domingo, 21 de maio de 2017

A IGREJA


Quando o Novo Testamento fala de igreja se refere quase sempre (isto é, 100 vezes em 110) à igreja "local" que pode ser uma pequena igreja (Mt. 18:20) e que pode reunir-se até numa casa (Rom. 16:5). A Escritura também fala de cada comunidade local como do "Corpo de Cristo" naquele lugar e naquela época. Não devemos portanto ter o conceito que a comunidade de uma cidade representa o olho e a de outra cidade o ouvido… e por aí adiante, antes devemos crer que cada comunidade representa onde se encontra, o corpo de Cristo (1 Cor. 12:27).

Cada igreja local, portanto é autónoma e ainda que tenha comunhão e relações de colaboração com outras comunidades, reconhece um só "chefe" e este chefe é Cristo.

Nenhum "corpo" pode ter pretensões de superioridade sobre os demais e nenhuma "autoridade" tem o direito de exercer "poder" sobre as comunidades. Cristo é o chefe de cada comunidade e Ele guia e edifica mediante a obra do ministério, pela luz da Palavra, pela guia do Espírito. Se quisermos traçar um rápido esquema escritural da igreja, podemos articulá-lo como se segue:

1) A igreja cristã de todos os séculos e de cada lugar tem um só chefe: Jesus Cristo. Ef. 5:23.

2) A "igreja" é constituída pelos "primogénitos escritos nos céus" e pelos "justos tornados perfeitos" Heb. 12:22-23.

3) E é aperfeiçoada e edificada mediante a obra do ministério realizada pelos obreiros suscitados e dados por Cristo. Ef. 4:11.

4) A igreja de cada lugar e de cada época foi chamada a ser luz do mundo e a evangelizar os povos no poder do Espírito Santo. Mt. 5:14 - Atos 1:8.

5) A igreja é constituída na sua estrutura terrena pelas igrejas locais. Apoc. 1:4.

6) Cada igreja local tem Cristo, como chefe supremo. Apoc. 2:1.

7) Em cada igreja há perfeita igualdade entre todos os membros que a compõem. Mt. 23:8.

8) Cada igreja é aperfeiçoada e edificada por meio do serviço suscitado por Deus e exercido em humildade. Mat. 20:26.

9) Cada igreja é absolutamente autónoma e livre de administrar-se em relação à sua vida e experiência. Atos 14:26.

10) As "igrejas" têm uma relação igualitária de comunhão mediante os vínculos do amor e as relações espirituais de livre colaboração no plano de uma verdadeira e profunda identidade doutrinal e moral. Col. 4:16.

11) As igrejas não estão submetidas a nenhum poder central e não aceitam estruturas hierárquicas que queiram sobrepor-se à sua autonomia e liberdade. Atos 11:1-3.

12) Cada igreja é livre de:

a) Programar a sua atividade. Atos 13:1-3

b) Ter as suas missões e as suas publicações. Fil. 4:15

c) Subvencionar os seus obreiros cristãos. Gal. 6:6

d) Participar livremente em programas coletivos. 1 Cor. 16:1

e) Aceitar ministros e ter relações de comunhão e colaboração com outras igrejas, prescindindo de considerações denominacionais e organizativas, mas não das doutrinais e morais. Col. 4:16 - Mc. 9:38-39

f) Possuir os seus locais. 1 Cor. 16:19 - Col. 4:15

g) Reconhecer os seus ministros, anciãos e diáconos e conservar o governo da comunidade segundo os princípios estabelecidos pela Palavra de Deus e em função das necessidades locais. 1Tess. 5:12 - Fil. 1:1

13) Cada igreja ao recusar "órgãos", "títulos" e "qualificações" estranhos ao ensinamento da doutrina cristã não faz mais do que reafirmar a validade dos "ministérios" conferidos por Deus e portanto a "disponibilidade" para aceitar livremente a oferta de colaboração edificativa que pode ser dada e recebida. Rom. 1:11-12

14) Cada igreja deve sentir-se comprometida a defender a liberdade cristã que deriva da verdade. Gal. 5:1

sábado, 13 de maio de 2017

Giorgio Spini*, sobre a Reforma - 1957


Os homens da Reforma não foram argutos políticos ou clarividentes revolucionários sociais ou apoiantes da liberdade da cultura. Foram terrivelmente ingénuos e simples: acharam que era preciso procurar primeiro o reino dos Céus e que tudo o resto seria acrescentado: não hesitaram em crer uma coisa tão absurda, à vista humana pelo menos, que o grão de mostarda do Evangelho pudesse crescer até se tornar árvore gigante e abrigar debaixo da sua sombra pássaros de todo o género. Nós fomos, até agora pelo menos, mais realistas, mais astutos, mais doutos: procuramos o reino desta terra. A história nos demonstrou que a simples fé da Reforma era capaz de mover montanhas seculares e abater muros mais firmes do que aqueles de Jericó: nos demonstrou ao contrário que a nossa sabedoria serve apenas para levantar frágeis casas expostas a ruir ao primeiro adensar da tempestade e ao primeiro sopro de ventos adversos. Ainda hoje, a tanta distância de séculos, a mensagem da Reforma é sinal de contradição ou de salvação: mensagem de escândalo ou de loucura, como ela suou a primeira vez, na face dos poderes coligados do pontificado romano, do império de Carlos V, da banca dos Fugger. Como há tantos séculos, essa mensagem não nos chega do alto de um trono, nem nos vem imposta com exércitos armados ou tesouros de financeiros. Vem-nos apenas da quebrada voz de um humilde testemunho, desamparado e sozinho diante dos poderes deste mundo, que nos repete: «Não posso fazer de outro modo. Que Deus me ajude».


*Giorgio Spini (1916 -2006) foi um dos mais importantes historiadores italianos do século XX.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Dai a César o que é de César


Ninguém dê parte dos seus impostos a uma igreja ou instituição religiosa, porque é sinal que essa igreja ou instituição se aliou com o Estado, e portanto perdeu a sua liberdade em Cristo Jesus. 

Dai a César o que é de César.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

A tenacidade do texto do Novo Testamento


Alguém te mostrou uma apresentação com X variantes textuais ou te disse que há mais variantes textuais que letras/versículos/etc bíblicos?

Alguém te apresentou uma teoria da conspiração onde certo texto bíblico que ele não gosta foi forjado de alguma forma misteriosa?

Este texto então é para você. Porque graças à tenacidade do texto do Novo Testamento, todas as variantes textuais passam a agir a favor da confiabilidade das Escrituras e nos garante que o texto original chegou até nós. Ela até nos mostra se houve tentativa de corrupção do texto!!!

http://www.e-cristianismo.com.br/teologia/bibliologia/tenacidade-do-texto-do-novo-testamento.html

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O propósito de Deus segundo a eleição (ou a doutrina da predestinação)


Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo; aí serão chamados filhos do Deus vivo. Também Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque ele completará a obra e abreviá-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra. E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra. Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço; como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; e todo aquele que crer nela não será confundido. (Romanos 9:11-33)

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogénito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. (Romanos 8:28-33)

Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo. (1 Tessalonicenses 5:9)

Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade. (2 Tessalonicenses 2:13)

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado, em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência; descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade. (Efésios 1:3-11)

Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas. (1 Pedro 1:1-2)

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1:12-13)

Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. (Tiago 1:18)

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. (Efésios 2:8)

Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer. (João 6:44)

Ninguém pode vir a mim, se por meu Pai lhe não for concedido. (João 6:65)

E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna. (Atos 13:48)

domingo, 16 de abril de 2017

Os evangelhos inicialmente não circulavam como documentos anónimos


"Todos os quatro Evangelhos são anónimos no sentido formal de que o nome do autor não aparece no texto da obra em si, mas apenas no título (o que discutiremos abaixo). Mas isso não significa que eles eram intencionalmente anónimos. Muitas obras antigas eram anónimas no mesmo sentido formal, e o nome pode até nem aparecer no título sobrevivente da obra. Por exemplo, isto é verdade para a Vida de Demonax de Luciano (Demonactos bios), que como uma bios (biografia antiga) é genericamente comparável com os Evangelhos. No entanto, Luciano fala na primeira pessoa e obviamente espera que os seus leitores saibam quem ele é. Tais obras, muitas vezes, circulavam em primeira instância entre amigos ou conhecidos do autor que sabiam quem era o autor a partir do contexto oral em que a obra era lida pela primeira vez. O conhecimento da autoria seria transmitido quando cópias fossem feitas para outros leitores, e o nome seria anotado, com um título breve, na parte externa do rolo ou numa etiqueta afixada ao rolo. Ao negar que os Evangelhos eram originalmente anónimos, a nossa intenção é negar que eles foram inicialmente apresentados como obras sem autores. O caso mais claro é Lucas por causa da dedicação da obra a Teófilo (1:3), provavelmente um patrono. É inconcebível que uma obra com um dedicatário nomeado fosse anónima. O nome do autor podia figurar num título original, mas em todo o caso seria conhecido pelo dedicatário e outros primeiros leitores, porque o autor apresentava o livro ao dedicatário.... No século I d.C., a maioria dos autores davam aos seus livros títulos, mas a prática não era universal... Independentemente de algum desses títulos se originar ou não dos próprios autores, a necessidade de títulos que distinguissem um Evangelho de outro surgiria assim que alguma comunidade cristã tivesse cópias de mais do que um na sua biblioteca e lesse mais do que um nas suas reuniões de culto... No caso dos códices, "etiquetas apareciam em todas as superfícies possíveis: abas, capas e lombadas". Neste sentido também, portanto, os Evangelhos não teriam sido anónimos quando eles pela primeira vez circulavam pelas igrejas. Uma igreja ao receber a sua primeira cópia de um evangelho receberia com ele informação, pelo menos em forma oral, sobre a sua autoria e, em seguida, usava o nome do seu autor quando etiquetava o livro e quando o lia no culto. Nenhuma evidência existe que estes Evangelhos alguma vez foram conhecidos por outros nomes".

(Richard Bauckham, Jesus And The Eyewitnesses [Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 2006], pp. 300-301, 303)

"No entanto, permanece o facto de que é totalmente improvável que neste período obscuro, num lugar particular ou através de uma pessoa ou por decisão de um grupo ou instituição desconhecida, as quatro subscrições dos Evangelhos, que até então circulavam anonimamente, de repente surgissem e, sem deixar vestígios de títulos divergentes anteriores, se estabelecessem em toda a igreja. Que aqueles que negam a grande antiguidade e, portanto, basicamente a originalidade das subscrições dos Evangelhos para preservar a sua "boa" consciência crítica, dêem uma melhor explicação da testificação completamente unânime e relativamente cedo destes títulos, da sua origem e dos nomes dos autores associados a eles. Tal explicação ainda não foi dada, e nunca será. Os académicos do Novo Testamento persistentemente ignoram factos e questões básicas com base em velhos hábitos".

(Martin Hengel, The Four Gospels And The One Gospel Of Jesus Christ [Harrisburg, Pennsylvania: Trinity Press International, 2000], p. 55)

sábado, 8 de abril de 2017

A mais antiga (e única) oração a Maria dos primeiros quatro séculos de cristianismo


Tudo o que quatro séculos de cristianismo nos deixou sobre orações à bem-aventurada Maria se resume a uma oração chamada Sub tuum praesidium.  Segundo um reconhecido mariólogo:

"Em 1938 dava-se a conhecer o papiro em que estava contida essa oração (Payrus n. 470 da John Rylands Library de Manchester)... Traduzido na sua forma original diz: «Debaixo da tua misericórdia nos refugiamos, ó Theotokos, não desprezes as nossas súplicas na necessidade, mas livra-nos do perigo, única pura, única bendita». Das considerações de Mercenier deduzia-se que devia-se situá-lo entre 300 e 450. A primeira data deduzia-se pelo tipo de escrita. A segunda porque existe uma tradução copta, a qual suporia que o texto original é anterior à ruptura dos monofisitas ... esta segunda argumentação, no entanto, não é demonstrativa, já que não consta que a tradução copta seja antiga... Por razões que nem a todos parecerão convincentes ... Stegmüller, a.c., p. 77/82, estabelece uma data não anterior a finais do século IV e não posterior ao ano 500".

(Cándido Pozo, S.I., María en la obra de redención. Madrid: BAC, 1974, p. 39, n. 89).

Em suma, a mais antiga oração a Maria de que há registo só foi dada a conhecer no século XX, data dos séculos IV ou V, embora é provável que seja anterior ao Concílio de Éfeso de 431, e não se sabe onde e por quem foi escrita. 

Parece pois que orações à bem-aventurada Maria, brilham pela sua ausência, nos primeiros quatro séculos de cristianismo.

terça-feira, 21 de março de 2017

Vitorino e a perpétua virgindade de Maria


Pouco do que Vitorino de Pettau escreveu chegou aos nossos dias. Mas ao que parece este antigo bispo fez alguns comentários relevantes para a virgindade perpétua de Maria nos seus escritos que não sobreviveram. Em resposta a Helvídio, que argumentou contra a virgindade perpétua de Maria, Jerónimo comentou:

"Você, se sentindo uma pessoa sem conhecimentos, usou Tertuliano como sua testemunha e citou as palavras de Vitorino, bispo de Perávio. De Tertuliano não direi senão que não pertenceu à Igreja. Mas com respeito a Vitorino, afirmo que já ficou provado pelo Evangelho - que ele falou dos irmãos de Nosso Senhor não como sendo filhos de Maria, mas irmãos no sentido que expliquei, ou seja, irmãos sob o ponto de vista de parentesco, não de natureza. Estamos, contudo, desperdiçando nosso percurso com ninharias e deixando a fonte da verdade, estamos seguindo insignificantes pontos de opinião. Não deveríamos arrolar contra você toda a série de escritores antigos? Inácio, Policarpo, Ireneu, Justino Mártir e muitos outros homens apostólicos e eloquentes, que expuseram as mesmas explicações contra Ebião, Theodoto de Bizâncio e Valentino, escreveram volumes repletos de conhecimentos. Se você alguma vez lesse o que eles escreveram, você se tornaria um homem sábio" (A Perpétua Virgindade da Bem-Aventurada Maria, Contra Helvídio, 19).

Em quem devemos acreditar em relação à opinião que Vitorino sustentava? Em Helvídio ou em Jerónimo? Não haverá uma maneira de discernir quem é mais credível? Não haverá uma razão para preferir um lado ao outro? Eu penso que temos boas razões para confiar em Helvídio em detrimento de Jerónimo sobre este assunto.

Em primeiro lugar, note-se que a posição de Helvídio é mais moderada e razoável. Ele apenas cita dois padres em apoio da sua oposição à virgindade perpétua de Maria, embora ele pudesse ter avançado com mais do que esses dois. Em contraste, Jerónimo afirma que "toda a série de escritores antigos" está do seu lado. Aparentemente Helvídio estava a ser mais cuidadoso com o que alegava.

E muito do que Jerónimo diz sobre os padres é impreciso. A sua desqualificação de Tertuliano é inconsistente com o que fontes anteriores disseram sobre ele e o quão influente ele foi durante o seu tempo e depois do seu tempo. Ver aqui. Tertuliano não pode ser descartado tão facilmente como Jerónimo sugere. Mas, pior ainda, nenhum dos padres referidos por Jerónimo defende a virgindade perpétua de Maria nos seus escritos existentes, e não temos razão para pensar que algum deles a defendeu em escritos que não existem mais. De facto, noutros lugares Jerónimo apenas menciona os oito documentos de Inácio e Policarpo que temos hoje, o que sugere que ele não tinha conhecimento de outros disponíveis na sua geração (Vidas de Homens Ilustres, 16-7). Eusébio, escrevendo várias décadas antes de Jerónimo, confirma que esses oito documentos era tudo o que havia sido preservado de Inácio e Policarpo (História Eclesiástica, 3:36, 4:14). Mas nem Inácio nem Policarpo defendem a virgindade perpétua de Maria em qualquer desses escritos. E nos seus escritos existentes, Ireneu parece contradizer a virgindade perpétua de Maria, em vez de afirmá-la (Eric Svendsen, Who Is My Mother? [Amityville, New York: Calvary Press, 2001], 101-2). Portanto, Jerónimo não só não demonstra a sua afirmação de que "toda a série de escritores antigos" concorda com ele, como a sua alegação é manifestamente falsa em relação a três dos quatro nomes que referiu e não comprovada em relação ao quarto (Justino Mártir).

Além disso, Jerónimo tenta descartar o que Helvídio cita de Vitorino, dizendo que ele interpreta Vitorino da mesma maneira em que interpreta as passagens bíblicas citadas contra a virgindade perpétua de Maria. Mas, uma vez que a opinião de Jerónimo sobre o material bíblico é incorreta, a sua opinião sobre Vitorino fica enfraquecida pelo seu reconhecimento de que aplica o mesmo tipo de raciocínio a Vitorino para reconciliar os comentários de Vitorino com a virgindade perpétua de Maria. E pode ter havido mais coisas nos escritos de Vitorino que eram problemáticas para a posição de Jerónimo. Visto o quanto Jerónimo deturpou os outros padres, não devemos assumir que o que ele disse sobre Vitorino é rigoroso. Mesmo que nos limitássemos ao que Jerónimo aborda de Vitorino, o seu reconhecimento de que aplica o mesmo tipo de raciocínio a Vitorino que aplicava à Bíblia é suficiente para justificar o favorecimento de Helvídio sobre Jerónimo. Mas pode ter havido ainda mais material contra a posição de Jerónimo em Vitorino do que aquilo que ele reconhece.

J.N.D. Kelly resume alguns dos problemas com a resposta de Jerónimo a Helvídio:

"A evidência do Novo Testamento ainda é debatida, mas a grande maioria dos estudiosos críticos concordam que a sua interpretação (de Helvídio), e não a de Jerónimo, é a correta. Os esforços de Jerónimo para contornar o significado óbvio dos textos são entendidos pela maioria das pessoas hoje como um apelo especial, o subproduto da sua pré-convicção de que a relação sexual é impura. A sua lista de padres ortodoxos que o apoiariam foi uma cortina de fumo desonesta típica do seu estilo de debate; é duvidoso que tenha tido qualquer estreito conhecimento dos escritores que listou, e ainda mais duvidoso é que eles tenham sustentado as opiniões que ele atribuiu a eles" (Jerome [Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2000], 106-7)

Kelly também aponta que a opinião de Jerónimo sobre a virgindade perpétua de Maria mudou ao longo do tempo, dado que ele inicialmente rejeitou a sua virgindade in partu, mas mais tarde a aceitou (106 e n.10 em 106). Esse desenvolvimento dá-nos mais razão para confiar em Helvídio do que em Jerónimo. Enquanto Jerónimo se retrata a si mesmo como aquele que mantém a tradição universal ortodoxa defendendo a virgindade perpétua de Maria, nós vemos a sua opinião sobre a virgindade in partu mudando ao longo do tempo, acompanhando a maré crescente de ascetismo.

Em suma, no contexto da sua discussão sobre Vitorino, Helvídio parece ser mais cuidadoso, mais rigoroso e mais consistente do que Jerónimo. E a própria descrição de Jerónimo daquilo que ele faz para reconciliar Vitorino com a sua posição dá-nos razão para confiar mais na leitura que Helvídio faz de Vitorino do que na de Jerónimo. Vitorino deve ser incluído na lista de padres que provavelmente negaram a virgindade perpétua de Maria.

Jason Engwer

domingo, 12 de março de 2017

Mitos sobre os Padres da Igreja e o Cristianismo primitivo


http://triablogue.blogspot.pt/2015/08/skeptical-myths-about-church-fathers.html

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A carta espúria de Dionísio, o areopagita, sobre a assunção de Maria


A doutrina católica de que Maria foi elevada ao céu em corpo e alma é uma ficção que não tem nenhum tipo de evidência histórica, bíblica ou patrística que a valide. De modo que a única forma de tentar dar-lhe alguma credibilidade é utilizando fontes apócrifas e fraudes.

Já aqui fizemos referência ao sermão apócrifo de Agostinho e a carta espúria de Jerónimo sobre a assunção de Maria aos céus. Agora é a vez de fazer justiça a Dionísio o Areopagita.

Dionísio é referido por alguns sites católicos romanos e ortodoxos como uma testemunha da crença na assunção/dormição de Maria já no século I. Por exemplo, um texto que é replicado em vários lugares é este:

O texto mais antigo relatando a Assunção de Virgem Maria é o texto de Dionísio:

Dionísio o Areopagita, sobre a Dormição da Deípara

Dionísio o Areopagita (+ 96dC), sobre a Dormição da Deípara:

“Pois até mesmo entre os nossos hierarcas inspirados, quando, como tu sabes, nós juntamente com ele [um presbítero ateniense chamado Hierotheos] e muitos de nossos santos irmãos se reuniram para contemplar aquele corpo mortal [de Maria], Fonte da Vida, que recebeu o Deus encarnado, e Tiago, irmão de Deus [isto é, Tiago de Jerusalém] estava lá, e Pedro, o chefe maior dos escritores sagrados, e então, depois de terem contemplado isso, todos os hierarcas ali presentes celebraram, segundo o poder de cada um a bondade onipotente da fraqueza Divina [ou seja, que Deus se fizesse homem]”.

“Naquela ocasião, eu digo, ele [isto é, Hierotheos] ultrapassou todos os Iniciados com exceção dos escritores divinos, sim, ele estava completamente transportado, completamente absorto, e ficou tão emocionado através da comunhão com aqueles mistérios que ele estava comemorando, que todos os que o ouviram, viram e conheceram (ou melhor, não o conheceram) considerou que ele foi arrebatado por Deus e um hinografo divino”.

Fonte: Dionísio o Areopagita - Sobre os Nomes Divinos 3:2 

No entanto, este documento sobre o qual católicos e ortodoxos elaboram a sua doutrina é espúrio. Quaisquer semelhanças no texto com noções gnósticas não são mera coincidência. 

A Catholic Encyclopedia no tema da assunção de Maria diz o seguinte:

A crença na assunção corporal de Maria está fundamentada no tratado apócrifo de De Obitu S. Dominae, que traz o nome de São João, o qual no entanto pertence ao quarto ou quinto  século. Também é encontrada no livro De Transitus Virgines, falsamente atribuído a Melitão de Sardes, e numa carta espúria atribuída a Dionísio o Areopagita. Se consultarmos escritos genuínos no Oriente, a crença é mencionada nos sermões de Santo André de Creta, São João de Damasco, São Medestus de Jerusalém e outros. No Ocidente, São Gregório de Tours (De gloria mart., I, iv), foi o primeiro a mencioná-la. 

Holweck, Frederick. "The Feast of the Assumption." The Catholic Encyclopedia. Vol. 2.New York: Robert Appleton Company, 1907. 

E relembrando o que diz  Ludwing Ott, um famoso teólogo romano, no seu Manual de Teologia Dogmática:

"A ideia da assunção corporal da Virgem se acha expressa primeiramente nos relatos apócrifos sobre o trânsito da Virgem, que datam dos séculos V e VI... O primeiro escritor eclesiástico que fala da assunção corporal de Maria, seguindo um relato apócrifo do Transitus B.M.V. é Gregório de Tours (m. 594)..." (p. 328).

Portanto, se quisermos consultar escritos autênticos que mencionem a crença na assunção de Maria, temos de ir a autores que viveram muitos séculos depois do suposto evento e a nenhum texto de Dionísio o Areopagita.

domingo, 1 de janeiro de 2017

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quantos livros continha a Septuaginta original, e qual era o cânon do AT reconhecido pelos judeus de Alexandria?


Quanto ao número de livros que foram traduzidos em Alexandria não é possível saber com exatidão. Os livros que compõem o cânon hebraico foram com toda a certeza, outros livros religiosos hebraicos que se misturaram com os livros canónicos e que aparecem nos códices da Septuaginta dos séculos IV e V (em número variável conforme o manuscrito) podem ter tido origem na obra de tradução dos sábios alexandrinos mas isto é duvidoso.

Quanto ao cânon do AT reconhecido pelos judeus de Alexandria, não há nenhuma evidência que indique que fosse diferente daquele dos judeus da Palestina, cuja extensão se tornou consensual entre os judeus pela época dos macabeus, ou seja, na segunda metade do século II a.C., quando a Septuaginta ainda estava em preparação. A partir daí, houve ocasionalmente discussões sobre se se devia excluir algum ou outro livro mas nunca de incluir algum. 

Isto é suportado pelas seguintes razões:

1. Exceto para alguns fragmentos, os manuscritos existentes da Septuaginta são de origem cristã. O mais antigo data de aproximadamente 350 d.C., ou seja, cinco séculos mais tarde da finalização da tradução. É simplesmente impossível saber se as cópias hebraicas incluíam os mesmos livros que as cópias cristãs. Segundo a Encyclopedia Britannica, «É igualmente possível que as adições às Escrituras hebraicas sejam de origem cristã». 

2. Nos diversos manuscritos existentes da Septuaginta, os livros apócrifos incluídos variam em número e nomes. Por exemplo, o manuscrito Vaticano não inclui Macabeus. O manuscrito Alexandrino inclui o apócrifo/pseudo-epigráfico 1 Esdras, além de 3 e 4 Macabeus, e no NT 1 e 2 Clemente. No códice Sinaítico falta Baruc, considerado canónico pelo Concílio de Trento, mas está incluído 4 Macabeus e, no NT, a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. Existem outras variantes, que levantam a questão de quantos livros apócrifos realmente incluía a Septuaginta original. É perfeitamente possível que não incluísse nenhum deles.

3. Filão um filósofo judeu aproximadamente contemporâneo de Cristo que viveu precisamente em Alexandria (aprox. 20 a.C.-50 d.C.) nunca usou os deuterocanónicos/apócrifos, apesar de ter escrito muito.

4. Durante o segundo século da nossa era, e a partir da apropriação da Septuaginta por parte dos cristãos, os judeus de Alexandria adotaram a versão de Áquila, feita a partir do cânon palestino e que manifestamente não incluía os deuterocanónicos/apócrifos. 


A ter existido diferenças acerca do cânon, é improvável que os judeus alexandrinos tivessem recebido esta versão sem mais. 

5. A isto deve somar-se o testemunho de Orígenes, que viveu na mesma cidade e foi o máximo erudito bíblico pré-niceno, que escreveu «Não se deve ignorar que os livros testamentários, tal como os transmitiram os hebreus, são vinte e dois, tantos como o número de letras que há entre eles». Cita a lista do cânon palestino com os seus nomes e acrescenta: «Os [livros] dos Macabeus estão fora destes» (Eusébio, História Eclesiástica VI, 25, 1-2). 
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