorção – muito depois de Moisés – de influências pagãs levou a permitir com os argumentos mais diversos esse culto. No entanto, a pregação dos profetas sempre foi contrária ao culto às imagens – basta ler Isaías 44:6-20 para ver o que Deus pensa desse culto se cubra ou não com os argumentos mais especiosos – e não há a menor dúvida de que o povo de Israel aprendeu a lição e não voltou a contaminar-se com ele.

Por qualquer ponta que se pegue, os argumentos para negar a autoria mosaica são muito frágeis e partem mais de preconceitos filosóficos que de razões sólidas.

Mas se não bastasse, como veremos no nosso próximo capítulo, historicamente não houve discussão sobre a autoria de Moisés até muito recentemente.


6. JEDP: Quem escreveu a Torá?
A hipótese documentária ou JEDP: respostas: a escrita

A Hipótese documentária costuma apresentar como outro dos argumentos contra a autoria mosaica da Torá o facto de que a escrita não tinha chegado a Israel em datas como o século XV a.C. Dada essa circunstância, a Torá teve, segundo esta hipótese, que ser redigida vários séculos depois.

O certo é que este argumento resulta insustentável de uma perspectiva histórica pelo menos desde os inícios do século XX o que não impede que se veja repetido constantemente com incompreensível teimosia.

De facto, como afirmou nos seus dias o assiriólogo britânico A. H. Sayce, o certo é que séculos antes, não de Moisés mas dos próprios Patriarcas existia uma escrita cuja finalidade era fundamentalmente literária e da qual nos ficaram bibliotecas inteiras.

No caso de Canaã, já havia pelo menos cinco sistemas de escrita entre 2100 e 1500 a. C. Utilizava-se inclusive um alfabeto específico, o de Ugarit, séculos antes da chegada de Israel à Terra prometida. De facto, as descobertas das tabuletas de Ugarit e Ras Shamra em 1929 nos permitiram conhecer um sistema de escrita que é anterior ao século XV a.C.

A isso podia-se somar – como já mencionado – a escrita cuneiforme da Mesopotâmia, os sistemas de escrita de Creta (pelo menos três), o alfabeto fenício (em uso pelo menos desde o século XXIII a.C.), os hieróglifos egípcios e a escrita do Sinai.

Em 1907, Flinders Petrie encontrou no Sinai um conjunto de inscrições em caracteres cananeus cujo deciframento teve de esperar dez anos e a intervenção do egiptólogo Alan Gardiner. A sua datação correspondia a um período anterior à metade do segundo milénio a.C., nova prova de que a escrita não só existia antes de Moisés mas de que também a sua popularização tinha chegado a numerosos estratos sociais.

À luz das descobertas que nos foi proporcionando a arqueologia no último século resulta óbvio que, sem dúvida, existia escrita na época de Moisés, que possuía diversas formas, que estava muito difundida e que, obviamente, pôde ser utilizada para redigir a Torá.

Neste como noutros aspectos, a Hipótese documentária alimenta-se mais do preconceito e da preguiça intelectual que de factos sólidos. Na verdade, os dados objectivos a desmentem.


7. JEDP: os nomes de Deus
A hipótese documentária ou JEDP: respostas: os distintos nomes de Deus

A Hipótese documentária costuma apresentar como outro dos argumentos contra a autoria mosaica da Torá a utilização de diferentes nomes divinos.

Na verdade, se se supõe a existência de um documento J ou de um documento E – que, dito seja de passagem, jamais se encontraram – deve-se ao uso de YHWH, Elohim ou YHWH-Elohim.

Esta variedade de nomes tem sido de fácil explicação no seio do judaísmo desde há séculos. Em data tão longínqua como o século XII, Yehudah ha-Levi estudou o significado concreto desses nomes referentes a um só Deus. Assinalou assim que Elohim é sempre um nome de carácter geral que se refere ao Seu poder, mas não às suas características éticas ou à relação de pacto. Quando, pelo contrário, Deus deu testemunho de Si e é conhecido a Elohim acrescenta-se outro nome, o de YHWH que faz referência à sua revelação e também à condição de pacto. Dessa maneira, YHWH não tem sentido para todos, porque só é apropriado onde há consciência da sua revelação. Elohim, pelo contrário, é idóneo num sentido geral.

Umberto Cassuto, professor da Universidade hebraica de Jerusalém e um dos opositores mais firmes da Hipótese Documentária, incidiu de maneira especial neste aspecto indicando como Elohim era um nome comum aplicável não só ao Deus de Israel e como YHWH, pelo contrário, é um nome próprio.

A este respeito, o distinto uso dos nomes não deixa de ser revelador.

1) YHWH usa-se para expressar o conceito de Deus que tinha Israel, de maneira especial o seu carácter moral, mas Elohim é usado para uma visão mais ampla que podia ser aceite inclusive pelos sábios dentre os pagãos, ou seja, o Criador do universo e o que governa o cosmos.

2) YHWH usa-se para indicar uma relação directa com Deus própria da fé, mas Elohim relaciona-se mais com a reflexão sobre questões como a origem do mundo ou do ser humano.

3) YHWH usa-se associado com atributos divinos muito concretos e, em boa medida, exclusivos, mas Elohim associa-se antes como qualidades não tão claras nem perfiladas.

4) YHWH usa-se para referir o carácter pessoal de Deus, enquanto Elohim costuma estar mais relacionado com o Seu carácter transcendente.

5) YHWH usa-se para referir a relação de pacto com Israel ou seus antecessores, enquanto Elohim refere-se a contactos que não costumam ter que ver com Israel. 

6) YHWH aparece como o Deus que intervém na História de Israel, enquanto Elohim aparece ligado com uma visão universal.

Se reflectirmos nisso, podemos apreciar claros paralelos com a maneira em que crentes e não crentes se referem a Deus. Um não-crente no sentido bíblico costuma referir-se a Deus para aceitar ou negar a sua existência, mas não menciona o Senhor (YHWH) porque essa é uma denominação reservada aos que crêem e têm a pretensão de manter uma relação pessoal com Deus. Isso mesmo encontramos na Torá e é lógico que assim seja.

De maneira bem significativa, esse uso dos nomes divinos é harmónico no resto do Antigo Testamento. Por exemplo, os profetas geralmente utilizam YHWH e é o apropriado porque se referem ao Deus do pacto. Curiosamente, a excepção é Jonas, mas é fácil lembrar que Jonas dirigia-se fundamentalmente a uns assírios pagãos aos quais chamava ao arrependimento.

De maneira similar, na poesia bíblica o nome utilizado de maneira preeminente é YHWH, o Deus do Pacto, e as excepções com uso de Elohim aparecem referentes a âmbitos universais.

Na Torá, o uso de um nome ou outro encaixa na perfeição com o que acabamos de dizer. Por exemplo, que nome usa o autor da Torá para referir-se ao Deus que criou o mundo e o género humano? Elohim, como era de esperar. Que nome utiliza a serpente e Eva? Elohim, naturalmente. Que nome se usa no capítulo 2 de Génesis quando Deus se apresenta em relação de pacto com Adão e Eva? Logicamente YHWH, um nome que não utilizaria Satanás que não se encontra em relação de pacto com Ele. Também é YHWH quem chama Adão (3:9), quem o repreende (3:13) e quem anuncia o castigo da serpente e a redenção (3:14).

Contrariamente aos pressupostos que expõe a Hipótese documentária, o que encontramos não é uma junção de documentos, mas um autor que se comporta com uma prodigiosa coerência na hora de utilizar os nomes divinos de acordo com um significado muito concreto dos mesmos. Mas sobre este tema falaremos mais aprofundadamente no próximo capítulo.


8. JEDP: Moisés e o nome de YHWH
A hipótese documentária ou JEDP: respostas: YHWH o nome de Deus

Já indicamos que a utilização de YHWH ou Elohim no Antigo Testamento e, de maneira muito especial, na Torá obedece ao conteúdo que aos distintos nomes de Deus se dá em hebraico e não à existência de uma pluralidade de autores e documentos.

Desde logo, não deixa de ser significativo que essa mesma interpretação seja a que mantiveram durante milénios os intérpretes judeus mais destacados.

É o caso, por exemplo, de Rashi, o comentarista da Torá mais importante da Idade Média que ainda continua sendo estudado nas yeshivot. No seu comentário a Bereshit (Génesis), Rashi detalha ao abordar o relato da criação no primeiro capítulo como o uso de Elohim é obrigatório ao ter um âmbito universal, não referir-se ao pacto com Israel e ao indicar a possibilidade de juízo. Não há distintos autores. Há diferença de conteúdos teológicos nos nomes, uns conteúdos que os partidários da Hipótese documentária parecem incapazes de perceber.

Precisamente, por isso não é de estranhar a interpretação milenar que os exegetas judeus deram a um dos argumentos mais utilizados pelos defensores da hipótese documentária, a referência a Êxodo 6: 1-8. Vejamos, em primeiro lugar, o que indica a passagem:

YHWH respondeu a Moisés: Agora verás o que eu farei a Faraó, porque com mão forte os deixará ir; e com mão forte os lançará de sua terra. Falou mais Deus a Moisés, e disse: Eu sou YHWH. E eu apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó sob o nome de El-Shaddai, mas em meu nome YHWH não me dei a conhecer a eles. E também estabeleci o meu pacto com eles, de dar-lhes a terra de Canaã, a terra em que foram estrangeiros, e na qual andaram como peregrinos. E também ouvi o gemido dos filhos de Israel, aos quais têm submetidos a servidão os egípcios, e lembrei-me do meu pacto. Portanto dirás aos filhos de Israel: EU YHWH; e eu vos tirarei de debaixo das cargas do Egipto, e vos livrarei da sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido, e com grandes juízos. E vos tomarei como meu povo e serei vosso Deus: e vós sabereis que eu sou YHWH vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas do Egipto. E vos levarei à terra, pela qual levantei a minha mão prometendo que a daria a Abraão, a Isaque e a Jacó: e eu vo-la darei por herança. Eu YHWH.

A interpretação clássica do texto anterior, segundo a Hipótese documentária, é que YHWH foi um nome desconhecido para os patriarcas. Estes teriam invocado Deus unicamente como El-Shaddai (Deus Todo-poderoso) e, portanto, a aparição de YHWH em passagens anteriores a Moisés tão só indicaria uma pluralidade de autores e documentos.

Na verdade, uma das coisas que mais chama a atenção na Hipótese documentária é que, a aceitá-la, também teríamos que aceitar o carácter verdadeiramente trapalhão do suposto redactor do texto final da Torá que foi incapaz de resolver umas contradições aparentemente tão palpáveis. No entanto, a verdade é que nem existem tais contradições nem existiu tal redactor tardio.

Foi uma vez mais o próprio Rashi no seu comentário à Torá quem interpretou magnificamente esta passagem. O que Deus diz a Moisés não é que os patriarcas nunca tinham ouvido falar de YHWH mas que nunca o conheceram agindo na qualidade de tal, ou seja, como Deus que cumpre o pacto. Abraão, Isaque e Jacó podiam dar testemunho de que Deus se lhes havia manifestado como o Todo-poderoso – El Shaddai – em múltiplas ocasiões, mas nunca foram testemunhas de como o pacto de entregar-lhes a terra se havia cumprido.

Os israelitas da época de Moisés, sim, conheceriam Deus na sua qualidade de YHWH. Eu YHWH, Eu o Deus do Pacto, era quem garantia o cumprimento do pacto porque conseguiria, primeiro, a liberdade e, depois, lhes daria a terra pactuada com os Patriarcas. De maneira bem significativa, a passagem de Êxodo 6:1 ss longe de validar a Hipótese documentária, a refuta.

Por outro lado, resulta óbvio que o nome de
YHWH como tal foi conhecido pelos Patriarcas e seus coetâneos. Foi o caso de Abraão (Génesis 15:2, 8), Sarai (16:2), Labão (24:31), Ló (19:13) ou Jacó (28:13). Todos eles conheceram YHWH, mas não o viram agir na qualidade de tal, como Deus que executa os termos do pacto. Esse privilégio ficou reservado para os israelitas da época de Moisés.

Se a Hipótese documentária não suporta a menor análise crítica em relação aos nomes de Deus, ainda fica mais exposta a sua inconsistência quando vemos como aparecem esses nomes nos supostos documentos J, E e P. Por exemplo, Elohim aparece em passagens da suposta fonte J como Génesis 31:50 ou Génesis 33:5 e 11 e, de maneira semelhante, nos encontramos com YHWH em passagens do suposto documento E como Génesis 21, 33; 22, 4 e 11; 28, 21 ou Êxodo 18, 1 e 8-11.

Apesar de tudo, a debilidade do pilar da Hipótese documentária – os distintos nomes – não é de todo, como já vimos, a única razão para rejeitá-la pela raiz.

Continuaremos vendo-o, nos próximos capítulos.


9. Falsos “dobletes” da hipótese JEDP
A hipótese documentária ou JEDP: respostas: dobletes

Outro dos argumentos utilizados pelos partidários da Hipótese documentária (HD) para apoiar a suposta existência de vários documentos juntados na Torá é a aparição de supostos dobletes ou duplicações.

Substancialmente, estes se poderiam enquadrar em dois grupos. Por um lado, nos encontraríamos com o mesmo relato supostamente narrado duas vezes porque aparece de maneira diferente em dois documentos ou com uma história que também aparece duplicada embora os protagonistas variem porque num documento eram uns e noutro, outros.

Ao primeiro grupo, corresponderia, segundo a HD, por exemplo, os relatos da criação e, ao segundo, as referências às tentativas de seduzir as esposas de Abraão e Isaque.

Embora este argumento se continue a utilizar com prazer, a verdade é que resulta muito débil quando se examinam atentamente os dados.

Comecemos pelos supostos relatos contraditórios da Criação.

Segundo a HD, teríamos um primeiro relato E no capítulo 1 e outro J no capítulo 2. A realidade é que nos encontramos perante um relato único da criação que, primeiro, faz referência ao cosmos e que depois se centra no homem.

No curso desse relato – como já indicamos num capítulo anterior – o uso de distintos nomes de Deus está mais que justificado. Mas se o anterior não bastasse, o relato – que não relatos - da criação segue um padrão típico do Antigo Oriente no qual a uma exposição geral e concreta lhe segue outra mais ampla e detalhada. Por exemplo, na estela poética de Karnak onde o deus Amon se dirige ao faraó Tutmósis III – que, seguramente, é o faraó que não conheceu José e se dedicou a tornar a vida impossível aos filhos de Israel – encontramos, primeiro, uma descrição geral e esquemática da sua supremacia para depois dar com uma descrição mais detalhada e concreta. Obviamente, não existe nenhum egiptólogo louco que pretenda que a primeira parte da estela se originou com um documento, a segunda com outro e depois veio um redactor que os uniu. Semelhante dislate fica reservado, ao que parece, para os que se aproximam do texto da Bíblia para aplicar umas regras que nenhum historiador da Antiguidade aplicaria a César, Tácito ou Diodoro.

Em outros casos, por exemplo, os supostos dobletes pretendem algo tão absurdo como que determinados acontecimentos só se produzem uma vez na vida ou inclusive na História. Tomemos como exemplo o riso de Abraão e Sara ao saber que nasceria Isaque. Segundo a HD, Gn 17, 17 pertence a P; 18, 12 a J e 21, 6 a E e se referem ao mesmo facto. De certeza? Realmente é impossível crer que Sara riu incrédula ao ouvir que teria um filho e depois o fez de felicidade quando nasceu… ou é mais impossível a posição da HD insistindo em que, como dizia o bolero, “somente uma vez se ri na vida”?

Outro exemplo apresentado pelos partidários da HD é que a tentativa de um potentado de dormir com Sara (Gn 20) e com Rebeca (Gn 26:6-11) pertence a uma só história, mal entendida pelos autores dos distintos documentos e convertida em duas.

Mas de verdade alguém acredita que Abraão e Isaque foram os únicos nómadas cujas esposas foram cobiçadas por homens poderosos? Ou, para ir mais longe, se Deus salvou Abraão, é impossível pensar que também o fez com Isaque que era o filho da promessa?

Na verdade, pretender que os supostos dobletes indicam distintos documentos narrando só um facto é um disparate tão considerável como se um historiador assinalasse que a ruptura da frente francesa de Sedan que levou a cabo o exército alemão em 1870 e em 1940 foi só um único episódio e que esse único episódio foi confundido por dois redactores diferentes que consideraram que se tratava de factos distintos. Obviamente, esse historiador – verdadeiro transtornado – é impossível de encontrar.

Neste como noutros aspectos, a HD aparece uma vez mais como fruto de preconceitos em vez de como resultado de uma investigação séria.


10. Moisés escreveu o Pentateuco
A hipótese documentária ou JEDP: conclusão

Quem tenha tido a paciência de examinar os anteriores capítulos pôde comprovar que a denominada Hipótese Documentária conta com umas bases verdadeiramente frágeis que são desmentidas por uma análise rigorosa das fontes. Na verdade, a possibilidade de que algo remotamente semelhante fosse verdade não passou pela cabeça a nenhum judeu durante séculos.

Josué 8, 32 fala, por exemplo, da Torá de Moisés que ele tinha escrito e as referências a uma Torá escrita pelo próprio Moisés voltam a repetir-se em Josué 1, 7-8; 8, 31, 34; 23, 6. Encontramos o mesmo nos livros históricos (1 Reis 2, 3; 2 Reis 14, 6; 23, 25; 1 Crónicas 22, 13; 2 Crónicas 5, 10; 23, 18; 25, 4; 30, 16; 33, 8; 34, 14; 35, 12; Esdras 3, 2; 6, 18; 7, 6; Neemias 1, 7-8; 8, 1, 14; 9, 14; 10, 29; 13, 1) e, é claro, nos profetas (Daniel 19, 11 e 13; Malaquias 4, 4).

Evidentemente, é o que encontramos também nas primeiras fontes cristãs, as contidas no Novo Testamento. Jesus afirmou com clareza que a Torá foi dada através de Moisés (João 1, 17) e não através da junção tardia de uma série de documentos. De facto, as citações de Jesus referentes à autoria de Moisés são muito numerosas (Marcos 7, 10; 10, 3-5; 12, 26; Lucas 5, 14; 16, 29-31; 24, 27 e 44; João 7, 19 e 23, etc). Os apóstolos sabiam que Moisés escreveu a Torá (Marcos 12, 19) e Paulo indicou que foi Moisés quem tinha escrito essa passagem concreta da Torá (Romanos 10, 5). Podemos ver outras referências similares em Actos 3, 22; 6, 14; 13, 39; 15, 1 e 21; 26, 22; 28, 23; 1 Coríntios 9, 9; 2 Coríntios 3, 15; Hebreus 9, 19; Apocalipse 15, 3, etc.

Como já assinalámos, a crença em que os cinco livros da Torá se deveram à redacção de Moisés manteve-se inalterável até finais do século XIX. As razões fundamentais para sustentar este ponto de vista eram que assim o indica o próprio texto, que assim se tinha transmitido por gerações e que nenhum dos manuscritos da Torá com que se contava indicava sequer de maneira indirecta que na sua redacção teriam participado mais autores ou que o texto final fosse uma montagem de distintas obras. Obviamente, alguns versículos como os últimos de Deuteronómio onde se faz referência à morte de Moisés atribuíam-se a um redactor posterior mas em conjunto a Torá continuava considerando-se mosaica.

Este ponto de vista começou a ver-se seriamente questionado quando na última década do século XIX Julius Wellhausen defendeu que, na realidade, a Torá tinha experimentado uma redacção muito dilatada no tempo e que se devia a vários autores que, obviamente, não se podiam identificar com Moisés. Já tivemos ocasião de ver como os seus argumentos eram muito pobres - a escrita não existia na época de Moisés; o texto continha repetições ou dobletes de episódios; Deus era chamado com diversos nomes no texto o que indicaria diferentes obras...– por mais que se continuem repetindo pacoviamente até o dia de hoje inclusive em seminários. Mas porquê?

As razões são várias. A primeira é que a Hipótese documentária encaixa na perfeição com uma visão da história das religiões que parte de uma concepção evolutiva em virtude da qual o ser humano teria ido passando por diversos estádios do seu desenvolvimento espiritual e, portanto, resultava inaceitável uma formulação tão primitiva da fé monoteísta. Para materialistas, marxistas ou ateus – e as três categorias juntam-se na mesma pessoa em não poucas ocasiões – a HD constituía um instrumento perfeito para atacar a fé na Bíblia e, certamente, o aproveitaram.

Igualmente a HD resultava atraente pela sua insistência em determinar a datação de uma obra partindo não de critérios históricos e arqueológicos mas filológicos. Perdido numa sala nebulosa da Alemanha e confrontado apenas com textos e teorias e com a visão indirecta da realidade, o autor podia especular ao seu gosto despegando-se da verdade. Quando esta era descoberta pela picareta do arqueólogo, simplesmente se a desprezava.

Dada a falta de solidez da HD não estranha que, por exemplo, nos últimos anos se tenham multiplicado os livros de historiadores que defendem a impossibilidade da Hipótese documentária especialmente em relação ao primeiro livro da Torá, o Génesis. Rolf Rendtorff, por exemplo, indicou que a atribuição de palavras e expressões hebraicas a documentos concretos colapsa quando se realiza uma investigação séria e, ao mesmo tempo, assinala que a noção de teologia específica destes documentos é “ilusória”. Cyrus HGordon, por seu lado, repudiou igualmente a Hipótese documentária assinalando que a redacção da Torá é praticamente contemporânea com os episódios que relata. Inclusive John Van Seters que mantém a crença em alguns documentos afirmou que a hipótese documentária deve ser “contemplada amplamente como obsoleta”. Finalmente, Duane Garrett num dos estudos mais inteligentes sobre a redacção do Génesis escritos na última década do século XX nega a hipótese documentária e situa a redacção do livro nos dias de Moisés. Foi Cassuto quem salientou que a hipótese documentária não se apoiava em pilares caracterizados pela debilidade pela simples razão de que nem sequer tinha esses pilares.

E agora chegamos à razão fundamental pela qual a Hipótese documentária continua a ensinar-se em faculdades e seminários. Em boa medida, pode afirmar-se que a defesa actual da hipótese documentária descansa fundamentalmente na preguiça que caracteriza certos segmentos do mundo académico para actualizar o que aprenderam décadas antes. Cyrus Gordon, no final de um artigo dedicado ao estudo da hipótese documentária, relatou um episódio bem esclarecedor a tal respeito: “Um professor da Bíblia numa universidade de vanguarda pediu-me em certa ocasião que lhe desse os factos reais acerca de JEPD. Essencialmente lhe disse o mesmo que escrevi aqui. Respondeu-me então: o que me disse convenceu-me, mas continuarei a ensinar o antigo sistema. Quando lhe perguntei o porquê me respondeu: porque o que você me contou implica que teria que desaprender e voltar a estudar e reflectir. É-me mais fácil continuar com o sistema aceite da Alta Crítica para o qual contamos com livros de texto”.

Lamentavelmente, o caso do interlocutor de Gordon é bastante mais comum nos claustros universitários do que seria desejável e não só se dá em relação à HD. A questão é se semelhante comportamento é lícito de um ponto de vista académico. De uma perspectiva espiritual resulta pura, descarada e simplesmente aberrante.


César Vidal Manzanares
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